Segurança

A Bitget foi invadida em agosto, e o roubo só veio em setembro

O roubo de US$ 387,5 milhões sofrido pela Bitget na noite de 24 de setembro não começou naquele dia. A investigação da SlowMist, contratada pela corretora logo depois do ataque, encontrou o primeiro registro de atividade maliciosa em 31 de agosto, 25 dias antes de o dinheiro sair das carteiras quentes e mornas da plataforma.

O relatório foi divulgado na quarta-feira, 30 de setembro, e é parcial, com a apuração fechada até o dia 29.

A noite do roubo

O que a investigação reconstruiu daquela noite está registrado em UTC. Às 16h07, o invasor usou o acesso de um funcionário para chegar à área administrativa de um segundo programa de segurança e tentou três vezes injetar comandos no sistema.

Às 17h49, começou a rodar a ferramenta que faria o serviço. Ela foi escrita sob medida para conversar com a lógica de saque da corretora, e os investigadores a recuperaram de arquivos apagados pelo invasor. A ferramenta inventou os parâmetros que o controle de risco esperava ver, montou as ordens de retirada e disparou o processo por conta própria.

Às 18h31 saiu a primeira transferência verificada, de 93 TRX, e 11 segundos depois, de 0,84 ETH. Eram dois testes.

O grosso veio em seguida. Segundo a Arkham, US$ 228 milhões deixaram a corretora em 18 minutos, espalhados por sete redes. O XRP respondeu pela maior fatia isolada, perto de US$ 153 milhões, e o total contabilizado pela corretora chegou a US$ 387,5 milhões, com a última transferência montada às 21h23, quase três horas depois do primeiro envio.

Depois de começar, o invasor ainda tentou apagar o próprio rastro. Voltou ao sistema de registro da carteira para reescrever os saques, e duas ordens em bitcoin voltaram com erro. O histórico mostra uma segunda tentativa.

Nenhuma chave privada foi levada e as carteiras frias, com a maior parte dos fundos, ficaram fora do alcance. O que o invasor conseguiu foi outra coisa. Ele convenceu o sistema de aprovação da corretora a assinar transferências que pareciam rotina, com dados forjados dentro da infraestrutura que gerencia as carteiras.

Um mês de acesso antes do roubo

O caminho até esse ponto começou semanas antes, em um programa de segurança que a Bitget usava, de um fornecedor que a investigação chama apenas de Produto A. O fabricante só soube da brecha quando a corretora avisou. Uma falha que nem o fabricante da ferramenta conhecia abriu caminho em um dos servidores. O invasor rodou um script escondido, leu a variável de ambiente que guardava a senha de acesso ao banco e abriu conexão direta com ele.

O mesmo script reapareceu em dois outros servidores da estrutura, nos dias 23 e 25 daquele mês.

Para a SlowMist, esse é o dado que muda a leitura do caso. Os ambientes já estavam comprometidos antes de qualquer transferência sair, o que deu ao invasor quase um mês para estudar como a corretora movimenta dinheiro e onde ficam os limites de cada etapa.

A Mandiant, braço de segurança do Google Cloud, fez uma investigação separada e descreveu o passo seguinte. O invasor manteve um programa de acesso remoto em um segundo equipamento, o Produto B, montou um canal de controle e dali se moveu para o servidor que processa as carteiras da corretora, onde instalou pacotes maliciosos.

O intervalo de 25 dias muda o tipo de ataque. O invasor não tinha pressa e pôde reconhecer o terreno antes de escolher o momento de agir.

O que ficou em aberto

A Bitget afirma ter corrigido a falha, desativado a função afetada, avisado o fornecedor e reforçado a verificação dos saques. As retiradas voltaram em etapas, começando pelo bitcoin em 28 de setembro.

O prejuízo saiu do fundo de proteção da corretora, que a empresa avalia em mais de US$ 464 milhões, lastreado em 5.500 BTC. A Bitget sustenta que nenhum saldo de cliente foi cortado e que o valor reservado cobre a perda. Para tentar reaver parte do dinheiro, a corretora paga recompensa de 5% sobre o que for congelado ou devolvido com ajuda de fora, e mantém um painel público de rastreamento dos ativos desviados.

O dinheiro segue em movimento. Scripts automáticos colocam ordens de troca no CoW Protocol e mandam o resultado para um contrato da Chainflip, que entrega bitcoin no fim do caminho. Um dia antes, a própria Chainflip havia recusado receber um envio desses endereços.

A autoria segue como suspeita. Gracy Chen, que comanda a Bitget, citou padrões de endereços de internet e movimentações que lembram as de grupos associados ao regime norte-coreano. A Elliptic incluiu o caso entre os maiores de 2026 atribuídos a Pyongyang, sem confirmação de nenhum governo, e os rastros públicos se sobrepõem aos de grupos de lavagem usados em outros casos, o que não liga o roubo a autores específicos.

O documento não nomeia os dois programas de segurança comprometidos. Também não explica como o invasor atravessou de um ambiente para o outro. As duas respostas seguem em aberto na apuração.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

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