Alavancagem caiu 14,3% e o bitcoin recuou 2,3% na mesma janela
O bitcoin fechou a sexta-feira perto de US$ 84 mil, preso a uma faixa estreita entre US$ 83 mil e US$ 85 mil, depois de tocar cerca de US$ 87 mil no topo da semana. No gráfico à vista a semana parece uma correção comportada. No livro de derivativos o movimento foi de outra ordem, e bem maior do que a queda do preço sugere.
Entre 22 e 25 de setembro, quatro bolsas tiraram US$ 1,7 bilhão de contratos de bitcoin da mesa enquanto o preço andava 2,3% para baixo no mesmo intervalo.
A limpeza de contratos nas quatro maiores bolsas
O open interest somado de Binance, Gate.io, HTX e Bybit saiu de US$ 12 bilhões e foi para US$ 10,3 bilhões, uma contração de 14,3% da exposição alavancada dessas quatro casas em três dias, número grande demais para ser ruído de uma exchange.
A métrica não revela se quem encerra estava comprado ou vendido, porque o contrato desaparece do livro dos dois lados. O que ela mede bem é a escala do recuo, e essa escala foi muito maior que a queda do preço. É um dado sobre posição, não sobre direção, e por isso costuma ser lido errado nas leituras rápidas de mercado.
O título de dez anos no maior patamar desde 2007
A explicação do outro lado está nos juros. O título de dez anos dos Estados Unidos chegou a 5,22% de rendimento na máxima da semana, o maior valor desde 2007, e o de 30 anos tocou 5,5185%, recorde de 22 anos.
O Federal Reserve elevou a faixa de juros em 0,25% na semana anterior, e a alta dos juros longos veio sobre um aperto que já vinha em curso.
O Tesouro leiloou US$ 44 bilhões em títulos de sete anos a 5,085%, contra 4,512% em agosto, e não se via um leilão desse prazo tão caro desde abril de 1993. A cobertura, que estava em 2,50, cedeu para 2,42.
Do lado da atividade, a leitura preliminar do índice de atividade de setembro subiu para 58,4 contra 56,0 em agosto, a melhor marca desde julho de 2021. O número de funcionários nas empresas cresceu num ritmo que não se via havia mais de quatro anos, e o custo dos insumos se aproximou de uma máxima de quatro anos.
A assimetria do papel de dez anos pesa sobre quem carrega bitcoin. Um recuo de 0,10 no rendimento produziria retorno de 11,9%, enquanto uma alta para 6% custaria cerca de 1,9%. O dinheiro em títulos continua pagando ao lado de um ativo que não paga cupom nem dividendo, e a comparação muda de figura. Vira custo de oportunidade de manter capital exposto à volatilidade, que é exatamente o que o bitcoin cobra de quem fica fora dos títulos.
O que a desalavancagem deixa no mercado
Menos contratos abertos significa menos munição para cascata de liquidações, e o preço passa a depender mais de compra à vista e de capital novo.
Retirar 14,3% da exposição em três dias muda a forma como o mercado se move. Cada posição fechada é uma posição que não precisa ser liquidada adiante, e a sustentação do preço passa a depender do que entra de novo na mesa, seja compra à vista, seja capital novo, com a aposta em alavancagem ficando para trás.
O mercado de opções não está cobrando risco. A volatilidade implícita para trinta dias segue perto da ponta inferior da faixa recente, com bolsões de liquidez entre US$ 85,3 mil e US$ 85,7 mil acima do à vista.
A Gate.io perdeu cerca de US$ 710 milhões de contratos abertos e a Binance US$ 680 milhões. HTX e Bybit também registraram recuo. O padrão em quatro casas mostra que a limpeza não foi anomalia de uma plataforma, e sim uma decisão comum de quem opera posição alavancada nesse intervalo de juros altos.
A maior expiração de opções do ano na Deribit
A Deribit liquidou na sexta-feira um vencimento com cerca de US$ 15,9 bilhões em contratos de bitcoin, o maior do ano na plataforma, e a sessão caiu no mesmo dia da limpeza nos futuros.
O volume equivale a 37% de todo o open interest de BTC da plataforma, que era de US$ 43,5 bilhões. As calls somavam entre US$ 9,4 e US$ 9,6 bilhões e as puts entre US$ 6,4 e US$ 6,5 bilhões, o que deixa o livro da sessão inclinado para cima.
O max pain da sessão aparecia em US$ 75 mil, cerca de US$ 10 mil abaixo do preço à vista, um número que costuma virar manchete sem dizer o que ele de fato mede.
O max pain representa o ponto em que a maior parte das opções vence sem valor para o comprador, e não funciona como previsão. Para o bitcoin chegar lá em dois dias seria preciso perder 12%, o que não aconteceu. Com o vencimento cumprido, as proteções que os participantes usavam para segurar a exposição deixam de existir ou passam para outras datas. Some uma camada de atividade que ajuda a amortecer o movimento do preço, e o mercado passa a depender de fluxo novo para sair da faixa.
As opções que ainda não vencem dão o tom do próximo movimento, e o livro segue com mais calls do que puts, o que deixa o mercado posicionado para cima se a taxa de juros cooperar.
PCE no dia 30 e payroll no dia 2
O índice de preços de gastos com consumo pessoal sai em 30 de setembro, e o payroll de setembro vem no dia 2 de outubro. São os dois números capazes de reposicionar a curva de juros antes do fim do trimestre, e o bitcoin entra neles sem nenhuma proteção.
A taxa de dez anos acima de 5,2% é o teste que falta, e o mercado de títulos sabe disso há anos, porque é nesse patamar que a aversão costuma aparecer.
Uma alta do título de dez anos para além de 5,2% ou da taxa de 30 anos para além de 5,52% diria se a resistência desta semana foi real. Rendimentos em queda aliviariam a pressão depois de uma desalavancagem de dois dígitos em quatro bolsas. O que o mercado passa a procurar com a desalavancagem é menos direção e mais folga para o próximo movimento.
O bitcoin entra no fim de semana com US$ 84 mil, 14,3% menos alavancagem nas quatro bolsas e US$ 15,9 bilhões de opções já liquidadas na Deribit. O PCE de 30 de setembro e o payroll de 2 de outubro vão dizer se a faixa de US$ 83 mil a US$ 85 mil aguenta.
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