IA e Tecnologia

A IA encheu os servidores da Intel e derrubou a ação em 30% pelo PC

A ação da Intel abriu esta sexta-feira em queda de cerca de 30%, de US$ 92,07 no fechamento de quinta para perto de US$ 66, e apagou mais de US$ 125 bilhões em valor de mercado nos primeiros minutos de pregão. O trimestre que a empresa apresentou na véspera foi bom. A receita de data center e inteligência artificial subiu 78%, para US$ 7,3 bilhões, o melhor crescimento do segmento em 15 anos, e o lucro por ação ajustado ficou em US$ 0,52, contra os cerca de US$ 0,40 esperados. O que derrubou o papel foi a projeção para o trimestre atual.

Para o quarto trimestre, a Intel projetou receita de US$ 15 bilhões a US$ 16 bilhões, abaixo da previsão de cerca de US$ 17 bilhões dos analistas, e lucro por ação ajustado de US$ 0,25, contra US$ 0,43. A margem bruta projetada cai para 38%, de 43% no trimestre encerrado em setembro. Se o tombo se mantiver até o fim do pregão, será a pior sessão da empresa desde julho de 1974.

A conta chegou pela memória

A pressão veio da memória. Os fabricantes do componente passaram a dedicar capacidade aos chips de alta largura de banda que os data centers compram, e o que sobra para notebook e computador de mesa ficou mais caro e mais escasso. Com o componente pesando no custo de fabricação, quem monta máquina repassa o preço e vende menos. A Apple já elevou o valor de alguns Macs e iPads pelo mesmo motivo.

Para a Intel, esse é o pior lugar possível para um aperto. Os chips de PC responderam por cerca de metade da receita do terceiro trimestre, e a área que os vende faturou US$ 8,1 bilhões, 5% menos que um ano antes e abaixo dos US$ 8,8 bilhões esperados. Para o trimestre atual, a empresa projeta queda de mais de 20% na comparação com o anterior. A previsão é que o mercado de PC encolha 12% neste ano e outros 10% em 2027, com o pior momento no primeiro semestre do ano que vem.

O diretor financeiro, David Zinsner, disse que o aperto se intensificou no fim do terceiro trimestre e mudou o padrão de compra dos clientes. Ele afirmou também que a empresa não espera caixa livre positivo neste ano e que o investimento de capital, de cerca de US$ 20 bilhões em 2026, sobe de forma acentuada em 2027.

A explosão em Israel entrou na mesma conta

No começo deste mês, uma explosão na fábrica de Kiryat Gat, em Israel, matou dois funcionários e feriu gravemente um terceiro. O incidente provocou uma parada longa na linha, afetou o envio de chips de 10 nanômetros e deve custar cerca de US$ 300 milhões em receita no quarto trimestre, com impacto parecido no primeiro trimestre de 2027. A margem bruta cai cerca de 2 pontos, e a recuperação da fábrica entrou na lista de três gargalos que o presidente executivo, Lip-Bu Tan, levou aos analistas, ao lado do rendimento das fábricas e da falta de substratos orgânicos usados no empacotamento.

Tan disse que a indústria atravessa uma das maiores faltas de componentes da história, causada pela demanda por inteligência artificial, e que o aperto dura até que a oferta e o preço da memória se normalizem. Para o próprio negócio da Intel, essa lógica tem um efeito colateral. Cada servidor vendido a mais consome memória que deixa de ir para o computador de casa.

O mercado cortou o preço antes do fechamento

O Bank of America rebaixou a recomendação de compra para neutra e cortou o preço-alvo de US$ 145 para US$ 100. Já o Bernstein chamou a projeção de terrível, reduziu o alvo de US$ 110 para US$ 75 e escreveu que a empresa demorou a enxergar a piora do PC e segue com capacidade demais para computador de mesa e de menos para servidor. UBS e Wells Fargo cortaram o alvo para US$ 80, e o Barclays, para US$ 75.

O tamanho da queda se explica pelo ponto de partida. A ação quase quadruplicou entre janeiro e o recorde de 22 de junho e ainda subia cerca de 150% no ano antes do balanço. Mesmo com o tombo desta sexta, acumula alta de mais de 80% em 2026, o que significa que devolveu perto de metade do que havia ganhado desde o topo. O governo dos Estados Unidos, que comprou 9,9% da empresa em agosto do ano passado a US$ 20,47 por ação, viu a posição perder cerca de US$ 10 bilhões nesta sexta e segue com o triplo do que pagou.

Fora da Intel, a AMD caía perto de 10% no começo do pregão, a Dell, 13%, a Micron, 5,5%, e a Nvidia, 3%. O Nasdaq recuava mais de 2%. A Amazon, que também apresentou resultado na quinta, mostrou caixa livre negativo de US$ 7,6 bilhões no trimestre, o segundo seguido no vermelho.

Os dois balanços carregam o mesmo assunto, o custo de construir infraestrutura de inteligência artificial, que já vinha tirando das ações de tecnologia a liderança do ano, como mostrou a virada das empresas sem IA dentro do S&P 500.

A Intel vende nos dois mercados que a inteligência artificial está separando. O de servidor cresce, o de computador de casa encolhe, e o preço da ação passou a seguir o segundo.

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