Carry de futuros de bitcoin volta a superar o juro dos Treasuries
O carry trade de futuros de bitcoin voltou a pagar mais do que a dívida pública americana, segundo uma checagem com datas sincronizadas. Na leitura de 7 de agosto, o prêmio anualizado do contrato com vencimento mais próximo chegou a 7,89%, contra 4,19% do título do Tesouro de dois anos, o que interrompe uma sequência de 157 dias em que o rendimento do governo venceu o mercado crypto.
A narrativa que circulava até a semana passada era outra.
O analista Marc Baumann resumiu o regime em um fio na rede X. Com o basis anualizado perto de 3% e o Treasury de dois anos em 3,8%, o carry de bitcoin pagou menos do que o governo por 157 dias seguidos, algo que, na leitura dele, só havia acontecido uma vez na história. Na visão que se consolidou no mercado, aquilo era a prova de que a demanda institucional havia secado.
A checagem de 7 de agosto quebra essa leitura.
Usando os preços de liquidação da CME e o benchmark de bitcoin de Nova York às 16h, o prêmio anualizado do contrato de agosto ficou em 7,89%, ou 789 pontos-base. O de setembro marcou 6,25%, e o de dezembro, 5,69%. Na mesma data, o Treasury de dois anos pagava 4,19%, o que coloca até o vencimento mais distante à frente da referência oficial.
O basis é a diferença entre o futuro e o preço à vista.
O mecanismo do carry trade
A operação conhecida como cash-and-carry compra bitcoin no mercado à vista e vende o contrato futuro ao mesmo tempo. O ganho vem da convergência dos dois preços conforme o vencimento se aproxima, sem depender da direção da moeda, e o valor anualizado varia com o contrato e o tempo restante até a liquidação.
Chamar a operação de livre de risco é exagero.
O spread bruto ignora o custo de financiar o lado à vista, a margem exigida pela bolsa, as taxas e a execução das duas pontas. O Banco de Compensações Internacionais documentou o carry de bitcoin da CME acima de 20% em pontos de 2021, com casos em que financiamento, alavancagem e liquidação interromperam a posição antes da convergência.
O dinheiro dos ETFs conta parte da história.
O que os fluxos mostram
Os fundos de bitcoin à vista dos Estados Unidos receberam US$ 853,54 milhões líquidos na semana encerrada em 7 de agosto, com entradas positivas em todas as sessões, a melhor semana desde abril. O número alimenta a tese de que o basis voltou a atrair mesas de arbitragem, que compram o fundo e vendem o futuro para capturar o prêmio.
Mas os dados não ligam uma coisa à outra.
As categorias de posicionamento da CFTC mostram posições agregadas por tipo de participante, sem identificar qual comprador de ETF protegeu a compra com um contrato futuro vendido. O volume de julho também expõe um exagero do fio original, que citou US$ 205 milhões de entrada no mês, quando o total líquido ficou perto de US$ 172 milhões, com 21 de julho respondendo por cerca de US$ 203 milhões sozinho.
O precedente histórico do próprio Baumann tem uma ponta solta.
A única vez anterior em que o carry ficou tanto tempo abaixo do Tesouro foi entre agosto de 2022 e janeiro de 2023, janela que atravessou o colapso da FTX. O bitcoin negociava perto de US$ 15.863 em 9 de novembro de 2022, o que coloca o fundo do ciclo dentro do período, e não no seu fim, algo que enfraquece a ideia de que o fim de uma sequência curta marca um piso.
O basis voltou a pagar, mas o regime não virou de forma simples.
A checagem de uma única data não derruba a tese dos 157 dias, e cada mesa de trading tem seu próprio custo de financiamento. O que ela mostra é que o carry voltou a ser competitivo com o governo no papel, com o bitcoin rondando US$ 64.142 na terça-feira, segundo a CoinGecko, enquanto o Treasury de dois anos segue na casa de 4,25%. Se o spread sobreviver aos custos, as mesas de arbitragem voltam, e com elas o fluxo estrutural para os ETFs. Se não, o regime de 157 dias apenas esperou uma leitura mais generosa para dar o ar da graça.
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