O bitcoin parado vira garantia de empréstimo na aposta da RootstockLabs
Um relatório publicado nesta quinta-feira pela RootstockLabs, empresa que desenvolve infraestrutura para aplicações financeiras sobre o bitcoin, defende que a próxima leva de demanda institucional pela moeda pode vir do estoque que já está guardado. Bancos, fundos e empresas passariam a emprestar bitcoin, usá-lo como garantia de crédito e montar operações de rendimento em cima das moedas que hoje ficam paradas em cofres.
O ponto de partida do estudo é uma conta simples. Empresas, fundos negociados em bolsa e governos chegam a 3,9 milhões de bitcoins, o equivalente a 18,6% de todas as moedas que vão existir. Desse estoque, só 1,5% está emprestado ou aplicado em finanças nativas do bitcoin. No ether, a fatia em finanças descentralizadas passa de 15%. Em ações, o empréstimo de papéis movimenta entre 5% e 7% do mercado.
O caminho que o ouro abriu
A comparação que sustenta o texto é com o ouro. O metal não vive só de reserva de valor. Joias e componentes eletrônicos puxam perto de 43% do consumo anual do metal, uma procura que se renova todo ano sem acompanhar a cotação do dia. O bitcoin, na avaliação da RootstockLabs, ainda não tem uma segunda fonte desse tipo. A especulação cumpriu esse papel durante mais de dez anos e perdeu força com a concorrência de outros ativos, o que deixou o preço mais exposto à alavancagem dos derivativos.
Uma das frentes que o estudo propõe é combinar bitcoin e dívidas em dólar no mesmo balanço. A ideia é manter as moedas no ativo e financiar a operação com passivos em moeda fiduciária. Quando a valorização do bitcoin supera o juro pago no financiamento, a diferença fica com o tomador. A RootstockLabs calcula em US$ 560 trilhões o conjunto de hipotecas, dívida soberana, dívida corporativa, seguros e financiamento de infraestrutura que poderia carregar esse tipo de estrutura. Uma fatia de 0,1% desse total equivaleria a US$ 560 bilhões em financiamento atrelado ao bitcoin.
O empréstimo que já saiu do papel
A tese já tem caso concreto. A mineradora MARA, uma das maiores detentoras públicas de bitcoin, levantou US$ 600 milhões em agosto usando 18.750 moedas como garantia, avaliadas em US$ 1,2 bilhão na data do contrato, conforme o balanço trimestral enviado ao regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos. Parte do dinheiro vai para a compra da usina de Long Ridge, em Ohio, onde a empresa pretende ampliar a operação de energia.
Os contratos foram fechados com a Coinbase Credit e a Two Prime Lending. A parcela da Coinbase cobra a taxa básica do Federal Reserve mais 3,875% ao ano. No contrato com a Two Prime, o juro é fixo, de 7,65%, com prazo de dois anos. Com isso, a empresa mantém as moedas e paga a conta com a receita da operação, sem precisar vender parte da reserva para bancar a obra.
Na conta do relatório, se 5% do estoque institucional rendesse 5% ao ano, o setor distribuiria 9.750 bitcoins por ano. Com o estoque institucional dobrado, a conta chegaria a 19.500. O próprio estudo ressalva que a conta mede renda produzida dentro da economia do bitcoin e redistribuída entre os detentores. Nenhuma moeda nova entra em circulação.
O que pode dar errado
Quem assina o relatório é Tony Dicarlo, que responde pelos produtos estruturados na RootstockLabs. Ele reconhece os riscos da financeirização. Na lista entram reserva fracionária, rehipotecação e excesso de alavancagem como problemas comuns a qualquer ativo escasso. A defesa dele é que o bitcoin oferece garantias que outros ativos não dão, porque o colateral pode ser conferido na rede, o contrato executa a liquidação sozinho e o volume de moedas disponível para lastro não cresce.
Inadimplência do tomador, falha de custódia e dificuldade de cobrança na Justiça seguem na lista de preocupações dele, junto com a volatilidade, que amplia o risco das posições alavancadas. O estudo também aponta que poucos custodiantes podem acabar concentrando a maior parte das moedas em circulação. Quem compra cota de um ETF de bitcoin fica com uma participação no fundo, enquanto as moedas seguem no custodiante, o que devolve ao setor o risco de intermediário que a própria moeda foi criada para contornar.
O crédito em cripto também começa a ganhar régua de risco. A agência de classificação de risco S&P Global prepara um método para medir os cofres de empréstimo em blockchain, que chegaram a US$ 10 bilhões depositados.
O mercado já formou preço para esse tipo de risco. Em fevereiro, uma securitização de US$ 188 milhões lastreada em empréstimos com bitcoin recebeu nota de grau de investimento para as cotas seniores e teve demanda duas vezes maior do que a oferta. Diante do estoque parado em cofres institucionais, o volume parece pequeno. A RootstockLabs trata essa diferença como o mercado que ainda falta montar.
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