El Salvador ignora pacto com Fundo e mantém estoque de 7.762 bitcoins
O estoque governamental de BTC do país alcançou 7.762 unidades. A aquisição mais recente fechou dentro do programa que a nação mantém desde 2021, comprando uma moeda por dia sem que o preço de mercado influencie a decisão, e a política segue em vigor mesmo após o pacto firmado com o Fundo Monetário Internacional. Com o bitcoin na faixa dos 77 mil dólares, o montante equivale a cerca de US$ 599 milhões.
A cifra expõe o descompasso mais visível da relação entre o governo salvadorenho e a instituição que o socorreu. Enquanto o país segue somando moedas ao caixa, o FMI pede o contrário.
O pacto com o FMI e as concessões feitas pelo governo
O pacto com o fundo, de US$ 1,4 bilhão, foi fechado em dezembro de 2024 dentro de um programa de 40 meses e impôs condições ao país. Entre elas estavam a limitação das compras públicas de bitcoin, a exigência de que a aceitação da moeda por comerciantes deixasse de ser obrigatória e um caminho para a revogação do status de moeda de curso legal, medida aprovada por emenda legislativa no início de 2025.
A perda do título de moeda oficial não interrompeu a política de reserva. O governo seguiu acumulando o ativo sem interrupção, adicionando mais de 1.600 moedas ao estoque entre janeiro e abril de 2026.
O ritmo das compras evidencia a distância entre a orientação do credor e o que San Salvador executa. O painel público ligado ao programa registra cada aquisição no mesmo dia em que ocorre, dando transparência à sequência de movimentos do governo desde 2021. Na prática, o país mantém uma cadência fixa de acumulação que não se altera com a alta ou a queda da cotação, e o saldo divulgado é sempre o resultado do dia anterior, o que permite acompanhar a execução da política em tempo quase real.
O presidente Nayib Bukele trata o estoque como posição de longa duração e não esconde a discordância com a orientação do fundo. As aquisições continuam sendo anunciadas e registradas no painel público que acompanha o saldo do país, e o discurso oficial repete que a reserva não será interrompida por pressão externa.
Para os críticos do modelo, o descompasso entre o pacto assinado e a conduta posterior enfraquece a credibilidade do compromisso assumido por El Salvador diante da instituição financeira. A leitura dos defensores é outra. Um país soberano pode manter uma política própria de reserva mesmo depois de renegociar a dívida com organismos multilaterais, argumentam, e a compra diária seria uma decisão legítima de política econômica, não uma violação dos termos negociados.
A tensão não é nova. El Salvador se tornou em 2021 o primeiro país a adotar o bitcoin como moeda de curso legal, uma decisão inédita no cenário internacional que elevou o custo de acesso do país ao crédito.
O pacto com o FMI levou o governo a fazer concessões. Em troca do financiamento, aceitou desmontar parte da arquitetura legal criada para incentivar o uso da moeda, incluindo a obrigatoriedade de aceitação e o desenho original do programa de adoção, mas preservou o acúmulo de reservas, o componente da estratégia nacional mais próximo de uma posição financeira de longo prazo assumida pelo Estado.
O que o governo preservou, na prática, foi a compra diária, o elemento central da política. É sobre ela que se sustenta a continuidade do estoque nacional, sem depender de novas autorizações ou de revisões periódicas do programa.
A política de reserva e a reorganização das carteiras
O estoque também passou por uma reorganização de segurança. Em agosto de 2025 o governo redistribuiu parte das moedas entre 14 carteiras distintas, um movimento ligado à preparação para cenários envolvendo computação quântica, que poderiam comprometer endereços baseados em modelos criptográficos mais antigos. A estrutura em múltiplas carteiras reduz a concentração do patrimônio em um único ponto de custódia.
O valor de mercado varia a cada dia com a cotação do bitcoin. Quando o estoque chegou a 7.762 unidades, a posição valia perto de US$ 599 milhões, montante relevante para uma economia pequena como a de El Salvador, ainda que modesto diante das reservas em dólar mantidas por países maiores da região.
O governo segue disposto a arcar com o ônus diplomático da escolha e já sinalizou que não pretende interromper o programa no curto prazo. A cada nova moeda comprada, a distância entre a orientação do FMI e a prática do governo aumenta uma unidade, o que reforça o caráter deliberado de uma política mantida mesmo diante de um pacto que a queria ver encerrada e apesar da pressão constante dos organismos multilaterais.
Para quem acompanha o caso de perto, o ponto central não é o tamanho atual da reserva, e sim a decisão de sustentá-la contrariando o pacto que ajudou a reequilibrar as contas públicas.
Essa é a escolha que El Salvador renova a cada dia, uma unidade por ciclo, mantendo no bitcoin uma posição que a instituição financeira preferia ver encerrada. O estoque governamental segue em alta, a política de uma moeda por dia permanece, e a próxima aquisição deve ocorrer no ciclo seguinte de compra, seguindo o padrão dos últimos anos apesar das condições impostas pelo pacto firmado em 2024.
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