120 milhões de barris de diesel estão no centro do atrito entre Washington e a Europa
A União Europeia mantém pouco mais de 315 milhões de barris de diesel em estoques de emergência, nos dados mais recentes da Eurostat. Washington quer que 120 milhões deles cheguem ao mercado nos próximos seis meses. O pedido foi levado diretamente à Alemanha e à França, donas das duas maiores reservas do bloco. A Alemanha guarda 5,6 milhões de toneladas e a França, 8,2 milhões. Quem recusar pode enfrentar uma restrição americana à exportação do combustível.
O volume equivale a mais de 40% de todo o diesel e o gasóleo que a União Europeia mantém em reserva, e a quase um mês inteiro de consumo do bloco. Três pessoas próximas das conversas relataram o pedido e a ameaça. Berlim e Paris não se manifestaram oficialmente sobre o teor.
A proposta foi apresentada pelo secretário de Energia americano, Chris Wright, como alternativa a uma medida mais drástica que o presidente Donald Trump mantém na mesa, a proibição total da exportação de diesel.
O pedido e a ameaça
A proibição total segue na mesa, e Trump voltou a tratar do assunto na quarta-feira. Questionado por jornalistas, disse que estava pensando no assunto e afirmou acompanhar o tema todos os dias com Chris Wright e com o secretário do Interior, Doug Burgum. Segundo o presidente, os dois avaliam que a restrição ajudaria o diesel, mas encareceria outros combustíveis, entre eles a gasolina.
A Casa Branca chegou a preparar uma proibição de 90 dias, o que dá peso à ameaça feita a Berlim e Paris. O efeito seria imediato para a Europa, que compra dos Estados Unidos cerca de metade de todo o diesel que importa, na medição da Comissão Europeia para agosto.
O autor do pedido já havia classificado a proibição de ineficaz. Em setembro, o secretário de Energia afirmou que barrar a exportação de diesel é uma medida grosseira e que ela não entrega resultado. Na avaliação dele, o caminho era pedir redução voluntária, sem proibir nada. Na quarta-feira, disse esperar anúncios europeus em poucos dias, com mais oferta a caminho.
Wright atribuiu o aperto a interrupções sobrepostas. Segundo ele, o mercado perdeu parte do diesel que vinha do Oriente Médio, já em recuperação, e também o que vinha da China. Trump apontou as refinarias russas atingidas na guerra da Ucrânia como a origem principal do problema.
A dependência europeia e a resposta de Bruxelas
A dependência nasceu de dois cortes. O bloco deixou de comprar diesel da Rússia depois da invasão da Ucrânia, e a guerra com o Irã reduziu a oferta vinda do Oriente Médio. Sobrou o combustível americano como principal alternativa, e é ele que agora entra na negociação.
O mercado americano vende cada vez mais diesel para fora. As exportações chegaram a cerca de 1,3 milhão de barris por dia, alta superior a 20% sobre 2025, e os estoques internos recuaram para o menor volume dos últimos 40 anos nesta altura do calendário.
Entre fevereiro e julho, os estoques americanos de diesel e gasóleo recuaram 27%. Nas cinco maiores economias europeias, a queda não passou de 7% no mesmo intervalo. Entre os 28 países que reportam dados à Agência Internacional de Energia, os Estados Unidos registraram a maior redução, tanto em barris quanto em porcentagem.
Entre o que prometeu e o que liberou, a Europa ficou devendo. Em março, o bloco e outros países da agência combinaram colocar 400 milhões de barris de petróleo no mercado para segurar a alta, e cerca de um terço desse volume ainda não saiu dos tanques. A maior parte do que falta está justamente na Europa, na avaliação do diretor-executivo da agência, Fatih Birol.
A Alemanha é o caso mais visível. Até 29 de setembro, o ministério da Economia alemão não tinha planos de liberar os 15 milhões de barris que faltavam de sua parte, o equivalente a 77% da contribuição prometida. A pasta considera que soltar petróleo não funciona como ferramenta de controle de preço e só abriria espaço para apostas no mercado. A Espanha liberou perto de um terço dos 11,6 milhões de barris que prometeu, e a França mantém intactas as suas reservas, na descrição do ministro das Finanças, Roland Lescure.
A resposta europeia começou a ser costurada ao longo desta quinta-feira. Comissão Europeia, Alemanha, França, Itália, Irlanda e Reino Unido fizeram uma reunião de emergência e combinaram falar com uma só voz. Dan Jørgensen, comissário de Energia da União Europeia, disse que liberar parte dessas reservas é uma possibilidade e que a discussão ocorre com os demais membros da agência. O francês Emmanuel Macron contou ter alertado Trump sobre o risco de a medida encarecer o combustível, e prometeu reunir os líderes do G7. A França anunciou 450 milhões de euros em ajuda para o combustível.
O que a proibição faria com os preços
A conta da proibição também é ruim para os Estados Unidos. Um estudo da consultoria Wood Mackenzie calculou que barrar as exportações redirecionaria 700 mil barris por dia para os tanques internos, o que encheria os reservatórios do Golfo do México em cerca de um mês. Sem espaço para estocar, as refinarias teriam de cortar o processamento de petróleo em mais de 2 milhões de barris por dia. Como a gasolina vem do mesmo barril de petróleo, a oferta dela cai junto.
O efeito recairia sobre o motorista americano, justamente quem a medida pretendia ajudar. Alan Gelder, da consultoria Wood Mackenzie, avalia que a restrição criada para baixar o diesel acabaria pressionando a gasolina. Na Europa, o custo do diesel subiria 27%, com a Rússia e a China prontas para ocupar o espaço.
As casas de análise veem o mesmo risco. O Goldman Sachs projeta aperto no sistema global de refino até 2027. O Barclays classificou a proibição como prejudicial ao parque de refino americano e sem alívio real de preços.
A indústria do petróleo foi mais direta. O Instituto Americano do Petróleo alertou que restringir as exportações jogaria sobre um mercado já apertado um novo choque de oferta. Patrick De Haan, do aplicativo GasBuddy, disse que o remédio sairia pior que a doença. Mais de duas dezenas de associações comerciais assinaram uma carta em 23 de setembro com o mesmo aviso.
O aperto se aprofundou ao longo desta quinta-feira. Refinarias chinesas suspenderam a exportação de derivados de petróleo para fora de Hong Kong e Macau, e o petróleo voltou a subir no mercado internacional. Nos Estados Unidos, o diesel bateu o recorde de US$ 6,53 o galão em 22 de setembro e recuou para US$ 6,41 no dia 30, nos dados da AAA. A gasolina comum acumula alta superior a 40% em um ano.
A alta também chegou ao radar dos bancos centrais. Na leitura do Banco Central Europeu, a energia mais cara entrou na lista de riscos para a inflação da zona do euro. O Banco da Inglaterra relaciona as margens do refino, ainda em nível alto, à dificuldade de os preços ao consumidor cederem.
Para o consumidor, o caminho passa pelo frete. O diesel move caminhões e máquinas agrícolas, e o custo dele entra no preço de tudo o que é transportado. Nos Estados Unidos, o encarecimento ocorre a semanas da eleição de meio de mandato, marcada para 3 de novembro, com produtores rurais enfrentando o combustível mais caro durante a colheita.
Os países que participaram da reunião de emergência desta quinta-feira devem levar uma posição comum ao encontro da Agência Internacional de Energia, marcado para esta sexta-feira. O grupo de coordenação de petróleo da União Europeia se reúne na próxima semana. Os 15 milhões de barris alemães seguem nos tanques, e as reservas francesas continuam cheias.
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