BC cria sistema de alertas que acompanha dinheiro que sai para crypto
O regulador avançou na montagem de um mecanismo para monitorar e repassar alertas sobre ameaças que envolvem o mercado de criptoativos. O desenho saiu de uma parceria com a Hypernative, firma de segurança no blockchain, e já foi testado com agentes do mercado.
A informação foi confirmada por Regina Pedroso, diretora-executiva da ABToken, a Associação Brasileira de Tokenização, em entrevista ao Valor Econômico publicada em 25 de agosto.
O plano prevê que ele entre em operação pelas associações do setor em até duas semanas.
As entidades receberão o aviso e o encaminharão aos integrantes de cada uma delas. Com isso, o mecanismo sai do campo do desenvolvimento para entrar em fase de operação.
O rastro do dinheiro que deixa os bancos
A preocupação declarada pelo regulador está em preservar a capacidade de localizar os recursos quando eles deixam os bancos tradicionais e passam para o universo das carteiras crypto. É nessa travessia que boa parte do risco de fraude e lavagem se concentra, porque os controles do sistema financeiro convencional nem sempre alcançam o destino final do dinheiro. A origem das tratativas está em meados de 2025, quando o regulador mobilizou associações e operadores para montar um grupo dedicado a sinalizar ataques cibernéticos, do qual a ABToken fez parte.
Os testes de validação reuniram um grupo que incluiu bancos e empresas do setor, entre eles a Mercado Bitcoin e a Foxbit.
Na visão da executiva, o conjunto de integrantes de cada entidade participante terá acesso aos avisos. As associações atuam como ponto central de recepção e redistribuição das informações, o que alarga o alcance do mecanismo sem que o regulador precise acionar cada instituição individualmente. O desenho, portanto, apoia-se na rede associativa para multiplicar o alcance do aviso emitido pelo Banco Central.
A motivação mais recente para o movimento vem de um episódio grave. Em julho de 2025, criminosos exploraram uma vulnerabilidade nos sistemas da C&M Software, empresa que conecta instituições financeiras ao arranjo de pagamentos, e desviaram cerca de US$ 180 milhões do sistema financeiro brasileiro.
Parte dos valores foi convertida em criptomoedas e escoada por exchanges.
O caso expôs um ponto cego que o projeto agora tenta cobrir, porque, quando o dinheiro migra do setor tradicional para o crypto, a capacidade de identificação e recuperação cai. É justamente esse intervalo que o sistema de alertas procura encurtar.
A trava de 24 horas nas transferências
A resposta regulatória, no entanto, não se restringiu ao compartilhamento de avisos.
Em 7 de agosto de 2026, o Banco Central publicou a resolução BCB 584, que altera a resolução BCB 142 e amplia as regras de prevenção a fraudes para os prestadores de serviços de ativos virtuais, alcançando inclusive as stablecoins, ativos referenciados em moeda fiduciária amplamente usados em transferências internacionais.
Pela nova regra, a partir de 1º de janeiro de 2027, as instituições terão de reter por 24 horas as transferências de ativos virtuais que superem o equivalente a US$ 10 mil quando o destino for uma entidade no exterior ou uma carteira sob autocustódia. O corte considera uma operação individual ou o total movimentado pelo cliente no mesmo dia, e valores menores também podem ser retidos quando as políticas de risco indicarem análise adicional.
A retenção tem caráter cautelar e não representa bloqueio definitivo dos valores. O intervalo serve para que a instituição faça a análise de risco e verifique indícios de fraude antes de liberar a operação, podendo concluir a avaliação em prazo menor se houver decisão fundamentada e documentada.
A medida foi aprovada em sessão de 6 de agosto e assinada pelo diretor de Regulação, com vigência marcada para o início de 2027.
O sistema de alertas tem cronograma mais curto. As associações devem iniciar a adequação dentro das próximas semanas, recebendo os boletins e distribuindo os avisos entre os integrantes de cada entidade.
Há uma distinção importante entre os dois instrumentos. O alerta procura antecipar e espalhar a informação sobre uma ameaça em curso, enquanto a retenção atua como trava sobre a operação. Juntos, eles atacam momentos diferentes do mesmo problema, um na disseminação e outro no fluxo de dinheiro. O desenho coloca o Brasil entre os países que buscam integrar a supervisão de criptoativos aos mecanismos já existentes de combate a fraudes e a lavagem de dinheiro.
O desafio agora está na execução. A plataforma passou pelo crivo do regulador, alguns comunicados já circularam, e cabe às associações estruturar o repasse do aviso até os participantes.
A implementação que está por começar será o teste real do projeto. A ferramenta já provou capacidade, mas a eficácia dependerá da velocidade com que bancos e exchanges passarem a receber, interpretar e agir sobre os alertas compartilhados.
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