Segurança

O Mercado Bitcoin promete cobrir o rombo, e o rombo mudou de nome em um dia

A promessa que o Mercado Bitcoin fez desde a invasão de segunda-feira não vem com data, com forma de pagamento nem com um número que feche. Vem com uma frase. A central de ajuda da corretora afirma, na tarde desta terça-feira, que o cliente não terá perda de ativos por causa do incidente.

É a promessa que 4,5 milhões de clientes queriam ler. O problema é a conta que ela acompanha.

A plataforma está fora do ar desde a madrugada de segunda-feira, quando a corretora suspendeu depósitos e saques. O que sobrou com o invasor depois do saque das carteiras quentes está mapeado no rastro dos tokens.

As duas contas fecham no mesmo total

Na noite de segunda-feira, o comunicado da empresa dizia que cerca de US$ 11 milhões já tinham sido bloqueados e que o valor ainda não bloqueado girava em torno de US$ 38 milhões. Já na tarde desta terça, a mesma central de ajuda passou a tratar como ativos envolvidos um total de cerca de US$ 36,3 milhões, com US$ 12,9 milhões em ativos equivalentes já travados.

Somadas, as duas versões dão o mesmo resultado. 11 mais 38 são 49. 12,9 mais 36,3 são 49,2. O total não mudou. Mudou a palavra que descreve a parcela maior, que passou de "ainda não bloqueado" para "ativos envolvidos". Pelo câmbio oficial desta terça, 5,4935, os US$ 49,2 milhões equivalem a R$ 270 milhões. A parcela ainda solta, de US$ 36,3 milhões, equivale a R$ 199 milhões.

O ritmo do bloqueio aparece na diferença entre as duas versões. Em pouco mais de 15 horas, US$ 1,9 milhão saiu da coluna dos soltos e entrou na dos travados.

O que a empresa respondeu e o que deixou em aberto

A central de ajuda é o documento mais direto que a corretora publicou até agora, e vale pelo que ela responde. Perguntada se os clientes poderão transferir os ativos para uma carteira própria quando a plataforma voltar, a resposta é sim. O texto diz que a empresa respeita a escolha de cada usuário sobre onde guardar os próprios ativos e promete transferências e movimentações normais assim que a retomada for validada.

Perguntada por que os números divergem, a empresa responde que os valores estão sujeitos a atualização por causa da cotação dos ativos. Sobre risco de insolvência, a resposta afasta qualquer paralelo com quebras ou aperto de liquidez no setor e classifica o caso como um incidente pontual de segurança.

Falta o essencial. Não há data para a volta dos saques, não há regra que diga como o cliente será compensado, não há informação sobre a que preço os ativos serão repostos e não há demonstração de que a empresa tenha o dinheiro para cobrir a parte que não for recuperada. Para quem tem saldo preso, a garantia existe no texto e ainda não existe no extrato.

O que sobra para o caixa da empresa

Bloquear não é devolver. O valor travado com apoio de emissores e de empresas de rastreamento fica parado até uma decisão que libere a devolução, e é a corretora que precisa honrar o saldo do cliente no meio do caminho. Dos US$ 49,2 milhões que saíram das carteiras quentes, US$ 12,9 milhões estão travados. Os outros US$ 36,3 milhões saíram do alcance e passam a ser prejuízo da própria empresa, a menos que apareçam em novos bloqueios.

Quem decide a conta é esse número. Uma corretora privada que cobre um rombo desse tamanho precisa tirar o dinheiro do próprio capital, e nenhum documento público mostra quanto ela tem. O Mercado Bitcoin afirma atender 4,5 milhões de clientes. As carteiras frias, segundo a empresa, não foram atingidas, e é isso que sustenta a promessa de que todo mundo recebe de volta. O que a empresa não diz é quanto do capital próprio já está comprometido com a reposição.

Cinco dias antes, outro roubo, bem maior, atingiu a Binance, que prometeu absorver o prejuízo dos clientes e começou a repor os ativos com dinheiro próprio. Duas empresas, o mesmo tipo de promessa, e em nenhum dos dois casos existe um balanço público que permita ao cliente conferir se o dinheiro está lá.

Dois números mudam a leitura daqui para frente. O primeiro é o total bloqueado, que precisa subir bem acima dos US$ 12,9 milhões para reduzir o que sai do caixa da empresa. Falta o segundo, a data de retomada dos saques, que ainda não existe e que é a única coisa que devolve ao cliente o controle do próprio saldo. Enquanto os dois não aparecem, a garantia do Mercado Bitcoin é uma frase bem escrita em uma página de ajuda.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

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