Volume movimentado no Brasil cai 1,6% e o país mantém 43,7% da região
O Brasil encerrou o período de 12 meses terminado em 30 de junho de 2026 como o maior mercado de adoção de ativos digitais do mundo, segundo o levantamento anual da Chainalysis sobre a América Latina, e ao mesmo tempo viu o valor movimentado dentro do país recuar. Foram US$ 252,5 bilhões no período, queda de 1,6% sobre o ano anterior, volume suficiente para manter o país com 43,7% de tudo o que foi movimentado na região.
A América Latina movimentou US$ 593,8 bilhões no mesmo intervalo, com crescimento de 9,8%, e segue entre as seis maiores economias do setor no mundo.
Quem puxou a região para cima foram os vizinhos. A Argentina movimentou US$ 88,5 bilhões, com alta de 15,3%. O México chegou a US$ 77,6 bilhões, avanço de 25,5%, e a Colômbia somou US$ 29,1 bilhões, 13,8% acima do ano anterior. Juntos, os cinco maiores mercados concentram mais de 80% de todo o valor que circula na América Latina.
A Venezuela foi o caso mais extremo da lista. Com US$ 39,1 bilhões, o país cresceu 107,2%, quase oito vezes o ritmo registrado pela Colômbia.
A concentração no Brasil aumentou mesmo com a retração do período. Em 2022, o país respondia por 31,6% do valor movimentado na região, e a fatia chegou a 43,7% na janela encerrada em junho de 2026, de modo que quase metade do dinheiro movimentado na América Latina passa por plataformas e usuários brasileiros. A comparação com o próprio passado reforça a dimensão do mercado. Desde o período de 2024 até o fim da série atual, a economia brasileira de ativos digitais cresceu 179,4%.
Alguns mercados menores andaram mais rápido. Honduras cresceu 361,6% no período e a Nicarágua avançou 186,4%, embora sobre bases pequenas. Na direção oposta, Trinidad e Tobago caiu 55,8% e a Guatemala recuou 51,4%.
As plataformas locais ganham espaço
Os brasileiros passaram a acessar o mercado por outro caminho. As corretoras nacionais, que já responderam por apenas 1,5% das entradas de valor, passaram a receber 12,5%. Fora do Brasil, o caminho foi o inverso e as plataformas domésticas cederam espaço às concorrentes internacionais. A migração para os provedores locais acompanhou o avanço da regulação e da oferta de serviços disponíveis no país.
As regras que deram forma a esse mercado entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026 e trazem exigências de autorização para operar, estrutura de governança, segurança da informação, controles contra lavagem de dinheiro e capital mínimo para as prestadoras de serviços de ativos virtuais.
Para Fabricio Tota, que dirige a área de cripto no Mercado Bitcoin, a tendência é de encolhimento. Ele estima que, dentro de um ano, o número de empresas nativas do setor será bem menor no país.
A preferência por ativos vinculados ao dólar
Em junho de 2026, as stablecoins respondiam por 32,1% do valor movimentado em transferências transfronteiriças, por 22,1% da atividade doméstica entre pessoas e por 17,6% dos saldos nas carteiras pessoais. A preferência tem explicação prática. Famílias e empresas usam esses ativos para proteger reservas da inflação, da volatilidade cambial e das restrições à movimentação de capital, combinação que o levantamento aponta como motor da demanda na região.
O México é o exemplo mais claro do uso corporativo. Os fluxos de stablecoins nas plataformas mexicanas chegaram a US$ 8,4 bilhões no segundo trimestre de 2026, mais de oito vezes o registrado no período de 2021.
No Brasil, o avanço foi mais rápido. A economia brasileira de stablecoins cresceu 495%, enquanto o resto da região subiu 89,4%. O perfil de uso também se diferencia. Com o Pix usado por 91% dos brasileiros nos pagamentos do dia a dia, as stablecoins ficaram concentradas nas empresas, em operações de liquidez e em transferências internacionais, segundo Ben Reid, responsável global de stablecoins da Bitso.
As transferências entre pessoas físicas de US$ 10 mil a US$ 100 mil cresceram 562% no Brasil, contra 209% no resto da região. Entre US$ 100 e US$ 1.000, a diferença foi maior, 666% contra 252%.
O México funciona como o principal corredor de stablecoins da América Latina. Dos US$ 77,6 bilhões movimentados no país, US$ 47 bilhões, ou 61%, passaram por esses ativos. Nas rotas que têm o México em uma das pontas, o volume mensal em stablecoins alcançou US$ 1,8 bilhão em junho de 2026, quase o quádruplo do patamar registrado no começo de 2024. A proximidade com os Estados Unidos sustenta o fluxo, porque o corredor entre os dois países está entre os maiores do mundo em remessas.
No índice de adoção da Chainalysis, o México aparece em 11º lugar no ranking geral, em 8º na atividade doméstica e em 5º nos fluxos transfronteiriços.
A ruptura política na Venezuela
Em janeiro de 2026, o presidente Nicolás Maduro foi levado para custódia dos Estados Unidos, e a mudança apareceu nos dados do país. No trimestre seguinte, a saída líquida de valor por transferências transfronteiriças cresceu 891,7%. Comerciantes na Venezuela relataram ao levantamento que passaram a receber perto de 40% da renda em USDT, e a economia venezuelana fechou o período em US$ 39,1 bilhões, a maior taxa de crescimento da região.
A disparidade com os mercados vizinhos durou pouco. Em fevereiro, a atividade venezuelana entre pessoas físicas superou a média regional em cerca de 65 pontos, e já em maio havia voltado ao ritmo do restante da América Latina.
A custódia é outra frente em que o comportamento mudou. Os saldos mantidos diretamente pelos usuários caíram 66,7%, enquanto os valores sob custódia de serviços recuaram 28%. A diferença consolidou uma migração de vários anos. Em junho de 2026, as plataformas respondiam por 71,2% dos saldos da região, acima da média global de 68%. Dentro das carteiras de custódia própria, o valor em bitcoin caiu 78% e o em stablecoins subiu 66%, o que elevou esses ativos a cerca de um quinto do total guardado pelos usuários.
Nos principais mercados da região, o fluxo de stablecoins por corretoras centralizadas superou a média global, enquanto a atividade em plataformas descentralizadas ficou estagnada ou em queda. Para Gabriel Campa, do Towerbank, "os clientes já não querem a conta em um lugar e os ativos digitais em outro".
A velocidade de crescimento na região depende menos do tamanho de cada mercado do que do motivo que leva empresas e famílias a buscar esses ativos. A Colômbia fechou o segundo trimestre de 2026 com US$ 3,5 bilhões em fluxos de stablecoins nas plataformas locais, menos da metade do volume mexicano, enquanto o México começou a registrar procura por stablecoins ancoradas no peso, usadas como porta de entrada para a moeda local.
A quantidade de carteiras no Brasil com saldo de ao menos US$ 10 mil em stablecoins subiu 347% desde julho de 2024. No México, o avanço foi de 91%, na Argentina, de 82%, e no Chile, de 47%.
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