IA e Tecnologia

Visa deixa a IA pagar a fatura no portal de quem vende

Visa, BILL e Billtrust puseram no ar um piloto em que um agente de inteligência artificial conclui sozinho o pagamento de uma fatura já aprovada, dentro da página em que o fornecedor recebe a cobrança. O anúncio foi feito em Las Vegas, na terça-feira, durante o encontro da indústria de pagamentos. Nenhuma das três empresas informou quantos pagamentos o teste já processou, nem de que valor, nem quando o arranjo deixa de ser piloto.

O sistema do comprador já aprovava a fatura. O que faltava era o trecho seguinte, entrar no portal mantido pelo fornecedor, digitar os dados do cartão e confirmar. Essas páginas são protegidas por CAPTCHA e por sistemas que barram tráfego automatizado, o que na prática impedia um programa de completar sozinho a operação.

O que o programa faz e o que segue com o time financeiro

O arranjo se apoia em duas peças que a Visa vinha montando. A primeira é o Trusted Agent Protocol, padrão publicado pela empresa em outubro do ano passado com a Cloudflare para dar identidade criptográfica a agentes. A segunda é o Agentic Directory, registro de agentes e comerciantes verificados apresentado em junho.

O programa de pagamentos da BILL se identifica nesse registro e entra no portal operado pela Billtrust com credenciais de cartão tokenizadas, sem que ninguém compartilhe login e senha. Os limites ficam amarrados à instrução que o comprador aprovou, e a trilha aponta para a fatura específica.

Quem decide continua sendo o time financeiro. A Visa afirma que o programa executa apenas pagamentos que já passaram pela aprovação do comprador, sem escolher fornecedor nem valor. Do lado da BILL são cerca de 500 mil empresas na base, e o volume que passa pela plataforma equivale a 1% do PIB americano. A Billtrust declara 20 milhões de empresas compradoras na rede e crédito comercial anual de US$ 1 trilhão.

Por que o portal virou o gargalo

Portal de fornecedor é a interface que o próprio comprador mantém para receber nota fiscal, confirmar pagamento e trocar dados bancários. Quem vende para várias empresas grandes acumula um login para cada uma, com regras e telas diferentes. Ali a automação parava, porque o pagamento podia estar aprovado no sistema do comprador e mesmo assim precisava de alguém para digitar.

A credencial do agente substitui justamente a barreira erguida contra robô. Para o fornecedor, a promessa é receber mais rápido sem abrir mão das regras que ele mesmo aplica para aceitar cartão. Para o comprador, é o tempo do time financeiro que hoje vai embora em digitação e conferência.

Nesta quarta-feira a Visa acrescentou duas peças ao pacote, uma para validar se o pagamento vai mesmo para o fornecedor cadastrado e outra para autenticar o usuário de cartão virtual. Ambas estão em teste e têm chegada prevista ao mercado em 2027.

O cartão entra em um trilho onde ainda é pequeno

A aposta se mede pelo que está em jogo e pelo que o cartão ocupa. Levantamento do Federal Reserve de Cleveland mostra que, em 2024, as empresas americanas movimentaram US$ 1,6 trilhão no cartão de crédito entre si. No mesmo ano, os cheques somaram US$ 15 trilhões e o ACH, US$ 70 trilhões.

A tarifa explica parte da diferença. Para quem recebe, o cartão cobra entre 2% e 2,5% sobre cada pagamento, o que faz a conta ficar mais cara que um wire a partir de cerca de US$ 300. Quase 90% das companhias americanas ainda usavam cheque em 2025 para alguma parte do que paga.

Por isso a Visa empurra o produto pelo lado de quem paga. A empresa afirma que a ferramenta que analisa o gasto com fornecedores já mapeou US$ 600 bilhões ou mais em compras que poderiam ir para o cartão desde 2021. A projeção da Juniper Research aponta US$ 14,6 trilhões para o volume desses pagamentos em 2029, o equivalente a 83% de todo esse mercado.

Quem mais corre no mesmo trecho

A Mastercard testou um fluxo parecido em Singapura com o HSBC, ligando um comprador corporativo a um fornecedor de comércio eletrônico. No meio do caminho operava a SourceSage, plataforma que conecta fornecedores a sistemas de compras. A primeira transação daquele piloto foi concluída em 29 de maio, e o HSBC negocia agora a fase comercial com os dois clientes envolvidos.

A Visa também move stablecoin na mesma rede. Em junho, a companhia informou que a liquidação nesse formato rodava, em março, a uma taxa anualizada de cerca de US$ 7 bilhões, e que o número de programas de cartão atrelados a stablecoin, no ar ou em desenvolvimento, passa de 160. O x402 resolve o mesmo problema por outra porta, com o agente pagando por acesso sem portal no meio.

O que o piloto ainda não mostra

Faltam os números que diriam se o arranjo escala. O comunicado não traz volume processado, quantidade de fornecedores conectados, prazo para operação comercial nem o preço cobrado para autenticar o agente. Diz apenas que o piloto está no ar e que há transações sendo concluídas com compradores que usam a BILL e fornecedores que usam a Billtrust.

O que existe de concreto é a inversão de função do portal. A mesma tela que barrava programa automatizado passou a exigir credencial de agente registrado, e o cadastro que emite essa credencial está com a rede de cartões. O cartão segue com US$ 1,6 trilhão de um lado e o ACH com US$ 70 trilhões do outro, e a tarifa de 2% cobrada de quem recebe é o que mantém a distância.

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