Macro

Bitcoin fica estagnado após alta de juros do Fed enquanto ouro devolve ganhos

O Federal Reserve elevou nesta quarta-feira a taxa básica de juros dos Estados Unidos em um quarto de ponto percentual, para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão foi unânime entre os doze integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto e marca a primeira alta da taxa desde 2023, invertendo a direção que prevalecia até pouco tempo atrás.

O mercado de criptomoedas reagiu com indiferença, e o Bitcoin seguiu pressionado. A criptomoeda chegou a operar abaixo de US$ 75.000 no dia anterior e, horas após o anúncio, ainda lutava para se manter perto de US$ 76.152, com queda de 0,7% no acumulado de 24 horas.

Federal Reserve: Faixa de Meta da Taxa de Juros (2024-2026) e Treasury 10 anos
Federal Reserve: Faixa de Meta da Taxa de Juros (2024-2026) e Treasury 10 anos

O ouro seguiu caminho semelhante. O metal chegou a subir até US$ 4.368 logo após a decisão, mas devolveu boa parte do ganho e fechou a tarde perto de US$ 4.333.

A reação dos dois ativos chama atenção porque ambos costumam ser tratados como reserva de valor diante de incerteza monetária. Nesta quarta-feira, porém, nenhum deles conseguiu sustentar o impulso inicial.

Mudanças no comunicado e novas projeções

Além da própria taxa, o comunicado trouxe mudanças significativas na forma como o Fed descreve a inflação. A versão de julho culpava parcialmente a alta de preços por problemas de abastecimento em áreas como energia. Essa justificativa sumiu no documento de setembro.

O que entrou no lugar foi uma afirmação direta. O aumento anunciado deve ajudar a levar a inflação de volta ao alvo de 2% com mais rapidez. A parte final do texto, aquela em que o comitê se compromete a garantir preços estáveis, ficou idêntica.

Os dirigentes ainda melhoraram o tom sobre o investimento empresarial e optaram por falar em desenvolvimentos geopolíticos de forma genérica, deixando de citar diretamente o conflito no Oriente Médio.

O sinal já vinha de julho

O chamado gráfico de pontos, no qual cada um dos dezoito dirigentes do Fed marca onde acredita que a taxa deveria estar, passou a mostrar um comitê bem mais inclinado a apertar a política monetária. Dezesseis dos dezoito participantes já esperam pelo menos mais uma alta até o fim do ano. Na reunião de junho, apenas nove pensavam assim. O grupo saltou de nove para dezesseis em três meses.

As novas projeções também elevaram a estimativa de inflação ao consumidor, medida pelo índice de gastos pessoais, para 3,4% em dezembro deste ano e 2,5% um ano depois. Ao mesmo tempo, o comitê reduziu a previsão de desemprego para 4,1% nos dois períodos, ante 4,3% na leitura anterior.

A guinada não nasceu nesta quarta-feira. Na reunião de julho, três presidentes de bancos regionais do Fed, Beth Hammack, de Cleveland, Neel Kashkari, de Minneapolis, e Lorie Logan, de Dallas, discordaram da decisão de manter os juros parados e defenderam uma alta imediata de um quarto de ponto. Dois meses depois, a posição que era minoritária virou consenso do colegiado.

O contexto que cercou a decisão

A alta chegou numa semana já difícil para o mercado de criptomoedas. Bitcoin e XRP haviam recuado depois que o Senado americano rejeitou o Clarity Act, projeto que definiria qual regulador federal supervisiona ativos digitais, o que provocou a liquidação de mais de US$ 300 milhões em posições alavancadas.

Nos dias que antecederam a reunião, Christopher Phelan, assessor da Casa Branca, fez um apelo público para que o Fed não subisse os taxas. Ele usou como argumento a queda nos números de inflação. O comitê ignorou a recomendação.

Desde que assumiu o posto após a saída de Jerome Powell, o presidente do Fed, Kevin Warsh, ainda não aprovou nenhum corte de juros.

Ações e títulos reagiram melhor que o costume

Os dias de decisão do Fed não vinham sendo favoráveis em 2026. Segundo levantamento do Bespoke Investment Group, o S&P 500 havia recuado nas cinco reuniões anteriores, com queda média de 1,5% na sessão. Nesta quarta-feira o índice fechou em alta, assim como o Nasdaq, e os rendimentos dos títulos do Tesouro recuaram em toda a curva.

A entrevista coletiva do presidente do Fed, realizada minutos depois da decisão, deve pesar tanto quanto o comunicado na formação das apostas do mercado para as próximas reuniões. A disposição dos investidores em manter posições em bitcoin, mesmo diante de um Fed mais rígido, depende de Warsh sustentar o discurso que já vinha adotando desde Jackson Hole.

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