IA e Tecnologia

A acusação de sigilo no setor quântico não tem laboratório, resultado nem documento

O fundador de uma empresa que vende defesa contra o computador quântico diz que os laboratórios do setor seguram resultados de propósito. Alex Pruden, CEO da Project Eleven, afirmou em uma conversa transmitida na segunda-feira que a informação chegou à empresa pela boca dos próprios laboratórios, e tratou o assunto como fato consumado. Não citou laboratório, não detalhou resultado nem apontou quem pediu o silêncio.

Duas semanas antes, em um trecho de 71 segundos gravado à margem do TOKEN2049, em Singapura, ele já havia dito algo parecido. Na gravação, que circulou no dia 8 de outubro, Pruden afirma que a Google e as maiores companhias do setor quântico praticam autocensura e que o governo não as deixa publicar determinados trabalhos. Também ali sem nome de laboratório e sem resultado descrito.

O terreno dessa desconfiança não é novo. Em julho, Marin Ivezic, que escreve sobre criptografia pós-quântica e divulgação responsável, registrou o rumor de que empresas estariam segurando resultados sem publicar e classificou o que ouviu como boato de bastidor, sem nada que pudesse verificar. A previsão dele, na mesma nota, era de que o avanço rumo a uma máquina capaz de quebrar códigos seguiria em ritmo forte mesmo com menos anúncios públicos.

O único caso que a Google descreve por escrito

Existe um episódio documentado de laboratório limitando o que soltou, e o relato é da própria Google. No fim de março, a área quântica da empresa publicou uma estimativa nova para o esforço de atacar a assinatura que protege bitcoin e ether, hoje apoiada em uma curva de 256 bits. A conta caiu para 1.200 qubits lógicos, o que rodaria em minutos com menos de 500 mil qubits físicos em hardware supercondutor. É uma redução de aproximadamente 20 vezes sobre o número anterior.

Junto com o número veio a decisão de não publicar o circuito. A empresa diz que conversou com autoridades do governo americano e publicou, no lugar dos circuitos, um arquivo de verificação criptográfica que atesta o resultado sem mostrar o caminho, de modo que qualquer pesquisador pudesse repetir a conferência "sem oferecer um roteiro para os agentes mal-intencionados". O texto do estudo explica a escolha. Embargos de software costumam durar alguns meses, e a publicação costuma ser adiada quando a falha é difícil de consertar. Vulnerabilidades quânticas em curva elíptica se encaixam nessa categoria, e os autores escrevem que manter o circuito longe do público segue a mesma lógica que orienta a divulgação responsável de falhas.

O sigilo que Pruden descreve pode ser a aplicação de uma regra escrita do próprio campo, por um laboratório que assinou embaixo. A Google ainda marcou para 2029 a migração dos próprios sistemas para criptografia pós-quântica, prazo que anunciou publicamente.

A semana do comentário foi generosa em publicações

No dia 15, uma quinta-feira, a Google apresentou na Science um experimento com o processador Willow, no qual a preparação de estados quânticos conhecida como cultivo derrubou os erros quase 40 vezes frente ao resultado obtido sem a técnica. A fidelidade dos estados que sobreviveram ao processo chegou a 99,99%. Os autores do trabalho disseram que ainda falta demonstrar a técnica em escala maior antes de ela servir para uso prático.

No dia 19, uma segunda-feira, a Quantinuum reportou o que chamou de recorde de acurácia lógica no Helios, computador de 98 íons. A memória lógica do sistema acertou 99,9995% das vezes, ou 5 falhas a cada milhão de operações. Cada passo a mais na proteção do código reduziu as falhas por volta de 12 vezes. A empresa trabalha com uma máquina tolerante a falhas para 2029.

Nenhum dos dois resultados mexe com criptoanálise. São avanços em correção de erro, a parte física do problema, onde o progresso não entrega arma nenhuma. O que interessa a quem guarda bitcoin é a parte matemática, na qual o silêncio não prova nada e a ausência de anúncio não separa um laboratório contido de um laboratório sem nada para contar. Nada no registro público confirma ou desmente a fala de Pruden. Do jeito que foi feita, a afirmação não pode ser checada por ninguém de fora.

A distância entre o alerta e a máquina

O cronograma divulgado pelas próprias empresas serve de régua. A conta da Google exige algo como 1.200 qubits lógicos para atacar uma chave de 256 bits. O roteiro da IBM coloca 200 qubits lógicos em 2029, no sistema Starling, e 2.000 em 2033 ou depois, no Blue Jay. Contagens de arquiteturas diferentes não se comparam de forma direta, porque qualidade, conectividade e velocidade de relógio mudam a conta. A ordem de grandeza, ainda assim, deixa a máquina capaz de quebrar chaves perto do fim da próxima década.

Do lado da defesa, a semana também rendeu documento. A Coinbase publicou na semana passada as prioridades que quer ver na transição do bitcoin, e a empresa afirma custodiar algo como 12% do bitcoin que existe. O texto defende uma estrutura híbrida de gasto, em que a mesma moeda pode ser movida por uma chave clássica ou por uma chave pós-quântica, e aponta o BIP-360 como o formato de endereço capaz de receber os novos esquemas de assinatura sem refazer o desenho a cada mudança. A exchange também diz que a migração é um processo de vários anos.

O atraso é o argumento que a Project Eleven usa, e ele vem com número. Na contagem feita pela própria empresa entre as 20 maiores redes de camada 1 por valor de mercado, apenas 10 tinham, até 25 de setembro, um plano técnico publicado para trocar as assinaturas das contas por um padrão resistente ao quântico. A exposição do bitcoin a esse tipo de ataque também já foi medida, e os números estão em matéria publicada no dia 7.

O interesse de quem faz a acusação

A Project Eleven vende exatamente a defesa que o cenário descrito exige. A empresa foi fundada em 2024, levantou US$ 26 milhões no total, sendo US$ 20 milhões em uma série A de janeiro que a avaliou em US$ 120 milhões, e prepara para o quarto trimestre o Strongpoint, plataforma de custódia institucional pós-quântica cuja primeira parceira de desenvolvimento é a Fundação Zcash. A estimativa da própria empresa dá a quebra como mais provável que não até 2033, com chance de acontecer já em 2030.

Isso não torna a afirmação falsa. Torna a conferência mais necessária, porque a palavra é de quem fatura com a urgência e os laboratórios acusados não foram nomeados. E há uma diferença de método dentro da própria empresa. As outras teses da Project Eleven vêm com material checável, como o prêmio de 1 BTC para quem quebrar a curva do bitcoin com um computador quântico, a lista pública de endereços expostos e o protótipo de recuperação de carteiras que dispensa revelar a chave e que a empresa apresentou em julho.

O laboratório que de fato reteve material descreveu a decisão, o motivo e o que entregou no lugar dela. A acusação que circula agora não tem laboratório, não tem resultado e não tem documento. Para quem precisa decidir se move moedas ou espera, os dados verificáveis são outros dois, o número de redes com plano de migração publicado e a distância entre a máquina que os roteiros prometem e a que existe hoje.

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