O juro de dez anos volta a 15,6%, e o Tesouro cancela dois leilões
O juro que o governo brasileiro paga para se financiar por dez anos fechou esta segunda-feira a 15,59% ao ano, 261 pontos-base acima do fechamento de sexta e o maior patamar desde 2016. O primeiro pregão depois da reeleição de Lula apagou em uma sessão todo o alívio que o mercado tinha acumulado desde o primeiro turno e levou as taxas acima do nível anterior à votação.
Quem quisesse emprestar dinheiro ao Tesouro no fim da tarde recebia 15,78% ao ano para levar o papel prefixado que vence em 2032, contra 12,89% na sexta. O papel corrigido pela inflação que vence em 2032 saiu de IPCA mais 6,72% para IPCA mais 8,10%, acima da barreira dos 8% ao ano.
O Tesouro Nacional reagiu duas vezes no mesmo dia. Desmarcou o leilão de títulos corrigidos pela inflação previsto para terça. O de prefixados, previsto para quinta, também saiu do calendário. Pouco depois do meio-dia, recomprou papéis que estavam com investidores, em uma oferta que podia chegar a R$ 15 bilhões e terminou em cerca de R$ 7,1 bilhões.
A plataforma do Tesouro Direto, que vende títulos para pessoas físicas, abriu às 12h13, com quase três horas de atraso. Foi suspensa de novo no começo da tarde e voltou por volta das 13h20. No restante do mercado, o dólar disparou na abertura e a bolsa parou duas vezes. A moeda fechou o dia a R$ 5,4998, alta de 9,19%, e a cotação oficial do Banco Central ficou em R$ 5,5007.
A aposta que o resultado desfez
O mercado entrou no fim de semana posicionado para a troca de governo. Depois da primeira rodada, quando Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente, o Prefixado 2032 havia recuado de 14,15% na abertura do pregão anterior à votação para 12,89% ao ano no fechamento de sexta. O mesmo movimento levou o dólar a R$ 4,99 e o Ibovespa ao recorde de 206.911 pontos.
A sessão de segunda desmontou essa posição. O Prefixado 2032 abriu a 15,78%, 289 pontos-base acima da véspera, o maior salto diário da série histórica das taxas do Tesouro Direto, que começa em dezembro de 2004. O recorde anterior era de 12 de março de 2020, com 206 pontos-base. Todos os prefixados à venda superaram aquela marca, inclusive o que subiu menos, o papel com juros semestrais que vence em 2037, que subiu 252 pontos-base.
Nos contratos futuros de juros, onde cada data carrega a expectativa para a Selic, o vencimento de janeiro de 2031 saiu de 12,641% na sexta para 15,53% às 12h51. Na abertura, a taxa bateu o limite de oscilação às 9h23, e a B3 precisou ampliar o teto dos contratos para que continuassem sendo negociados.
O que o Tesouro deixou de vender
Ao desmarcar os dois leilões, o Tesouro escolheu não travar financiamento nas taxas desta segunda-feira. Sobrou no calendário só a venda de papéis atrelados à Selic, marcada para terça. O dinheiro que deixou de entrar não desaparece com o cancelamento. Volta a ser buscado em outro momento, e o preço de então é que vai definir quanto o governo paga.
A recompra foi a outra ponta da mesma decisão. O edital previa até 15 milhões de papéis prefixados com cupom semestral, em três vencimentos, 2031, 2033 e 2037, cada um com valor de face de R$ 1.000. Só os dealers, bancos que negociam direto com o Tesouro, puderam mandar proposta entre 11h15 e 11h45. A liquidação ficou para terça-feira.
O volume efetivo, de R$ 7,1 bilhões, ficou menos da metade do teto. O Tesouro afirmou que vai seguir monitorando as condições e que vai atuar para assegurar o funcionamento do mercado. Em nota sobre a paralisação da plataforma, atribuiu o atraso à volatilidade das taxas pela manhã.
Quem já tinha o papel perdeu 12% em um dia
O Prefixado 2032 era cotado a R$ 535,52 na sexta, com a taxa de 12,89%. Nesta segunda, com a taxa a 15,78%, o preço de compra caiu para R$ 470,42. Quem tinha o papel e vendeu perdeu 12,2% do valor aplicado em um dia. Quem segura até janeiro de 2032 recebe a taxa que contratou na hora da compra.
Para quem compra agora, a conta é outra. O IPCA+ 2050, o mais longo da lista, renovou a máxima da série, com IPCA mais 7,64% ao ano, 1,22 ponto acima da taxa de sexta.
O BTG Pactual calculou que os juros reais longos, hoje em 6,7%, podem ir a mais de 8% e ficar nesse nível enquanto o mercado espera a definição da política fiscal dos próximos quatro anos. O JPMorgan estimou que papéis do Tesouro podem chegar a 15,5%, reduziu a recomendação para títulos brasileiros em dólar e manteve a compra nas empresas com grau de investimento.
O Copom entra na conta
A mudança de preço chegou à aposta sobre a Selic. Na sexta, o mercado dava como certa uma redução de 0,25 ponto na reunião de 3 e 4 de novembro. Antes das 13h desta segunda, a curva dava 75% a uma alta de 0,25 ponto e 25% à manutenção. A Selic está em 13,75% ao ano. Os contratos passaram a embutir mais 0,50 ponto em dezembro e 0,25 ponto em janeiro.
O Boletim Focus desta segunda ainda está fora do novo cenário, porque as projeções foram coletadas até sexta, antes do resultado. Ele trazia Selic a 13,25% no fim de 2026, IPCA de 5,19% e dólar a R$ 5,05. A gestora ASA, do banco Safra, refez o cenário ainda nesta segunda e passou a ver a Selic em 13,5% no fim deste ano e em 13% no fim de 2027, com a dívida bruta chegando a 88,5% do PIB no ano que vem.
Um juro básico mais alto por mais tempo e um dólar a R$ 5,50 encarecem o crédito das empresas e o financiamento de quem tem dívida, inclusive de quem nunca comprou um título público.
O Brasil sozinho no dia
Fora do Brasil, as bolsas subiam. O juro do Treasury de dez anos caía a 4,983%, de 5,001% no ajuste anterior, o S&P 500 ganhava 0,81% e o Nasdaq, 1,08%. O dólar oscilava estável contra uma cesta de moedas fortes.
Com o juro americano perto de 5%, o papel brasileiro de dez anos paga 1.060 pontos-base a mais que o americano. O risco-Brasil, indicador do sobrepreço que o investidor cobra para emprestar ao país na comparação com os Estados Unidos, subiu 17,5% no meio da tarde. A bolsa brasileira caiu 13,43%, a 177.540 pontos, depois de recuar 17,34% na mínima, no menor nível desde junho.
O Tesouro volta ao mercado na terça com a oferta de papéis atrelados à Selic, e o Copom decide a taxa básica em 4 de novembro. Para cada R$ 100 bilhões que o governo rolar a 15,78%, a conta de juros fica R$ 2,9 bilhões por ano mais alta do que ficaria na taxa de sexta, 12,89%, sem que um real novo seja gasto.
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