Análises

Short squeeze queima US$ 2,99 bilhões em posições vendidas

O mercado de derivativos viu hoje um banho de sangue nas posições vendidas. Segundo a CoinGlass, as liquidações globais de cripto somaram US$ 2,99 bilhões nas últimas 24 horas, com 174.846 traders sendo eliminados das suas posições. Foi o maior evento desse tipo em semanas e o número representa um salto de mais de 1400% sobre o dia anterior, quando o mercado mal registrava movimento.

O lado vendido levou a pior

O número espanta por si só.

Dos US$ 2,99 bilhões liquidados, US$ 2,74 bilhões eram posições vendidas, os chamados shorts. Apenas US$ 249 milhões vieram de comprados. Quem apostava que o preço cairia foi quem pagou o pato, e pagou caro, porque o tamanho do lado vendido era onze vezes o do comprado. A conta não fecha a favor de quem vendeu. Onze contra um no lado errado da mesa.

Esse desequilíbrio é a assinatura clássica de um short squeeze. O bitcoin começou o período rondando os US$ 64,5 mil, recuou um pouco e então disparou. Segundo a CoinGecko, a moeda fechou a janela de 24 horas com alta de 7,23%, negociando a US$ 69,3 mil. Quem estava vendido ali foi pego de surpresa e obrigado a cobrir a posição comprando no mercado, o que empurrou o preço ainda mais para cima e arrastou os que vieram depois na mesma direção errada.

A ether foi ainda mais longe e virou o epicentro do estrago.

A segunda maior cripto subiu 17,42% no período, para US$ 2.249. No gráfico de calor da CoinGlass, foi a moeda com maior volume de liquidação, à frente do próprio bitcoin.

O número da ether chama atenção porque ela já vinha de uma semana frágil.

O resto do pelotão veio atrás, mas na mesma direção. XRP e solana fecharam com ganhos de 9,74% e 10,87%, e todos esmagaram o lado vendido que entrou confiante na queda.

O bitcoin foi o menor da fila.

O bitcoin subiu 7% no período, mas foi a ether quem rachou o livro e queimou mais gente no calor. Foi a ether, não o bitcoin, a moeda que mais estourou posições vendidas no gráfico.

O heatmap mostra a muralha quebrada

Heatmap de liquidações da CoinGlass mostrando a muralha de ordens vendidas em US$ 64,5 mil
Fonte: CoinGlass

O gráfico de heatmap de liquidações conta a mesma história de outro ângulo. A faixa mais brilhante, a muralha amarela de ordens pendentes, estava em torno de US$ 64,5 mil, exatamente onde os shorts estavam empilhados. O rali atravessou essa linha e disparou as liquidações em cascata, virando combustível para a própria subida.

A linha de preço subiu devagar, testou e então devorou a faixa.

A muralha amarela era uma armadilha montada sobre a própria certeza dos vendidos.

Depois de testar os US$ 70 mil, o preço deixou para trás uma trilha de ordens de venda destruídas pelo caminho.

Os vendedores que sobreviveram saíram do caminho, mas outros entraram.

Mas o heatmap mostra que o jogo não acabou. Novas concentrações de liquidação de shorts aparecem nos níveis de US$ 72 mil, US$ 75 mil e US$ 78 mil, formando muros que não existiam antes do movimento. Se o rali continuar, cada uma dessas faixas vira um novo alvo, um novo imã onde as posições vendidas recentes podem ser caçadas pela mesma dinâmica que acabou de queimar quase US$ 3 bilhões.

Os muros se reconstroem enquanto o preço sobe.

Onde o dinheiro foi queimado

A distribuição por exchange reforça o quadro de dominância dos comprados. A Binance liderou com US$ 421,89 milhões em liquidações, das quais 93,44% eram shorts, seguida pela Hyperliquid com US$ 264,72 milhões, onde a proporção de vendidos chegou a 99,17%. Gate e Bybit completaram o topo, sempre com o mesmo viés esmagador contra quem apostava na queda, em um cenário em que praticamente não sobrou comprado no lado perdedor.

Houve uma exceção que vale nota no meio dessa unanimidade.

A HTX foi a única grande corretora onde os comprados sofreram mais, com 79,75% das liquidações vindas do lado long. Pode ser ruído de fluxo local ou um book mais equilibrado, mas quebra a hegemonia do dia e lembra que nem todo exchange reagiu da mesma forma à mesma subida de preço.

A maior liquidação única do período foi uma ordem de US$ 48,80 milhões na Hyperliquid, registrada no par de BTC contra USD. Um bloco só desse tamanho diz quanto estava em jogo e o quanto a alavancagem estava esticada antes do movimento começar a acontecer. Não foi um trader pequeno sendo varrido, foi uma posição de alta aposta que estourou de uma vez e puxou o livro atrás de si.

Um único bilhete de 48 milhões. Dá para sentir o estalo.

O open interest total do mercado estava em US$ 126,74 bilhões antes do evento, segundo a CoinGlass, e o volume de 24 horas passou de US$ 322 bilhões. Esse tamanho de book explica por que o squeeze teve força para queimar quase US$ 3 bilhões sem que o preço parecesse ter encontrado teto. Havia munição de sobra no lado comprado para sustentar o domínio que se viu ao longo de toda a sessão.

Um book desse tamanho não perdoa quem entra contra a tendência.

O que fica claro é que o dia foi construído sobre a própria arrogância dos vendidos no mercado de derivativos. Eles se empilharam em US$ 64,5 mil achando que era teto, e o mercado usou o dinheiro deles para financiar a subida que os eliminou. Agora o heatmap aponta os próximos níveis e o tabuleiro mudou de dono. Se o rali seguir, os novos muros em US$ 72 mil e acima vão ditar se o squeeze vira tendência ou se os comprados também vão ser caçados na volta que o preço costuma dar.

Quase US$ 3 bilhões em um dia só. O livro rangeu e cedeu.

Para dimensionar o estrago, vale o ranking histórico da própria CoinGlass. O maior evento de liquidações já registrado foi de US$ 19,16 bilhões, em outubro de 2025, durante o pico da guerra tarifária entre Estados Unidos e China. O de hoje, com US$ 2,99 bilhões, não chega perto desse recorde, mas entra no mesmo grupo raro de dias em que o lado vendido foi obliterado em massa. O detalhe é que eventos acima de US$ 2 bilhões costumam aparecer em topos ou fundos de mercado, quando a alavancagem está esticada e o preço decide a direção de uma vez.

O sinal que fica para quem olha o heatmap é simples. O muro de US$ 64,5 mil foi demolido, e o preço já escreveu os próximos alvos em US$ 72 mil, US$ 75 mil e US$ 78 mil. Enquanto houver shorts novos se empilhando nesses níveis, o rali tem onde se alimentar. Quando essas ordens secarem, o risco vira o contrário, e os comprados que riram hoje podem ser a próxima caçada.

⚠️ Aviso importante

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