Mineração de Bitcoin pesa na matriz elétrica do Paraguai com risco de crise
A mineração de Bitcoin já consome cerca de 30% da energia faturada no Paraguai, segundo cálculos apresentados por analistas durante a conferência Accelerating Bitcoin, realizada em Asunción em 12 e 13 de agosto. O número foi exposto em um painel da conferência dedicado ao futuro energético do país, que reuniu o pesquisador Victorio Oxilia, a doutora em políticas energéticas Cecilia Llamosas, o engenheiro Gabriel Lamas, da Hive Technologies, e o cofundador do evento, Bruno Vaccotti.
O dado não é uma projeção distante. Ele descreve o que a atividade consome hoje sobre a energia efetivamente vendida pela estatal Administración Nacional de Electricidad, a ANDE. Oxilia, doutor em energia, deu uma medida concreta desse peso. Só de criptomineração, o Paraguai usa o equivalente ao que geram, no total, uma turbina e meia da usina de Itaipu.
O peso da mineração na energia do Paraguai
O tamanho dessa fatura pesa sobre o país inteiro.
O pesquisador comparou dois cenários. Sem a demanda das mineradoras, o Paraguai teria uma folga elétrica de cerca de três anos para crescer sem risco de faltar potência. Com o consumo atual e mantendo um ritmo moderado de aumento, esse limite se aproxima para 2029, desde que as condições hidrológicas das represas permaneçam favoráveis.
A base dessa conta está na própria matriz paraguaia. O país gera quase toda a eletricidade de que dispõe a partir de hidrelétricas. Itaipu, usina binacional construída com o Brasil sobre o rio Paraná, tem 14.000 megawatts de capacidade instalada, e a parcela de 50% que cabe ao Paraguai, cerca de 7.000 megawatts, cobre aproximadamente 86% da demanda total do país. A usina não é a única peça do sistema. Mais adiante no Paraná, a represa de Yacyretá, construída em parceria com a Argentina, adiciona 1.600 megawatts, e a usina de Acaray, inteiramente paraguaia, contribui com mais 210 megawatts.
O excedente dessas três usinas é o que sustenta a mineração sem esvaziar o consumo interno.
Uma matriz de três usinas
O Paraguai usa internamente só uma parte pequena do que gera. O país reúne cerca de 7 milhões de pessoas, e a sobra entre produção e consumo local foi o que o converteu em um polo global de mineração de bitcoin. Segundo o Hashrate Index, o Paraguai respondeu por aproximadamente 4,3% do hash rate mundial no segundo trimestre, cerca de 43 exahash por segundo.
Esse posicionamento transformou a energia em um ativo estratégico disputado por dois compradores.
De um lado, o Brasil, que paga pela energia firme de Itaipu, aquela disponível em 70% do tempo, cerca de US$ 38 por megawatt-hora, além de uma compensação adicional que deve chegar a US$ 13 neste ano, somando cerca de US$ 51 por megawatt-hora. De outro, as mineradoras, que desembolsam entre US$ 48 e US$ 56 por megawatt-hora, usando números apresentados por Llamosas no painel. O preço de referência da energia em barra, sem custos de transmissão e distribuição, fica em torno de US$ 29.
O problema apontado pelos analistas não é o preço, mas a quantidade.
O vencimento dos contratos em 2027
Os acordos que hoje prendem as mineradoras à energia paraguaia, firmados com a estatal ANDE, vencem em 2027, e até agora não há definição pública sobre a renovação nem sobre o destino dessa energia caso os contratos não sejam estendidos. E o país não tem, neste momento, nova oferta elétrica em construção para cobrir uma demanda crescente.
O custo dessa energia para quem minerou no Paraguai também subiu.
As tarifas de média tensão, que começaram em torno de US$ 0,03 por quilowatt-hora, passaram a US$ 0,051 e recentemente se aproximaram de US$ 0,06, segundo o Hashrate Index. A ANDE ainda passou a exigir depósitos de garantia equivalentes a três meses de consumo, o que reserva, para uma operação de 40 megawatts, cerca de US$ 4,5 milhões em capital antes mesmo de ligar as máquinas.
As mineradoras foram enquadradas como consumidores industriais intensivos, dentro do regime GCIE, que reconhece o setor mas altera a economia de quem opera.
A dimensão do consumo paraguaio contrasta com a participação da mineração de bitcoin no cenário global. Segundo o Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index, a rede inteira consome algo entre 138 e 205 terawatt-hora por ano, o equivalente a cerca de meio por cento da eletricidade usada no mundo. A fatia que o Paraguai destina à atividade é, proporcionalmente, muito maior que essa média.
O bitcoin negociava perto de US$ 80.434 no momento da redação, em alta de cerca de 2% nas últimas 24 horas, segundo a CoinGecko.
Para o Paraguai, o ponto de equilíbrio entre receita e risco elétrico é uma decisão que está sendo definida agora. O país tem em Itaipu uma das maiores vantagens energéticas do continente e usa parte dela para minerar bitcoin, gerando divisas e atividade econômica. O mesmo excedente, contudo, sustenta uma indústria que já consome um terço da energia faturada e cujos contratos expiram em um horizonte curto.
O vencimento de 2027 e a ausência de novas usinas determinam se o alerta se converte em crise de potência em 2029 ou em oportunidade para reorganizar o uso da energia paraguaia.
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