Macro

O M2 americano voltou a crescer e pode dar novo impulso ao Bitcoin

A oferta monetária dos Estados Unidos voltou a crescer e alcançou um patamar inédito.

Em julho, o M2, medida que soma o dinheiro em circulação, os depósitos à vista e as aplicações de curto prazo, chegou a US$ 23,218 trilhões, recorde nominal de toda a série histórica. O número importa para quem acompanha o Bitcoin porque a liquidez é um dos combustíveis mais estudados do preço do ativo, em um mercado que historicamente reagiu à oferta de dinheiro com atraso e intensidade. Foi uma recuperação lenta, mas consistente, que pôs fim a anos de contração e deu novo tom ao ambiente de liquidez no sistema financeiro.

Entre o piso registrado em outubro de 2023 e o nível atual, o M2 americano acumulou alta de cerca de 12%. Nos últimos doze meses, o avanço foi de 5,4%, saindo de US$ 22,025 trilhões para o recorde de julho, com um salto mensal de 1,13% em maio, o maior do período recente e que ajudou a consolidar a virada na oferta de dinheiro.

A direção mudou desde o fim da contração do Federal Reserve.

Enquanto a liquidez voltava a se expandir, o Bitcoin percorreu o caminho oposto. O ativo caiu de uma máxima de aproximadamente US$ 124,7 mil em outubro de 2025 para uma mínima de US$ 58,5 mil em julho de 2026. Agora o BTC é negociado perto de US$ 78 mil, ainda distante do topo, e com os juros reais condicionando o apetite por ativos de risco.

A divergência entre o dinheiro disponível e o preço do ativo abriu uma brecha que analistas de liquidez passaram a medir com cuidado.

Gráfico M2 americano x Bitcoin (2020-2026)
M2 Money Stock vs Bitcoin (2020–2026). Fonte: FRED + CoinGecko. Gráfico: Labonews.

O dinheiro disponível e o preço do Bitcoin divergiram

A CF Benchmarks, empresa que calcula índices de criptoativos, estima que o preço justo sugerido pelo comportamento histórico do M2 está na casa de US$ 136 mil. O mercado, ao fim de 2025, estava perto de US$ 74 mil, o que deixava o ativo negociado cerca de 46% abaixo desse referencial, uma das maiores distâncias já registradas na base da companhia. O dado aponta que boa parte da queda recente não foi explicada por falta de dinheiro no sistema, mas por outros fatores que agora começam a se afrouxar.

O Bitcoin passou a negociar abaixo do que a liquidez historicamente sustenta.

A correlação entre o M2 americano e o preço do Bitcoin é antiga e mensurável. Na maior parte da última década, a correlação de quatro anos entre as duas séries oscilou entre 0,4 e 0,6, o que indica uma relação relevante, ainda que imperfeita. Em momentos de contração monetária, como em 2022, essa ligação se mostrou ainda mais clara e explicou boa parte da queda do ativo.

Dois fatores estruturais sustentam o cenário atual.

Por que a liquidez sustenta um cenário favorável

O primeiro é a própria expansão do M2. O segundo é o fim do programa de aperto quantitativo do Federal Reserve, que drenava dólares do sistema e terminou em dezembro de 2025, quando o banco central passou a reinvestir os títulos que vencem em papéis de curto prazo. Essa reposição de liquidez tende a beneficiar ativos sensíveis ao ciclo do dinheiro.

Há ainda o dado global. A soma do M2 das principais economias, incluindo Estados Unidos, China, zona do euro e Japão, estava em cerca de US$ 103 trilhões no fim de junho, em um ambiente em que os juros reais seguem definindo o apetite por risco.

A leitura favorável não é automática.

As condições para o impulso se confirmar

O M2 explica a tendência de longo prazo, mas não determina a data de cada movimento. Em 2022, a expansão de liquidez não impediu quedas relevantes, porque o mercado precificava juros altos e risco elevado.

A recuperação recente do preço ainda é tratada com reserva por parte dos analistas. O Bitcoin saiu da mínima de julho e subiu de forma expressiva, mas o movimento precisa se sustentar em um ambiente de juros favorável e de maior confiança no crescimento global. Sem essa combinação, a brecha em relação ao valor justo pode demorar mais para se fechar.

O ponto central é a direção, mais do que a velocidade.

O M2 americano voltou a subir, o aperto terminou e o dinheiro voltou a entrar no sistema. O preço do Bitcoin ainda não acompanhou essa mudança no mesmo ritmo, e a distância entre o valor atual e o implícito na liquidez é a maior dos últimos anos.

Se o histórico servir de guia, essa lacuna tende a convergir para o lado da liquidez nos próximos trimestres, ainda que o realismo cobrado pelo mercado mantenha os pés no chão. Nenhum movimento é garantido, mas o conjunto forma um cenário favorável. A inflação segue sendo a variável que amarra a política monetária, e o espaço do Federal Reserve para novas reduções de juros depende de quanto os preços ao consumidor cedem. Com o M2 americano em recorde e o ativo ainda abaixo do seu valor de liquidez, a estrutura atual dá ao Bitcoin mais margem de alta do que de queda, sem prejuízo dos riscos de curto prazo.

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