Vitalik vê a IA ameaçar a defesa criada contra o quântico, e Hoskinson contesta
O cofundador da Ethereum, Vitalik Buterin, publicou na quarta-feira um alerta sobre uma frente de risco nova para a criptografia. Na avaliação dele, os avanços da matemática feitos com ajuda de inteligência artificial podem atingir não apenas a assinatura que as carteiras usam hoje, mas também os sistemas escolhidos justamente para resistir ao computador quântico. No mesmo dia, o pesquisador da Ethereum Justin Drake defendeu preparação acelerada para esse risco, e na quinta-feira o fundador da Cardano, Charles Hoskinson, contestou a leitura.
O ponto de partida foi divulgado pela OpenAI em 6 de outubro. São resultados de matemática de um modelo interno dela, com provas formalizadas no assistente Lean. Nenhum deles ataca a criptografia, e nenhum dos dois falou em chave quebrada até aqui.
O que o aviso diz
Buterin apontou onde acredita estar a maior novidade, nas construções baseadas em retículos, estruturas matemáticas escolhidas para resistir ao computador quântico. Entre elas estão o ML-DSA, padrão de assinatura pós-quântica publicado em 2024 pelo NIST, instituto de padrões dos Estados Unidos, e o FHE, técnica que permite processar dados sem descriptografá-los.
Na leitura dele, a segurança prática dos retículos pode sofrer abalos sérios no horizonte de dois anos de avanço matemático puxado por IA. O raciocínio parte do caso do RSA, cujas chaves foram crescendo ao longo de décadas porque as melhores formas de atacá-lo apareceram aos poucos. A pergunta dele é se existem atalhos parecidos ainda não descobertos por pessoas, mas ao alcance das máquinas.
O aviso também alcança a assinatura usada hoje. Segundo ele, o ECDSA pode ceder antes do prazo que o setor projetava. O risco aumenta quando a chave pública fica exposta na rede, o que ocorre quando um endereço faz a primeira transação. Por isso a orientação de guardar fundos em endereços sem nenhuma transação registrada.
A saída que ele propõe é dar preferência a assinaturas de hash onde isso for viável. Lembra que, há um ano, a Ethereum traçou um roteiro nessa direção, sem retículos, sem ML-DSA e sem Falcon, com assinaturas em WOTS ou SPHINCS+. O problema maior, escreveu, está na criptografia de chave pública, que sustenta sites, aplicativos de mensagem, redes de anonimato e serviços de VPN e não funciona só com funções de hash.
Para quem tem cripto, o conselho prático foi outro. Ele disse para ninguém correr para trocar de carteira, porque migração malfeita é um risco imediato maior do que qualquer quebra demonstrada. Contou que erros de migração já lhe custaram mais dinheiro do que todos os roubos que sofreu juntos. Para carteiras com vários assinantes, recomendou confirmar as assinaturas fora da rede, para que as chaves dos participantes não apareçam em público.
No dia seguinte, ele corrigiu um ponto. Em carteira com vários assinantes, o ideal é que cada um troque a própria chave depois de cada operação. Manteve a recomendação de reunir assinaturas fora da rede e repetiu o pedido de calma, já que uma atualização malfeita é uma forma fácil de perder fundos.
A discordância
Charles Hoskinson, que fundou a Cardano e é uma das vozes críticas às escolhas da Ethereum, respondeu em 9 de outubro que não há resultado demonstrado capaz de atingir os problemas matemáticos que sustentam os padrões pós-quânticos. Lembrou que o tema é estudado há mais de quarenta anos e que os ataques já catalogados foram levados em conta no dimensionamento do ML-KEM e do ML-DSA, publicados em 2024.
Também questionou se as construções de hash merecem mais confiança, e mencionou trabalhos que descrevem ataques algébricos contra o Poseidon, uma das funções de hash usadas no ecossistema da Ethereum. Alertou ainda que abandonar a pesquisa com retículos reduz as opções de quem trabalha com privacidade e comunicação segura, que dependem das construções com estrutura.
A diferença entre os dois está no que cada família de criptografia resolve. As assinaturas de hash cobrem a autorização das transações. Os retículos também servem para cifrar dados, o que interessa a quem precisa de mensagens privadas.
O que continua de pé
Nada disso muda o que existe hoje. Nenhum dos dois lados apresentou quebra do ECDSA, e a OpenAI não descreveu ataque algum à criptografia. O horizonte de dois anos é uma estimativa de risco feita por Buterin, não um prazo anunciado por laboratório ou por órgão regulador.
Buterin resumiu a aposta em uma conta. Se a IA produzir em dois anos o que a matemática levaria cinquenta para produzir, esse pacote pode trazer um atalho contra os retículos. Nesse caso, as chaves do setor teriam de ficar dez vezes maiores para manter o mesmo grau de segurança.
O mercado não acompanhou o tom do alerta. O ethereum vale US$ 2.505, com 0,62% de alta nas últimas 24 horas, e o bitcoin negocia a US$ 82.978.
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