CZ calcula a própria fortuna entre 10 e 30 bilhões de dólares
Viver bem, na conta de Changpeng Zhao, cabe em US$ 10 milhões. O criador da Binance, conhecido como CZ, afirmou que esse dinheiro bastaria para uma rotina confortável e, na mesma conversa, contestou as estimativas sobre o que possui. Segundo ele, o patrimônio está entre 10 e 30 bilhões de dólares, muito abaixo dos mais de 100 bilhões calculados por rankings de bilionários.
As declarações estão em uma entrevista publicada no começo deste mês, na casa onde ele mora, em Abu Dhabi. Aos 49 anos, CZ se descreve como uma pessoa comum, apesar da rotina de quatro seguranças, cozinheiro particular e um iate batizado de Da Moon.
As estimativas que não se encontram
Os números usados para medir a fortuna dele variam tanto que a diferença entre eles é maior do que a bolsa atribui à esmagadora maioria das companhias listadas. A Forbes, que mantém um ranking de bilionários atualizado em tempo real, calculava o patrimônio em US$ 114,6 bilhões no dia 7 de outubro. O valor o colocava na 18ª posição entre os mais ricos do planeta.
CZ afirma que a conta do ranking está longe da realidade. Na visão dele, o conjunto dos ativos, que reúne a participação na Binance, os tokens BNB e o dinheiro em conta, vale entre 10 e 30 bilhões de dólares.
A distância nasce do método usado para calcular. A Forbes parte da estimativa de que CZ detém cerca de 90% do capital da Binance, a corretora de ativos digitais que negocia o maior volume do mundo. Como a empresa é fechada e sem balanço auditado publicado, o ranking projeta o valor do negócio a partir da receita anual, projetada entre 16 e 17 bilhões de dólares, e de um volume anual de negociação que chega a 30 trilhões de dólares.
CZ já havia mexido nessa base em março deste ano, ao reduzir a receita anual que o mercado lhe atribuía de 16 bilhões para perto de 5 bilhões de dólares. Reduzir a receita estimada derruba o valor projetado do negócio e encolhe a fortuna calculada pelo ranking.
Para CZ, o dinheiro perde utilidade depois de certo ponto. Ele afirma que 10 milhões cobrem uma vida confortável, que 20 milhões fariam pouca diferença e que, acima de 50 milhões, o conforto adicional quase não muda a rotina de quem já tem. Em falas anteriores, ele já havia dito que não vale a pena passar a vida correndo atrás de mais dinheiro.
A vida depois da prisão
A entrevista acontece quase dois anos depois de CZ deixar a prisão. Ele passou quatro meses em uma unidade de segurança mínima em Lompoc, na Califórnia, por falhas nos controles de lavagem de dinheiro da Binance.
Esse processo terminou com a Justiça americana no fim de 2023 e o afastou do comando da Binance, além de lhe custar uma multa pessoal de 50 milhões de dólares. A corretora fechou um acordo de 4,3 bilhões de dólares com as autoridades americanas. Na semana passada, o Departamento de Justiça voltou a revisar se a Binance cumpre as obrigações assumidas.
CZ foi solto em setembro de 2024 e, menos de meia hora depois, já estava em um jato particular a caminho dos Emirados. O perdão presidencial de Donald Trump veio no dia 21 de outubro do ano passado.
A casa fica em Saadiyat, ilha de Abu Dhabi, e vale perto de 5 milhões de dólares, um preço modesto para o padrão da vizinhança. Ele dirige um carro branco da Nissan, que chama de brincadeira de “minha Lamborghini”, e divide a residência com a companheira, He Yi, uma das duas co-diretoras-executivas que assumiram o comando da Binance, e com os três filhos pequenos do casal.
O acordo que encerrou o processo o proíbe de operar ou administrar a Binance, mas ele continua sendo o maior acionista da empresa e sustenta que é apenas um acionista passivo.
Desde que deixou a prisão, CZ passou a investir em empresas de tecnologia e a viajar como uma espécie de interlocutor do setor com governos, recebido com honras em vários países. Ele também publicou um livro de memórias, no qual revisita a própria trajetória, e doou US$ 2 milhões para um programa de estudo voltado a presos nos Estados Unidos.
O valor da Binance em disputa
Parte da diferença entre as estimativas vem do próprio preço da Binance. Um aporte de 2 bilhões de dólares do fundo MGX, de Abu Dhabi, avaliou a empresa em US$ 75 bilhões, abaixo dos US$ 100 bilhões usados pela Forbes. O negócio foi liquidado em uma stablecoin, e CZ afirma que preferia o bitcoin.
A escolha da moeda rendeu perguntas no Senado americano, porque a stablecoin usada, a USD1, foi criada por uma empresa próxima de Donald Trump. CZ nega que a Binance tenha escolhido o ativo e diz que a decisão foi da própria MGX.
Sem ações negociadas em bolsa, a Binance não tem um preço único. O único valor que o negócio já teve de fato foi o do aporte da MGX, US$ 75 bilhões. Todo o resto, tanto os US$ 100 bilhões projetados pelo ranking quanto a faixa de 10 a 30 bilhões de dólares reconhecida por CZ, é estimativa.
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