Mercado Crypto

Saylor prefere as agências à CLARITY Act parada no Senado

O presidente executivo da Strategy, Michael Saylor, disse que o travamento da lei de mercado crypto no Senado americano foi o melhor desfecho possível para o setor. Na conta dele, o projeto carregava "600 páginas de restrições", e o setor ganhou quando o texto não avançou.

A declaração foi dada na terça-feira, em painel da DC FinTech Week, evento que acontece no Banco Mundial, em Washington, nos Estados Unidos.

A CLARITY Act é o projeto que reparte a supervisão dos ativos digitais entre a SEC e a CFTC. Na Câmara, o texto passou em julho de 2025, por 294 votos favoráveis e 134 contrários. No Senado, o avanço parou em uma votação de procedimento em 15 de setembro, que terminou em 49 a 50, onze votos abaixo do mínimo necessário. O voto de 15 de setembro tratava apenas de começar a discussão no plenário, sem entrar no conteúdo da proposta. Desde então o projeto está parado, e uma nova tentativa depende de um acordo político que ainda não apareceu.

A leitura corrente no mercado foi de derrota, e a declaração vai na direção oposta. O argumento dele é que o preço embutido no texto era maior que o benefício.

O que a lei levaria junto

Para ele, o projeto daria ao setor o reconhecimento legal que pediu por anos, mas cobrava um preço. Entre os pontos que ele cita está o limite ao rendimento pago a quem só guarda stablecoins, um dos trechos que opôs bancos e emissores durante meses de negociação. Ele sustenta que nenhuma lei tira a política da regulação, e que o texto que cria direitos também fixa restrições. Sem o projeto, disse, as restrições desapareceram e o que sobrou foram as orientações dos reguladores, que ele considera melhores do que o acordo que saiu do Senado.

O calendário sustenta parte do argumento. Dois dias depois da votação, a SEC liberou a negociação de ações tokenizadas por uma dispensa temporária com prazo de cinco anos, e a estrutura que liquida os títulos americanos passou a se preparar para rodar em blockchain.

Na entrevista, Saylor disse esperar que a SEC, a CFTC e o Tesouro avancem com regras usando a autoridade que já têm, que os bancos ampliem a custódia de bitcoin e o empréstimo com a moeda como garantia, e que mais capital migre para bitcoin e para produtos de crédito ligados a ele. Na visão dele, o bitcoin não depende de nenhuma lei para seguir, porque o que o sustenta é a demanda de quem quer guardá-lo.

O que só o Congresso resolve

Nem tudo que o projeto faria cabe em uma agência. Três pontos centrais dependem de lei, e é nessa parte que a conta do setor segue parada no Senado.

O licenciamento federal de corretoras e intermediários que operam à vista não existe sem lei, porque o poder da CFTC nesse mercado alcança a punição de fraudes, sem chegar à exigência de registro e de capital para quem opera nele. A prioridade dos clientes sobre o patrimônio de uma plataforma que quebra depende de mudança no código de falências, e a classificação dessas empresas como instituições financeiras para o combate à lavagem de dinheiro também precisa passar pelo Congresso.

O histórico recente mostra o caminho. Em junho de 2025, a SEC retirou 14 propostas de regra que seguiam na agenda. Em setembro de 2026, propôs revogar uma norma sobre contribuições políticas em vigor desde 2010.

Quem fala tem posição no mercado

Saylor não fala como observador. A Strategy é a maior detentora corporativa de bitcoin do mundo, com 848.250 moedas em carteira até 11 de outubro, o equivalente a cerca de 4% de tudo que vai existir. O custo acumulado dessas compras chega a US$ 64 bilhões, com preço médio perto de US$ 75,4 mil por moeda. A última aquisição conhecida somou 250 bitcoins, pagos com US$ 21,5 milhões levantados na venda de ações.

O argumento também não é improvisado. Saylor já havia defendido a mesma tese por escrito, em um texto publicado depois da votação.

Ele repetiu ainda a previsão de que o bitcoin volta a passar de US$ 100 mil, com crescimento de 20% a 30% ao ano nos próximos anos. O fundo do ciclo, segundo ele, ficou logo abaixo de US$ 60 mil, e o mercado já começou a subir a partir dali.

O dado mais próximo disso é de 1º de julho, quando o bitcoin tocou US$ 58.566, o menor preço do ano e o ponto que ele trata como fundo do ciclo.

Desde a votação de 15 de setembro, o bitcoin saiu de cerca de US$ 78 mil para perto de US$ 82 mil nesta quarta-feira, e segue cerca de 35% abaixo do recorde de US$ 126.080, de 6 de outubro de 2025.

Sobre o risco de tudo mudar depois da eleição de meio de mandato, marcada para 3 de novembro, ou com outra administração em 2028, ele disse que a defesa do setor não está no texto de uma lei. Um produto com usuários suficientes, afirmou, fica caro de tirar de circulação, independentemente de quem governe.

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