Macro

O grupo de risco do crédito cresceu 75% em cinco anos, e nem toda a alta da inadimplência vem do devedor

20,3 milhões de pessoas estavam no grupo de risco do crédito em junho, o equivalente a 17% dos devedores do sistema financeiro. O dado está no Relatório de Estabilidade Financeira do primeiro semestre, divulgado nesta terça-feira pelo Banco Central, e representa alta de 75% sobre junho de 2021, quando esse contingente somava 11,6 milhões.

A medição do peso da dívida no orçamento está no mesmo documento. O comprometimento da renda das famílias chegou a cerca de 38%, o maior nível dos 21 anos da série, com impacto mais forte entre os tomadores de menor renda. A Selic, que baliza o custo do crédito, está em 13,75% ao ano.

Quem entra nessa conta

A classificação não olha uma dívida específica. Para ser contado como endividado de risco, o cliente precisa apresentar pelo menos dois de quatro sinais. O primeiro é comprometer mais da metade da renda com o pagamento de dívidas. O segundo é ficar com menos de R$ 500 a R$ 600 por mês após honrar os compromissos, faixa que o Banco Central usa como linha da pobreza. Os outros dois são estar em atraso e ter dívidas em várias modalidades ao mesmo tempo.

A trajetória da fatia mostra que o avanço não foi linear. Eram 9,7% dos devedores em junho de 2021. A proporção subiu para 13,1% em 2022, recuou para 13% em 2023, voltou a subir para 14,7% em 2025 e chegou aos 17% deste ano.

A composição da dívida mudou no mesmo período. Quem compromete boa parte da renda carrega sobretudo dois tipos de dívida, o cartão e o crédito não consignado, e a participação deles cresceu mais rápido na faixa que ganha até dois salários mínimos. Na leitura do Banco Central, a renda extra que apareceu no período virou dívida, com preferência por modalidades mais caras.

A parte da alta que veio da regra

O crédito às famílias piorou em quase todas as modalidades. Os ativos problemáticos, que somam atrasos e contratos de difícil recuperação, atingiram o maior nível desde 2012 na maior parte delas, e a inadimplência foi o fator principal. O Banco Central separou, no entanto, o que é comportamento do devedor do que é mudança na forma de registrar a perda.

A regra que mudou o momento em que o banco reconhece a perda entrou em vigor em 2025 e deslocou os valores baixados para faixas de atraso mais altas. Em um exercício contrafactual, o Banco Central calculou que a inadimplência do sistema seria 0,78 ponto percentual menor sem a mudança, o que corresponde a cerca de 45% da alta de 1,76 ponto desde dezembro de 2024. O próprio relatório afirma que a inadimplência teria subido mesmo sem a alteração, e que o efeito da regra tende a diminuir com o tempo.

O que o Banco Central diz do sistema

Apesar da piora dos indicadores, a autoridade monetária sustenta que o sistema não está sob risco relevante e que a estabilidade segue preservada. Os bancos mantêm capital e liquidez em nível confortável, reservas compatíveis com as perdas esperadas e aprovação nos testes de estresse, segundo o comunicado que acompanhou o relatório.

O Banco Central aponta a digitalização como parte do problema. Com o crédito mais acessível, o consumidor de baixa renda passou a receber ofertas frequentes de empréstimo. O relatório também diz que os serviços digitais abrem espaço para fraudes, golpes e ataques cibernéticos, além de modelos de negócio que exploram a impulsividade.

Três resoluções publicadas na semana passada ampliaram a proteção do consumidor. As regras miram ofertas inadequadas ou abusivas e exigem mais transparência antes da contratação. O relatório discute ir além, com endurecimento da concessão nas modalidades mais arriscadas, inclusive pela exigência de mais capital dos bancos para cobrir perdas.

As estimativas de probabilidade de inadimplência do relatório apontam pressão na maior parte das modalidades até o fim do ano. O custo do dinheiro segue alto. Na segunda-feira, o juro que o governo paga para se financiar por dez anos fechou em 15,59% ao ano, o maior patamar desde 2016.

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