Revolut separa US$ 1 bilhão para a América Latina e cresce no Brasil sem comprar banco
A Revolut vai destinar pelo menos US$ 1 bilhão à América Latina nos próximos anos e quer dobrar a velocidade com que conquista clientes no Brasil. Os executivos apresentaram o plano a jornalistas em São Paulo, na noite de quinta-feira (5), na semana do GP brasileiro de Fórmula 1. O orçamento abrange os cinco países em que a fintech atua ou está prestes a entrar, Brasil, México, Peru, Colômbia e Argentina.
Trata-se de um piso. "Esse não é o valor máximo. É um número com o qual estamos comprometidos por enquanto e que pode crescer à medida que virmos que os mercados precisam de mais", disse Carlos Urrutia, gerente-geral de expansão internacional. O destino do dinheiro é reavaliado a cada três meses, segundo Glauber Mota, que comanda a operação brasileira. Os recursos serão aplicados ao longo de vários anos e ainda não foram divididos por produto.
A meta para 2027 é que a América Latina e os Estados Unidos respondam, juntos, por uma a cada quatro contas novas abertas no mundo. Ignacio Zunzunegui, que cuida do crescimento da empresa nas Américas e no sul da Europa, classificou o salto como quase duas vezes a velocidade do ano passado e quatro vezes a de dois anos atrás.
Os números de 2025 dão lastro ao plano. A receita do grupo chegou a US$ 6 bilhões, alta de 46%, e o lucro antes de impostos subiu 57%, para US$ 2,3 bilhões, conforme o relatório anual publicado em março. Eram 68,3 milhões de clientes de varejo no fim do ano, em mais de 40 países, com meta declarada de 100 milhões de clientes em 100 países. Na mesma semana do anúncio, uma venda secundária de ações avaliou a Revolut em US$ 115 bilhões, 53% acima da rodada de novembro de 2025. Os executivos dizem que o caixa atual financia a expansão sem precisar abrir o capital agora.
Por que não há aquisição no Brasil
A expansão brasileira não deve passar por uma compra. Urrutia afirmou que não há nada ativo neste momento em negociações de aquisição no Brasil e que a licença bancária local deve sair por processo próprio, direto no Banco Central. Na Argentina, a entrada veio pela compra da filial local da Cetelem, financeira de origem francesa.
A operação brasileira existe desde 2023 como sociedade de crédito direto, sem licença de banco. São cerca de 120 funcionários na instituição financeira regulada e outros 140 na empresa de tecnologia, estrutura que também atende operações do grupo em outros países. Segundo a empresa, nenhuma outra praça latino-americana tem estrutura do mesmo tamanho, e o Brasil figura entre as três operações que crescem mais rápido no grupo.
Mota disse que a decisão sobre a licença completa é retomada de três em três meses. "Se eu fizer isso cedo demais, podemos perder algo. Se fizer tarde demais, há custo de oportunidade", afirmou. Na avaliação dele, a licença serviria para otimizar o balanço quando a carteira de crédito ganhar escala.
Onde o bilhão deve aparecer
Boa parte do dinheiro vai para expansão e crescimento, e a fatia visível é publicidade. A Revolut prepara campanhas em aeroportos, estuda contratar embaixadores locais e pretende instalar máquinas que imprimem cartões na hora, para quem está de passagem, sem data definida. "Não há nada mais global do que estar presente em aeroportos", disse Mota.
Na Fórmula 1, a fintech patrocina a Audi, equipe do piloto paulista Gabriel Bortoleto, que corre em casa neste fim de semana. No portfólio brasileiro, o plano Ultra, que acumula milhas e outros benefícios, é o que cresce mais rápido em número de usuários.
O alvo é um consumidor que já divide a vida financeira. Na conta da própria Revolut, o brasileiro médio usa 6,3 aplicativos financeiros, número que a empresa lê como sinal de que há espaço para concorrentes.
O crédito segue pequeno de propósito
Para cada US$ 100 que os clientes mantêm na plataforma, a Revolut empresta de US$ 3 a US$ 4. A proporção entre crédito e depósito fica entre 3% e 4%. Para crescer nesse terreno, a empresa avalia securitização, a venda de carteiras de crédito a investidores, que tira o risco do balanço.
Na descrição de Mota, o fundador Nikolay Storonsky trata o crédito como ganho adicional, sem virar a base do negócio, ao contrário de outras fintechs da região. No relatório de 2025, as maiores linhas de receita do grupo foram cartões e juros, com US$ 1,3 bilhão cada, seguidas por assinaturas, US$ 936 milhões, e câmbio, US$ 800 milhões.
A cripto saiu antes do anúncio
Enquanto o plano de expansão era fechado, a operação de cripto no Brasil já estava sendo encerrada. Em 21 de outubro, a Revolut desativou a compra de bitcoin e de outros criptoativos, além das transferências entre clientes, deixando as contas apenas no modo de venda. Até 24 de novembro, o cliente pode vender por conta própria. No dia 25, o que sobrar será vendido pela própria empresa, pelo preço de mercado do momento, e o valor cairá em dólar na conta internacional.
O encerramento desfaz o plano que a fintech apresentou em setembro, quando avisou os clientes de que migraria as contas para uma SPSAV, a sociedade que o Banco Central passou a exigir de quem intermedia criptoativos no país. A migração não aconteceu. Na central de ajuda, a empresa atribui a decisão ao aperto regulatório dos últimos meses. O e-mail enviado a clientes fala em encerramento definitivo das contas brasileiras, enquanto uma nota à imprensa trata o movimento como pausa temporária.
A regra que motivou a saída é o pacote de resoluções do Banco Central editado em novembro de 2025, que criou a exigência de autorização para quem intermedeia criptoativos no país. Empresas que já operavam tinham até 30 de outubro para protocolar o pedido. Nove plataformas anunciaram o fim ou a redução do varejo antes desse prazo, como o LaboNews mostrou em outubro.
O México mostra o tamanho da licença que falta
No México, a operação começou em janeiro, já como banco licenciado, com 200 mil pessoas na fila de espera. O primeiro milhão de clientes veio oito meses depois. Na Colômbia, a licença bancária já saiu e a operação passa pelos últimos testes. No Peru, recebeu o aval inicial e ainda passa por auditoria. Em 2027, a operação argentina começa a receber clientes.
Fora dos cinco países prioritários, o Chile é o mercado que mais interessa à empresa na região, sem prazo definido. "Não podemos dar prazos para o Chile. É mais uma questão de quando do que de se", afirmou Urrutia.
Nenhum dado público permite saber quantos clientes a Revolut tem hoje no Brasil, o número que a meta de dobrar a captação quer multiplicar. São duas companhias locais, uma instituição financeira regulada e uma empresa de tecnologia, com cerca de 260 funcionários somadas, e uma estrutura que presta serviços compartilhados a outros países do grupo.
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