Bitcoin

O dinheiro especulativo que a IA atraiu começa a voltar para a crypto

O fundador da Binance afirmou nesta quarta-feira que parte do capital especulativo está deixando as operações de inteligência artificial e voltando para o mercado de crypto. A declaração veio em um post na rede X, em que escreveu que um certo dinheiro rápido circula de volta da IA para a crypto e completou que a indústria do dinheiro não vai desaparecer, porque pessoas e máquinas continuarão precisando de dinheiro.

A fala reacende um debate que o próprio CZ alimentou em junho, quando disse que setores como a IA haviam atraído boa parte do capital de giro que antes circulava na crypto. O dinheiro especulativo, o hot money do jargão do mercado, corre atrás do setor que domina a conversa em cada fase do ciclo, e em 2026 esse setor foi o da inteligência artificial. O efeito sobre a crypto foi visível. O bitcoin abriu o ano perto de 89 mil dólares, passou de 96 mil e caiu para a região de 60 mil no meio do ano, sempre longe da máxima histórica de 126 mil dólares de outubro passado.

A tese de CZ agora é a inversa desse movimento. Para ele, o dinheiro que foi atrás da IA nunca deixou de depender de um sistema de pagamento, e é essa infraestrutura que a crypto oferece. Quando o capital especulativo muda de setor, a base monetária que sustenta essas operações continua no mesmo lugar.

A volta do capital e o preço que ele encontra

O bitcoin negocia perto de 77,3 mil dólares nesta quarta-feira, praticamente estável nas últimas 24 horas, segundo leituras ao vivo do mercado.

O problema do fluxo que retorna é que ele não encontra um mercado vazio. O relatório semanal da Glassnode mostra o preço pressionado entre duas zonas de oferta, com resistência pesada acima e um piso de acumulação abaixo.

Acima do preço atual, a Glassnode identifica uma faixa densa de moedas mantidas por long-term holders, os investidores de longo prazo, entre 83 mil e 86 mil dólares, região em que se concentra a média de custo desse grupo. Abaixo, o verão de acumulação deixou um piso estrutural entre 62 mil e 65 mil dólares. A oferta em lucro ampliou o atrito nesse cenário. Quando o bitcoin negociava perto de 78 mil dólares em maio, 65% da oferta estava no lucro, e no fim de agosto, com o preço de volta ao mesmo patamar, a parcela no lucro já era de 68%, sinal de que a acumulação do verão reposicionou a média de custo de curto prazo perto de 71 mil dólares. O mesmo preço coloca mais moedas em posição de venda a cada teste da parte alta da faixa.

O fluxo institucional dá sustentação, mas de volume modesto.

Os ETFs americanos de bitcoin à vista absorveram em média 290 milhões de dólares por dia no rali de agosto, segundo os dados da Glassnode. O giro secundário ficou perto de 3 bilhões de dólares diários, bem abaixo do ritmo dos períodos anteriores de alta, o que sugere entradas ligadas a manchetes, e não demanda estrutural.

A conta que projeta 250 mil a 840 mil dólares

No mesmo dia da fala de CZ, a empresa de serviços financeiros River publicou um relatório defendendo uma alocação de 10% em bitcoin para o investidor de longo prazo. O documento argumenta que o peso do bitcoin nas carteiras segue muito abaixo do que as maiores gestoras de Wall Street recomendam, de 1% a 7% por cliente. O descompasso com a base atual é o que sustenta a conta do documento. Os assessores de investimento americanos mantêm apenas 0,008% dos ativos sob gestão em bitcoin, embora 29 das 30 maiores consultorias já tenham alguma exposição, com mediana de 0,10%.

A projeção parte de uma base global de 333 trilhões de dólares em ativos financeiros. Se 20% a 40% das carteiras adotarem pesos de 2% a 4%, o modelo estima entradas líquidas de 1,3 trilhão a 5,3 trilhões de dólares em três a cinco anos. Com um multiplicador de 3 dólares de valor de mercado por dólar de fluxo, o relatório chega a 5,5 trilhões a 17,5 trilhões, ou 250 mil a 840 mil dólares por moeda.

Gráfico com os níveis do bitcoin, do piso de acumulação ao alvo do modelo da River
Fonte: Glassnode, River e CoinGecko

É a segunda vez em dois meses que CZ conecta os dois mercados em público. Em junho, ele via a IA como a força que drenava o capital de giro da crypto. Agora, o tom é de oportunidade, com o argumento de que a infraestrutura monetária da crypto atende também às máquinas que consomem esse capital.

O post registra quase 450 mil visualizações e mais de 6 mil curtidas em poucas horas, um volume que revela o peso da fala no sentimento do mercado.

O entusiasmo do fundador não altera a estrutura de oferta que o preço enfrenta, e dinheiro de passagem precisa varrer primeiro as posições alavancadas do mercado futuro antes de transformar qualquer projeção em realidade. A expiração trimestral de opções de 25 de setembro concentra cerca de 14 bilhões de dólares em posições abertas entre a Deribit e o IBIT, o ETF da BlackRock, segundo a Glassnode. Com a maioria dos contratos com preço de exercício acima de 80 mil dólares, o evento deve pautar a volatilidade das próximas semanas.

O juro real alto e a oferta densa de longo prazo formam o contraponto à fala de CZ.

O que decide a história é outro, e a fala de CZ não muda isso. O sinal imediato está na disposição dos investidores de longo prazo de venderem suas moedas na faixa de 83 mil a 86 mil dólares. O dado de acompanhamento é o tamanho do fluxo que chega. A projeção da River só se confirma quando oferta e fluxo se encontrarem, e a tese da volta do dinheiro da IA seguirá sendo uma aposta arriscada enquanto a zona mais densa de oferta construída neste ciclo continuar intacta.

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