Corredor de stablecoins movimenta US$ 31,5 bi por ano na América Latina
Um corredor de stablecoins em operação na América Latina movimenta US$ 31,5 bilhões por ano, segundo a pesquisa The Exodus Economy do BeInCrypto Intelligence. O número resume uma mudança silenciosa no uso do dinheiro na região, em que trabalhadores e empresas passaram a receber e circular renda em dólar digital fora do sistema bancário doméstico.
A pessoa não precisa deixar o país para o dinheiro sair.
O dinheiro raramente para na região
Os números falam por si. Mais de 99% do volume de stablecoins retirado de carteiras ligadas a exchanges voltou a se mover em até 30 dias, e cada grupo analisado transferiu pelo menos 96% do que sacou no mesmo intervalo. O saque médio fica em US$ 544, um valor que encaixa com pagamentos rotineiros de trabalho e não com grandes reservas.
Quase tudo o que entra na conta volta a circular.
Na coorte da Bitso na rede Tron de março deste ano, cerca de 89% dos endereços que retiraram stablecoins funcionaram como carteiras de passagem, movendo ao menos 90% dos fundos em um mês. Apenas 6% se comportaram como poupadores e deixaram o saldo parado por 90 dias. É um sistema feito para o dinheiro seguir adiante.
Quem mora na região ganha de fora, mas gasta dentro.
Por que o rendimento escapa do sistema doméstico
O motivo é simples. Muitos latino-americanos hoje trabalham para empresas ou clientes no exterior, mas seguem pagando as contas em pesos, reais ou outras moedas locais. As stablecoins como USDT e USDC permitem receber em dólar, segurar o valor por pouco tempo e converter apenas o necessário para o dia a dia.
Entram aí pagamento de fornecedor, contratos e receita de exportação.
A pressão cambial ajuda a explicar. Em países com inflação alta ou desvalorização rápida, manter a moeda local corrói o poder de compra em pouco tempo. O dólar digital permite adiar a conversão e deixar parte da renda ancorada na moeda americana, em vez de apostar tudo no real ou no peso.
Cada país vive essa conta de um jeito.
Na Argentina, o acesso ao dólar protege o rendimento da instabilidade cambial. No Brasil, abre porta para gastos e investimentos globais. No México, a via digital corre ao lado de um dos maiores mercados de remessas do mundo, que recebeu US$ 63 bilhões em um ano.
O dinheiro também está demorando mais para se mover.
Os corredores seguram o dólar digital por mais tempo
A pesquisa mede esse ritmo com a meia-vida do dólar, o tempo que leva para metade de um saldo retirado voltar a circular. O indicador subiu de 4,7 dias em março de 2025 para 10,9 dias em março de 2026. As pessoas seguem movendo o dinheiro, mas o estão segurando por mais tempo antes da próxima etapa.
O número ganha contorno quando se olha a região inteira.
O relatório descreve isso como uma economia de saída, um sistema em que os donos do dinheiro permanecem no país, mas o capital circula em plataformas no exterior. Para dar a dimensão, os brasileiros mantêm US$ 654 bilhões fora do Brasil segundo o Banco Central, enquanto 27 milhões de latino-americanos vivem fora do país.
O que cruza a fronteira é o dinheiro, as pessoas ficam.
O corredor cresce sobre um mercado amplo. Só o Tether, emissor da USDT, vale cerca de US$ 183 bilhões em oferta, e a Circle com a USDC soma outros US$ 72 bilhões. A infraestrutura de dólar digital na região deixou de ser nicho e virou camada do sistema de pagamentos, com escala para competir com canais tradicionais.
O tráfego aumenta e os corredores se firmam.
Os dados on-chain mostram movimento, mas têm limites. Eles não dizem quem mandou o quê, nem permitem cravar que cada transferência foi um salário ou apontar para onde cada valor seguiu. O que sobra é um padrão de circulação, e é nele que a leitura se apoia.
O que era caso isolado virou rotina de pagamento.
Para quem acompanha o setor, a leitura é direta. O dinheiro latino-americano aprendeu a circular fora do sistema doméstico sem que os donos precisem deixar o país, e esse fluxo em dólar digital já tem escala para disputar com os canais tradicionais de remessa. É uma economia de saída construída sobre quem fica.
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