O ouro caiu ao menor nível em um ano com a inflação em 3,6% e aposta em alta de juros em dezembro
O ouro à vista caía para perto de US$ 3.900 a onça no começo da tarde desta sexta, queda de 3% no dia, no menor nível em um ano. A prata recuava 5,5%, para US$ 49,27, abaixo dos US$ 50 pela primeira vez em onze meses. As duas quedas vieram na mesma semana em que a inflação americana medida pelo PCE ficou em 3,6% em doze meses, com núcleo em 3,1%, e o crescimento do terceiro trimestre acelerou para 3,4% ao ano. Os dois metais que o mercado vende como proteção contra inflação caíram justamente quando a inflação deixou de ceder.
Não é um dia isolado. O ouro caminha para o segundo mês seguido de queda e está longe do pico que o benchmark de Londres marcou no fim de janeiro, de US$ 5.501 a onça. A prata, que chegou a US$ 121 no começo do ano com a falta de metal no mercado físico, perdeu 17% só em outubro.
O que derrubou o ouro
O gatilho mais direto veio do petróleo. Um petroleiro foi atingido no Estreito de Ormuz por artefatos presos ao casco por um barco pequeno, e ninguém assumiu o ataque até agora. O barril americano passou de US$ 103 e o Brent, de US$ 117. Combustível mais caro empurra a inflação para cima e tira espaço de corte de juros.
O Federal Reserve já tinha mantido a taxa na faixa de 3,75% a 4,00% na quarta-feira, em votação de 10 a 2, com dois diretores pedindo alta imediata de 0,25 ponto. Depois do PIB e do PCE de quinta, os contratos futuros de juros passaram a apostar em nova alta em dezembro. O dado de custo de mão de obra desta sexta mostrou alguma trégua, com alta de 0,8% no trimestre, mas o custo total da remuneração segue em 3,4% em doze meses.
A venda veio da bolsa
A bolsa americana caía junto. O Nasdaq recuava 2,5%, para 25.537 pontos, e o S&P 500, 1,5%, para 7.601. A Alphabet já tinha caído na quinta, e a orientação fraca de Amazon e Intel ampliou a venda em tecnologia nesta sexta.
O roteiro habitual manda o ouro subir quando o juro do Tesouro recua. Nesta sexta o juro de dez anos ficou abaixo de 4,90%, depois de fechar a quinta em 4,98%, e o metal caiu do mesmo jeito. A leitura da Kitco é que a venda forçada de posições e o horizonte de juros tiveram mais peso que a busca por proteção, mesmo com guerra no Oriente Médio e juro em queda.
Por que a prata caiu mais
A prata devolveu mais que o ouro porque carrega um problema próprio. Os US$ 50 que ela perdeu nesta sexta foram o teto histórico do metal em 1980 e em 2011, e agora o preço está abaixo dos dois. Em outubro, a queda acumulada passa de 17%.
A demanda industrial também esfriou. Pelo levantamento da consultoria Metals Focus, há troca de prata por outros materiais em painéis solares e consumo fraco de joias e de peças de mesa. A mesma consultoria projeta que o déficit de oferta do metal diminua neste ano até virar sobra no ano que vem. Com isso, a relação entre os dois metais, que mede quantas onças de prata compram uma de ouro, passou de 79, o maior nível de 2026.
O bitcoin no mesmo dia
O bitcoin estava em US$ 77,3 mil no começo da tarde desta sexta, recuo de 0,5% no dia, depois de ter perdido 4% na quinta, quando a Binance teve as carteiras esvaziadas no maior roubo já registrado no setor. Sobre o dinheiro que não foi travado e o caminho que ele percorreu, esta reportagem mostra o rastro.
Na comparação do dia, o bitcoin perdeu menos que o ouro e muito menos que a prata. A moeda está 31% abaixo dos US$ 111,6 mil que tocou há um ano.
Na semana, o ouro recuou 1,4% e a prata, 8%. O primeiro está 29% abaixo do pico de janeiro, e a segunda, 59% abaixo do topo do começo do ano. A inflação que deveria sustentar os dois segue em 3,6%.
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