ETF da OranjeBTC coloca 95% em papel da Strategy e mira CDI mais 5 pontos
O Brasil ganha um ETF de renda mensal montado sobre as ações preferenciais das maiores companhias de bitcoin dos Estados Unidos, com 95% da carteira nos papéis da Strategy e o restante nos da Strive. Quem emite é a OranjeBTC, dona de 3.950 bitcoins avaliados em cerca de US$ 250 milhões, com o Digital Yield ETF, o DIGY11, estreando na B3 no início de setembro.
O produto entrega o que o investidor brasileiro já conhece, dinheiro todo mês, com os proventos vindos de lá convertidos para reais.
A conta do fundo
As preferenciais STRC, da Strategy, e SATA, da Strive, distribuem proventos recorrentes em dólar e mantêm o bitcoin no balanço das companhias, sem penhorar o ativo. Hoje o STRC rende cerca de 12,6% ao ano e o SATA, 9,5%, níveis verificados no mercado americano.
É renda atrelada a um ativo que não sai do balanço de quem emite, e é exatamente essa garantia que sustenta o discurso de venda do fundo.
A meta declarada é distribuir o equivalente ao CDI, hoje em 14,15%, mais 3 a 5 pontos ao ano, já descontado o custo total estimado de 1,30%. A estimativa não considera a variação do preço das cotas e não garante retorno, ressalva que a própria companhia faz questão de repetir.
O cálculo depende do nível dos proventos das preferenciais e da diferença entre os juros do Brasil e os dos Estados Unidos.
O DIGY11 terá proteção cambial, com forwards de um mês renovados mês a mês e rebalanceamento a cada trimestre, para blindar o retorno em reais contra o sobe e desce do dólar. A gestão fica com a 3R Investimentos, a administração fiduciária com o Banco Daycoval e o índice de referência com a MarketVector.
A OranjeBTC vai entrar com R$ 25 milhões da própria tesouraria.
Uma classe nova para o investidor brasileiro
O desenho repete, em escala local, o que já existe lá fora sem grande alarde. O 21Shares Strategy Yield ETP, listado na Europa, tem US$ 17,6 milhões e usa os proventos para recomprar mais papéis, sem repassar nada ao cotista. Nos Estados Unidos, a exposição a essas preferenciais mora dentro de fundos maiores, como o VanEck PFXF, com US$ 2,44 bilhões e cerca de 10% do portfólio em papéis da Strategy.
O mercado brasileiro de fundos e ETFs de crypto já soma R$ 13,7 bilhões, com 576 mil cotistas.
O que o DIGY11 faz de diferente é empacotar uma classe que o investidor local mal conhece, as preferenciais perpétuas de companhias que usam bitcoin como reserva. O índice desenhado com a MarketVector exige das participantes um estoque mínimo de 4 mil bitcoins e um balanço em que o ativo pese mais da metade do total.
Hoje só dois papéis passam nesse filtro, o STRC e o SATA.
A escolha não é acaso, a Strategy é a maior detentora corporativa de bitcoin do mundo e a Strive nasceu com a mesma tese. Os dois papéis juntos giram US$ 300 milhões por dia nos Estados Unidos, liquidez que o ETF traz para a B3. O STRC é o mesmo papel que a Strategy sustentou com recompras na semana passada, como o LaboNews mostrou.
O anúncio foi feito durante o Blockchain Rio, na quarta-feira, e coloca a OranjeBTC em um papel novo, o de emissora de produto financeiro além de gestora de tesouraria. O CEO Guilherme Gomes define o fundo como uma forma de levar renda respaldada por bitcoin a quem não quer abrir conta no exterior.
O bitcoin, que ontem valia US$ 63,5 mil, segue como pano de fundo. O ETF não investe na criptomoeda nem tenta replicar sua variação, mas o risco dos balanços por trás dos papéis é o mesmo risco do ativo.
Se o CDI render 14,15% e o fundo cumprir a meta, o DIGY11 entrega algo perto de 17% ao ano antes de impostos, uma conta que depende dos proventos das preferenciais seguirem no nível atual e da proteção cambial funcionar como prometido. Em setembro o mercado descobre se a promessa sobrevive ao encontro com o preço das cotas, que também oscila.
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