Análises

O bitcoin passou oito meses em baixa, e nunca foi tão rápido assim

O bitcoin registrou sua máxima histórica em US$ 126 mil, em 6 de outubro de 2025. Oito meses depois, no fim de junho, chegou perto de US$ 58,5 mil. A queda foi de 53 %, e o preço já voltou para a casa dos US$ 85 mil.

O padrão dos ciclos

Quem olha para a história do bitcoin costuma encontrar o mesmo desenho. Sobe muito, cai por um tempo previsível, e volta. A duração da queda é a parte que se repete com mais precisão do que o tamanho dela.

Nas quatro altas anteriores, os períodos de subida foram de 24 meses, 28 meses e duas vezes 35 meses. A mais longa delas durou 1.066 dias, e a seguinte durou 1.065. Quase idênticas.

Nas baixas, a repetição é maior. A queda de 2018 durou 365 dias. A de 2022 também durou 365 dias, com uma queda de 77 %. A única exceção longa foi a baixa entre 2013 e 2015, que durou 608 dias, pouco mais de vinte meses, e levou o preço a US$ 200.

Existe ainda uma marcação menor no começo da história, entre 2011 e 2012, com 153 dias. É a única caixa do gráfico que fica abaixo de um ano de duração, e ela merece ser levada a sério antes de chamar este ciclo de recorde.

Gráfico de candles mensais do bitcoin de 2010 a 2026, com as altas destacadas em azul e as baixas em vermelho, cada uma marcada com variação, duração em dias e volume

Marcação dos ciclos do bitcoin em escala logarítmica, com as altas em azul e as baixas em vermelho

O que muda nesta baixa

A diferença mais visível não é o tempo, é a profundidade. As baixas anteriores perderam entre 77 % e 94 %. Esta perdeu 53 %.

A segunda diferença é o tamanho do estrago no dinheiro real. Entre junho e início de julho, os fundos de índice que compram bitcoin registraram a maior saída de recursos da história deles, US$ 4,5 bilhões só em junho. O total de recursos administrados caiu de US$ 94 bilhões para US$ 71 bilhões em um mês.

A terceira é que a rede não desligou. O volume de transações com moedas estabilidade em julho ficou em torno de 2,3 vezes o da Visa no mesmo período, e a tokenização de bens reais cresceu mais neste ano do que em qualquer ano anterior.

A causa da queda

O bitcoin não caiu por problema técnico. Caiu porque o dinheiro foi para outra coisa e porque os juros subiram.

O Federal Reserve manteve a taxa básica entre 3,5 % e 3,75 % acima do que o mercado esperava, enquanto a inflação não dava sinais de ceder. Depois a tensão entre Estados Unidos e Irã elevou o preço da energia e tirou do horizonte a possibilidade de corte de juros.

Outubro de 2025 traz um evento isolado que ajuda a explicar a queda. No dia 10 o governo dos Estados Unidos anunciou tarifa de 100 % sobre importações da China, e o mercado de cripto foi junto. Posições alavancadas no valor de mais de US$ 19 bilhões foram fechadas à força, e o estrago passou por 1,6 milhão de contas.

Ao longo dos meses seguintes o preço foi cedendo. A liquidação forçada continuou aparecendo, e em algumas jornadas foram fechados de uma só vez, num total entre US$ 1,6 e US$ 3 bilhões. Cada uma dessas liquidações arrastava o preço mais um pouco para baixo.

Por que subiu de novo

O fundo aconteceu no mesmo período em que o dinheiro institucional parou de vender. As carteiras grandes deixaram de liquidar posições, e a queda de junho foi profunda o bastante para que quem comprou entre US$ 60 mil e US$ 70 mil passasse a tratar aquele nível como piso.

Em agosto os fundos de índice voltaram a captar. Entre 17 e 27 de agosto houve nove dias seguidos de entrada, e o total de recursos administrados voltou a US$ 99,6 bilhões. Entre agosto e setembro o bitcoin subiu cerca de 35 %, e o valor total de todos os ativos cripto voltou a US$ 3 trilhões pela primeira vez no ano.

Duas forças explicam parte da alta. Uma é a entrada de recursos nos fundos de índice. A outra é a desvalorização do dólar e a queda dos juros dos títulos do Tesouro americano no fim do verão, que afrouxaram as condições financeiras.

O que ainda pesa contra

O fundo de junho não é consenso. Entre as leituras que marcaram a mínima, o Galaxy Research trabalha com um piso entre US$ 40 mil e US$ 46 mil, e o fundo do Standard Chartered, de US$ 59 mil, não resistiu ao próprio mercado, já que o preço foi abaixo disso dias depois.

Em setembro a história deu dois sinais ruins. O Projeto de Lei CLARITY, que organizaria o mercado cripto nos Estados Unidos, perdeu a votação no Senado por 49 a 50. No dia seguinte o Federal Reserve subiu os juros, levando a faixa para 3,75 % a 4 %. Foi a primeira alta desde 2023, e o comunicado apontou outras adiante.

As entradas nos fundos de índice também deram sinal de alerta, porque em setembro houve saídas de recursos. E as reservas em corretoras chegaram a 687 mil bitcoins, o maior valor do ano. Moeda que vai para corretora é moeda que pode ser vendida.

O que observar agora

O gráfico marca esta baixa com 365 dias, igual às de 2018 e 2022. A contagem real entre a máxima e o fundo foi de oito meses. A diferença é que o preço já voltou, e o que o gráfico ainda não sabe é o que acontece depois.

Há um número que separa as duas hipóteses. O preço médio de compra de quem entrou nos cinco meses anteriores, calculado pela Glassnode no fim de julho, fica perto de US$ 69 mil. O bitcoin passou desse nível em agosto, e hoje está acima dele.

Para quem está acompanhando o gráfico, esse é o ponto que decide. Enquanto o preço se sustentar acima do custo de quem comprou na queda, a hipótese do fundo ganha força. Se voltar abaixo, a queda de oito meses vira apenas a primeira parte de uma baixa mais longa.

Para quem olha para os números, nenhuma previsão de preço resolve a questão. Oito meses é o menor período de baixa entre os ciclos com tempo suficiente para comparação, e isso é fato. Afirmar que o fundo foi em US$ 58,5 mil não é afirmar que o preço não cai mais. É afirmar que quem vendia parou, e isso ainda está em teste.

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