Por que os bitcoins de Satoshi não podem ser desbloqueados na sorte
O debate voltou ao X com força nesta semana, com a promessa de que alguém poderia adivinhar na sorte a chave privada de Satoshi Nakamoto e tomar posse da fortuna do criador do bitcoin. A Arkham Intelligence, plataforma de análise on-chain, atribui ao desenvolvedor original 1,096 milhão de BTC, cerca de US$ 71 bilhões na cotação atual de US$ 64,8 mil. A ideia de obter esse valor apenas acertando uma sequência de 24 palavras soou grande demais para passar despercebida e trouxe de volta um ciclo antigo de especulação.
A conta não fecha em nenhuma das pontas.
O tamanho da conta que desmonta o chute
A barreira começa na matemática. Uma chave de bitcoin tem 256 bits, o que abre um espaço de cerca de 1,16 vezes 10 elevado a 77 combinações possíveis. Um computador capaz de testar 1 trilhão de chaves por segundo levaria 1,8 octodecilhão de anos para encontrar a de Satoshi com 50% de chance, um número de 57 zeros depois do 1. Para comparar, os 13,8 bilhões de anos do universo precisariam ser multiplicados por um fator de 10 elevado a 47 para alcançar esse tempo. Mesmo que a capacidade de cálculo do planeta inteiro fosse somada, a escala continuaria absurda.
O plano esbarra em um obstáculo ainda mais básico, que a maioria dos que repetem a ideia desconhece. Satoshi Nakamoto não usava frases de recuperação. O padrão BIP-39, que transforma chaves em sequências de 24 palavras, só foi definido em 2013, três anos depois de o criador ter desaparecido. Entre 2009 e 2010, as chaves eram números crus de 256 bits, guardados diretamente nos arquivos da carteira.
A fortuna espalhada em 22 mil endereços
Os rastreamentos públicos apontam o acervo do criador dividido entre as mais de 22 mil chaves no formato P2PK, o esquema de chave pública mais antigo do bitcoin. Analistas como Alex Thorn, da Galaxy Digital, e Sani, do Timechainindex, mapearam essas carteiras e documentaram que nenhuma se move desde 2010.
Para um atacante, a operação deixaria de ser um chute e viraria uma campanha longa. Seria preciso quebrar milhares de carteiras individuais, uma a uma, com qualquer movimento aparecendo na blockchain em minutos, visível para qualquer pessoa com acesso a um explorador de blocos. E a dimensão do alvo amplifica o risco, já que a concentração desses bitcoins é tão grande que a movimentação de uma fração poderia desencadear uma reação em cadeia no mercado.
O debate ainda rendeu um alerta prático para quem guarda bitcoin hoje. Adam Back, criador do Hashcash, um dos pilares da prova de trabalho, aproveitou a discussão para lembrar que o risco de segurança pode morar dentro do próprio aparelho. As empresas de hardware wallet, na leitura dele, perseguem modismos de mercado ao empilhar dezenas de redes no mesmo dispositivo, e boa parte dessas redes não carrega nem de longe a blindagem do bitcoin, que inclui recursos como assinatura múltipla e a primitiva Schnorr. O resultado é um produto desenhado para atender o cliente menos exigente em segurança. Os aparelhos que rodam exclusivamente bitcoin, com firmware mínimo e sem conexões extra, escapam dessa armadilha.
A lição vale para qualquer detentor de crypto, e ela é simples. Ninguém vai adivinhar a sua chave.
A segurança de 256 bits está na matemática, e a matemática não cede à pressa. O perigo real da autocustódia mora em outro lugar, na perda do backup, no erro humano, no dispositivo comprometido. Os bitcoins seguem intactos há 16 anos, e o único caminho até eles continua sendo a chave original, que nunca foi entregue a ninguém.
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