Mercado Crypto

BIS aponta erros nas métricas no mercado crypto

Nos últimos trinta dias, o volume bruto de stablecoins registrado em blockchains passou de 6,4 trilhões de dólares. Quando se removem robôs, negociações de alta frequência e movimentações internas de corretoras, essa cifra cai para 313,1 bilhões de dólares.

Essa diferença, exibida pelo painel da Visa alimentado pela Allium Labs, ilustra o que um novo estudo do Bank for International Settlements chama de distorção nas métricas mais usadas para descrever o tamanho do mercado cripto. O trabalho, publicado em setembro pelo departamento monetário do BIS e assinado por Timothy Aerts, Ronald Heijmans, Jan Paulick e Violeta Vuletic, usa dados do projeto Mercurius, mantido pelo banco central holandês em parceria com o próprio BIS. São cerca de 100 bilhões de registros extraídos de Bitcoin, Ethereum e Tron.

A distorção começa na arquitetura do Bitcoin. Cada transação precisa consumir moedas inteiras armazenadas como UTXOs. O troco volta para quem enviou os fundos como uma nova saída, indistinguível de um pagamento real sem o uso de heurísticas.

Numa base de 1,3 bilhão de transações e 3,6 bilhões de saídas desde 2009, os autores separaram o troco das transferências reais e encontraram uma diferença de até seis vezes entre o valor bruto divulgado e o que efetivamente mudou de mãos. O aumento da reutilização de endereços para receber troco desde 2016 é o que dá alguma confiança a esse ajuste.

A capitalização de mercado também infla. Em períodos de alta forte de preço, a métrica convencional chegou a ficar quatro vezes acima da versão que usa o preço da última transação de cada moeda como referência. Somam-se a isso 1,8 milhão de bitcoins parados há mais de quinze anos, tratados como irrecuperáveis e que continuam entrando nos cálculos de oferta sem ressalva.

Ethereum tem o problema inverso

Enquanto o Bitcoin oferece pouca informação por transação, o Ethereum oferece demais. A flexibilidade dos contratos inteligentes permite qualquer lógica de programação, e isso torna quase impossível classificar cada um apenas inspecionando o código.

Dos 67,5 milhões de contratos ativos analisados, 54,2 milhões não se encaixam em nenhum padrão reconhecido. Apenas 11,8 milhões são contratos proxy, que permitem atualizações futuras, e só 1,4 milhão seguem o padrão ERC vinte, usado pelos principais tokens fungíveis e stablecoins.

Entre os contratos que dão para classificar, os nomes confundem. O rótulo uni v2, ligado às pools de liquidez da Uniswap, aparece em quase um terço dos contratos de token identificados. Já o símbolo USDT aparece em quase sete mil contratos que não pertencem à Tether, misturando imitações e possíveis golpes na contagem da stablecoin original.

A mesma moeda, dois comportamentos distintos

O terceiro problema aparece quando um ativo circula em mais de uma blockchain. O estudo comparou o USDT em Ethereum e em Tron e encontrou padrões quase opostos.

Na rede Ethereum, a parcela de USDT guardada por contratos inteligentes já ultrapassou vinte por cento do total em circulação, reflexo do uso como garantia em empréstimos e provisão de liquidez. Em Tron, essa parcela dificilmente passa de um por cento, indicando um uso mais ligado a pagamentos e reserva de valor, distante do ecossistema de finanças descentralizadas.

Juntar o USDT das duas redes numa só cifra, como fazem relatórios de mercado, é misturar comportamentos que têm pouco em comum.

O que o BIS recomenda

Para os autores, ajustes como o da Visa deveriam ser regra, não exceção. A recomendação do estudo é que bancos centrais abandonem indicadores como volume transferido, capitalização de mercado e TVL como números definitivos e passem a trabalhar com faixas de estimativa que tornem transparentes as premissas de cada cálculo.

O recado do grupo é direto sobre o peso desses dados hoje. Indicadores obtidos diretamente da blockchain funcionam como medições ruidosas da atividade econômica, nunca como um retrato preciso dela. O que o estudo realmente coloca em xeque é a tranquilidade com que esses números são repetidos. Enquanto a metodologia não mudar, cada manchete sobre volume recorde de stablecoins ou valor total travado carrega uma margem de erro que quase ninguém divulga.

⚠️ Aviso importante

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