Miners viram data centers de IA e a ação deixa de espelhar o bitcoin
As mineradoras de bitcoin listadas nos Estados Unidos deixaram de negociar como uma versão ampliada do movimento do preço da moeda. A relação que por anos prendeu a ação de cada companhia ao bitcoin, medida pelo câmbio, pela dificuldade da rede e pelo custo da energia, perdeu força diante de um negócio novo. Contratos de doze a vinte anos de locação de data centers para a computação de alto desempenho, conhecida como HPC, e para a inteligência artificial entraram no balanço, e a receita recorrente em dólar passou a dividir espaço com o preço do bitcoin na conta de quem compra o papel.
O descolamento é mensurável nas cotações. Com o bitcoin perto de US$ 78 mil, as ações das mineradoras recuaram de 1,8% a 15% em cinco pregões, enquanto a moeda caiu menos de 2%.
Os mineradores passam a vender computação, não só a mineração
A explicação é estrutural. A mesma terra, a mesma conexão elétrica e a mesma energia que alimentam as máquinas de mineração também podem hospedar clusters de placas de vídeo, e cada uso carrega um risco e uma precificação próprios. Com a energia disputada pelos provedores de inteligência artificial, o mercado passou a valorizar essas companhias tanto pela receita dos data centers quanto pelo preço do bitcoin.
O caso exemplar foi a Core Scientific. Ela assinou com a CoreWeave contratos de doze anos para entregar cerca de 590 megawatts de computação em seis sites, com receita acumulada de US$ 10,2 bilhões.
O desfecho dessa relação foi a compra, sinal do valor que os data centers agregam ao ativo de mineração. A CoreWeave anunciou um acordo de fusão por troca de ações em que passaria a ser dona da Core Scientific, avaliando a mineradora em cerca de US$ 9 bilhões e dando acesso a 1,3 gigawatt de energia bruta. O negócio mostrou quanto a receita contratada de computação vale comparada à mineração de moeda, e virou o ponto mais alto da virada.
O exemplo mais claro do rompimento veio da IREN. No trimestre encerrado em junho, a receita de nuvem de inteligência artificial, de US$ 70,5 milhões, superou a de mineração de bitcoin, de US$ 66,7 milhões.
Os números por trás da mudança são grandes. A IREN fechou um contrato de US$ 9,7 bilhões com a Microsoft e outro de US$ 3,4 bilhões por cinco anos com a Nvidia, que investiu US$ 2,1 bilhões na companhia para apoiar a instalação de até 600 mil placas de vídeo. A receita recorrente anual desses negócios passou de US$ 4 bilhões, e a capacidade projetada vai de 480 megawatts em 2026 a mais de 1,2 gigawatt em 2027.
A MARA seguiu caminho parecido. Firmou parceria com a Starwood Capital para reaproveitar seus sites de energia como data centers de inteligência artificial, com meta de 1 gigawatt e caminho para 2,5 gigawatts.
A Hut 8, antiga mineradora canadense, assinou um arrendamento de 245 megawatts por quinze anos com uma empresa ligada ao Google, avaliado em cerca de US$ 7 bilhões. Seu campus Beacon Point ficou totalmente contratado em US$ 19,6 bilhões, e uma parceria com a Anthropic prevê até 2.295 megawatts. A TeraWulf soma cerca de US$ 6,7 bilhões em contratos de computação.
A vantagem dessas empresas vem de anos negociando energia de alta tensão, tocando refrigeração industrial e operando grandes cargas de eletricidade, exatamente o que um data center moderno exige.
O que a virada muda para o preço da ação
Há um custo para a rede do bitcoin. A capacidade comprometida por doze a vinte anos em contratos pode não voltar à mineração em um eventual mercado em alta, e o hash rate médio da rede recuou em ritmo histórico. A receita diária dos mineradores que ficam gira em torno de US$ 38 milhões.
Para o acionista, o efeito é uma mudança de modelo de avaliação. Com a receita recorrente em dólar ganhando peso, a ação passa a ser lida como a de uma empresa de infraestrutura, sensível à taxa de juros.
A correlação com a moeda não zerou. Parte da renda ainda depende do bitcoin, os balanços guardam reservas do ativo e o resultado de um trimestre segue sensível ao hash rate, de modo que uma alta forte da moeda ainda favorece essas empresas. A diferença é que a ação deixou de acompanhar o bitcoin ponto a ponto.
O risco concentrado também cresceu. Depender de um pequeno grupo de inquilinos de grande porte e de financiamento pesado para erguer data centers amplia a exposição a inadimplência, a cancelamento e a atrasos de obra.
Parte desse risco é mitigada por antecipações de clientes. A IREN relatou que pagamentos antecipados de inquilinos cobriram cerca de 45% do custo das placas de vídeo em uma série de negociações, reduzindo a necessidade de capital próprio. Esse padrão, comum em data centers, permite chegar a gigawatts sem depender apenas das reservas de bitcoin.
O movimento não é uniforme. Algumas mineradoras seguem concentradas na mineração e outras já têm a maior parte da receita vinda de computação, de modo que cada ação carrega uma mistura diferente de risco e retorno.
No fechamento, o bitcoin estava em US$ 77.997, com valor de mercado de US$ 1,56 trilhão, enquanto as ações das mineradoras terminaram em queda. A separação entre o preço da moeda e o das companhias que a mineram deixou de ser ruído de curto prazo e passou a ser uma medida estrutural do setor.
Para os próximos trimestres, a computação de alto desempenho se consolidou como a segunda perna de receita das mineradoras listadas, disputando com o bitcoin o peso no resultado de cada empresa.
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