Exchange lastreada pela Tether congela saques de clientes no Chile
A Orionx, uma das principais corretoras de ativos digitais do Chile, anunciou na quinta-feira, 3 de setembro, o fechamento definitivo das operações e o congelamento de todos os saques. A decisão veio após uma auditoria forense confirmar a saída de ativos de clientes para carteiras fora do controle da empresa, em um montante acima de US$ 7 milhões. A informação consta da página de status que a própria corretora mantém para informar o processo de encerramento.
Ninguém saca um centavo até novo aviso.
As lacunas do anúncio pesam. Não se sabe quais ativos foram movimentados, quando as transferências ocorreram nem quais endereços receberam os fundos, e nenhum responsável foi apontado até agora.
A Orionx registrou denúncia no Ministério Público e também entrou com queixa-crime datada de 2 de setembro contra Joaquín Díaz Rojas e Roberto Zibert Jara, ex-executivos e sócios fundadores da companhia. É a própria empresa que acusa quem ajudou a construir o negócio. As acusações ainda não estabelecem responsabilidade pelos ativos desaparecidos, e nenhuma condenação foi proferida. A apuração segue nas mãos da Justiça chilena.
Por que os saques seguem bloqueados
A ordem vale para todos e a justificativa da empresa é a equidade. Enquanto o total disponível para devolução permanece desconhecido, permitir saques beneficiaria quem agir primeiro, às custas dos demais clientes.
Cinco etapas organizam o fechamento, e a primeira, o aviso público, é a única concluída.
As próximas fases preveem a abertura de um chat de suporte, a reconciliação geral dos saldos e a homologação do plano que define como os recursos voltam aos clientes. O chat segue indisponível, com abertura sinalizada pela própria página para a noite de terça-feira, 8 de setembro. A empresa não divulgou prazo para nenhuma das etapas seguintes, e o plano de fechamento já foi apresentado à autoridade, segundo o aviso oficial.
O regulador que não pode devolver o dinheiro
A saída dos clientes depende, portanto, de um processo conduzido pela própria empresa onde a falha ocorreu. A Comissão para o Mercado Financeiro do Chile, a CMF, descartou qualquer papel na liquidação e afirmou que não pode ordenar a devolução dos ativos. O comunicado oficial foi publicado na sexta-feira, 4 de setembro.
A posição do regulador tem origem no status da corretora. Em 19 de junho, a CMF rejeitou o pedido de inscrição e autorização da Orionx na Lei Fintech, a norma chilena que regula prestadores de serviços de ativos digitais. Enquanto o pedido tramitava, a empresa operava em um regime transitório que permitia manter as atividades, e a rejeição encerrou essa janela. A partir dali, a Orionx só podia concluir operações existentes e comunicar clientes sobre o encerramento. O regulador apontou ainda que a companhia não comprovou a contratação das garantias exigidas dos prestadores autorizados, justamente o mecanismo pensado para proteger o cliente quando algo quebra.
O rombo apareceu com a empresa já sem licença e sem supervisão direta.
A lista de investidores inclui os nomes mais influentes do setor. A Bitfinex, casa ligada à Tether, anunciou investimento na Orionx em maio de 2023, com o objetivo de acelerar a adoção de ativos digitais na América Latina. Em junho de 2025, a própria Tether liderou com exclusividade a rodada da Série A da empresa chilena, em um aporte apresentado como combustível para a expansão por Peru, Colômbia e México.
Entre o aporte da Tether e o congelamento dos saques passaram-se quinze meses. A Orionx havia sido fundada em 2017 e chegou a se apresentar como o primeiro banco crypto da região, sob o comando do CEO Joel Vainstein.
O que falta para a devolução
A conta que interessa aos clientes segue em aberto. A empresa ainda precisa reconciliar os saldos individuais, apurar quais ativos permanecem disponíveis e aprovar o plano de distribuição antes de devolver qualquer valor. Não há estimativa pública do total sob custódia nem da parcela que sobreviveu.
O caso reforça um risco conhecido da custódia. Quando as chaves ficam com a plataforma, o controle interno vira a única barreira entre o cliente e a perda total, e a camada regulatória que poderia amortecer o golpe não existe.
A USDT, stablecoin da Tether, segue como a maior moeda indexada ao dólar, com US$ 183,4 bilhões em capitalização, dados verificados em 7 de setembro.
O desfecho depende do que a reconciliação encontrar. Se os ativos restantes cobrirem parte pequena dos saldos, a fila de credores pode terminar no Judiciário, caminho que a CMF já apontou para quem se sentir lesado. Até lá, o dinheiro da Orionx fica parado onde está, e a segunda etapa do processo, o simples chat de suporte, ainda é a próxima conquista dos clientes.
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