A bolsa fechou em 206 mil pontos com a aposta em ajuste fiscal
A bolsa brasileira fechou esta segunda-feira, 5 de outubro, aos 206.911,89 pontos, em alta de 7,70%, a primeira vez que o índice terminou o dia acima dos 200 mil pontos. Foi a maior alta de um único pregão desde março de 2020, quando o índice avançou 9,69% em um só dia. O dólar caiu na mesma direção e encerrou o dia a R$ 5,001, depois de passar boa parte do pregão abaixo dos R$ 5.
Ao longo do dia, o índice tocou 192.137,63 pontos na mínima e 209.605,70 na máxima. Na sexta-feira, havia fechado em 192.115 pontos, com o dólar a R$ 5,22.
O que virou o mercado foi a apuração do primeiro turno. O senador Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair Bolsonaro, ficou em primeiro lugar com 47,03% do total de votos válidos, o equivalente a 56,1 milhões de votos. Do outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a 45,16%, com 53,9 milhões de votos. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro, e a vantagem do senador não aparecia nas pesquisas da véspera.
A abstenção chegou a 21,09%, a maior em um primeiro turno desde 1998.
A leitura do mercado é fiscal. A vantagem do senador e o avanço de partidos de direita na Câmara e no Senado alimentaram a expectativa de um governo mais disposto a cortar despesas e a tocar reformas a partir de 2027. O PL garantiu 19 cadeiras no Senado e montou uma bancada de 28 parlamentares.
O contrato futuro do Ibovespa que vence em outubro subiu até 8,63% ao longo da sessão.
A alta foi quase generalizada. Magazine Luiza, Cosan e a B3, que opera a bolsa, subiram mais de 20% cada uma. O Bradesco avançou mais de 13% e a Petrobras, pouco mais de 8%. Entre os papéis negociados em Nova York, o XP subiu 33%, o Nu Holdings, 13%, e a StoneCo e o PagBank, mais de 20% cada um.
Os contratos longos de juros futuros recuaram mais de 100 pontos-base.
O prêmio cobrado pelo risco do país também recuou. O custo do seguro contra calote da dívida brasileira, medido pelos CDS, caiu 20 pontos-base, e o bônus que vence em 2056 ganhou 1,4 centavo de dólar, para 93,5 centavos.
O movimento cambial foi local. No exterior, o dólar subiu diante da maior parte das divisas, e o real seguiu na direção oposta.
Nem tudo que subiu no pregão é convicção sobre o que vem. Flávio não apresentou plano detalhado de ajuste de contas nem definiu quem comandaria a equipe econômica. Para Felipe Cima, que acompanha renda variável na Manchester Investimentos, o que surpreendeu o mercado foi sobretudo a nova composição do Legislativo, mais do que a vantagem do senador. O intervalo até 25 de outubro tende a trazer volatilidade à bolsa, e ele cita o risco de atrito institucional com o Supremo Tribunal Federal como um fator em aberto.
Se reeleito, Lula cogita promover o vice, Geraldo Alckmin, a ministro da Fazenda.
A ideia é dar ao cargo um nome que o mercado leia como menos sujeito a demissão e que sinalize compromisso com as contas públicas.
As casas já revisaram o cenário. O JPMorgan passou a recomendar mais peso para as ações brasileiras, e o BTG Pactual estima que uma vitória de Flávio levaria o mercado de volta à média histórica de dez anos, uma alta de 11% a 20% em reais.
No câmbio, o Morgan Stanley projeta o real passando de R$ 4,90 rumo a R$ 4,50 já no primeiro trimestre de 2027.
O Société Générale vê o dólar a R$ 5,10 no fim deste ano e abaixo de R$ 5,00 em 2027.
A alta desta segunda foi a maior no pregão seguinte a um primeiro turno desde pelo menos 2002. Em 2022, Jair Bolsonaro também foi melhor do que as pesquisas e terminou em segundo, e a bolsa subiu 5,54% no pregão imediatamente seguinte. Lula venceu aquele segundo turno quatro semanas depois.
O ajuste, por ora, é expectativa. Flávio não publicou plano de corte de despesas nem anunciou os nomes que comandariam a área econômica, e o intervalo até a votação de 25 de outubro é curto.
No fechamento, o Ibovespa ficou 14.796,89 pontos acima do nível de sexta-feira, e o dólar devolveu R$ 0,22 em um único pregão.
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