A segunda rede da BNB Chain promete um bloco a cada 0,2 segundo, ainda sem nome nem endereço público
A segunda rede da BNB Chain foi desenhada para 5 blocos por segundo, com um token só e sem ponte pronta. Os documentos que descrevem o projeto, atualizados na quinta-feira, ainda listam o nome como pendente, o identificador de rede como não fechado e o endereço público como inexistente.
Chamada por enquanto de New L1, a rede existe hoje como um ambiente de desenvolvimento fechado, com vários validadores produzindo blocos. A promessa é fechar um bloco a cada 0,2 segundo e, em torno de 20 milissegundos depois do envio, avisar o aplicativo de que a transação deve entrar no bloco. O teste aberto está previsto para o fim de 2026 e a rede principal, para o começo de 2027.
A rede nova não substitui a BSC, que desde 2020 concentra as finanças descentralizadas, as corretoras e os pagamentos do ecossistema. As duas funcionariam lado a lado, com a nova ficando responsável pelo tráfego que exige resposta em fração de segundo, caso de livros de ofertas, negociação de alta frequência e pagamentos em tempo real.
Um token para duas redes
O BNB continua sendo o único ativo das duas. Na rede nova, ele chega pela ponte a partir da BSC, paga taxa e serve de garantia para quem opera validador. O staking emite govBNB na mesma medida do BNB apostado, um registro de voto que não circula e que só ganha peso quando o dono o delega, na própria chave ou na de um validador. As decisões sobre parâmetros da rede passam por esse mecanismo, do rascunho ao período de votação e à fila obrigatória antes da execução.
A escolha evita emissão nova. A oferta segue a que existe hoje, com dois mecanismos de retirada em operação, a fatia das taxas que a BEP-95 manda queimar a cada bloco e o corte trimestral, que em outubro retirou 1,65 milhão de BNB. Na rede nova, a taxa de base fica fixa em zero e o pagamento é a gorjeta, que passa pelo endereço do sistema e chega ao contrato de validadores com a mesma fatia queimada.
O plano também rendeu, no domingo, um comentário de Changpeng Zhao, que fundou a Binance, sobre várias redes e uma moeda só. É o mesmo desenho que a BNB Chain já usa no opBNB e no Greenfield, onde o BNB também paga taxa.
Por que uma segunda rede
Desde janeiro, quando a atualização Fermi entrou no ar, a BSC passou a fechar um bloco a cada 0,45 segundo, e o teto de gás por bloco está em 70 milhões de unidades nesta segunda-feira. Em uma amostra de 100 blocos das últimas horas, a metade usava até 24% desse teto, e o bloco mais cheio ficou em 52%. O aperto que a rede nova promete resolver está no tempo de resposta, porque espaço em bloco sobra.
Nesse ponto, a distância entre as duas é menor do que a manchete sugere. A BSC mede 2,2 blocos por segundo, e a rede nova mede 5. Na confirmação que não volta atrás, as duas ficam perto de meio segundo, com um bloco de atraso na BSC, na medição desta manhã, e dois blocos na rede nova. O ganho que a documentação destaca é outro, o aviso de 20 milissegundos, que chega assinado por um validador e pode ser desfeito, o que obriga aplicativos de transferência irreversível a esperar o fechamento. A rede nova também reserva, a cada bloco, uma fatia do gás para contratos cadastrados que atendem tráfego sensível a atraso, o que impede que uma enxurrada de outra origem ocupe o espaço reservado.
O tráfego que motivou o projeto aparece nos números do trimestre. A negociação de ações tokenizadas na BSC somou US$ 25,6 bilhões entre julho e setembro, quase 11 vezes o trimestre anterior, e a rede processou 1,51 bilhão de transações, segundo o relatório trimestral de detentores de tokens da rede.
A ponte é o elo que ainda não existe
Todo o vínculo econômico entre as duas redes depende de uma peça que está em construção. A ponte entre a BSC e a New L1 está desenhada e não entrou no ar, e o endereço de contrato reservado a ela guarda apenas um marcador de lugar, segundo a própria documentação. Sem ela, não há caminho para o BNB chegar à rede nova, pagar taxa ou virar govBNB.
A ponte também é o ponto que a BNB Chain acabou de reforçar na rede que já funciona. A atualização Pasteur, no ar desde 25 de agosto, fechou uma brecha na validação de blocos da ponte, em que validadores duplicados podiam inflar o poder de voto e passar por cima do limite de assinaturas exigido nas transferências entre redes. Foi uma das três mudanças do pacote, ao lado de ajustes em staking e governança.
O outro componente sensível é a privacidade. A rede nova tem, como recurso opcional, um pool próprio que esconde remetente, destinatário e valor, e a documentação avisa em destaque que os circuitos não passaram por auditoria e que a configuração de confiança usada veio de fora, de outra cerimônia, sem ter sido gerada pelo projeto. A própria documentação pede que ninguém coloque dinheiro real ali.
O que muda para quem constrói
Quem já tem contrato em Solidity não precisa reescrever nada, e as carteiras usuais se conectam do jeito que já conectam na BSC. As diferenças aparecem na hora de enviar a transação. Na rede nova, a conta usa o teto de gás que a transação declara. O consumo real da execução não entra no cálculo, e o que sobra não volta, então a margem de segurança que as ferramentas acrescentam por padrão vira dinheiro perdido.
Não existe fila pública de transações. Cada envio vai direto para o produtor do bloco atual e o do seguinte, então não há fila pendente para observar nem os métodos que liam essa fila. Leituras de estado apontam para o último bloco executado, que pode ficar atrás do último bloco ordenado.
O relógio do contrato pede revisão. Como são 5 blocos por segundo e o carimbo de tempo continua em segundos inteiros, cinco blocos seguidos podem carregar o mesmo horário, e qualquer regra que use o horário como chave única ou limite por bloco deixa de funcionar. A rede aceita até 64 validadores, contra 45 ativos na BSC nesta segunda-feira, e a escolha de quem produz blocos é refeita por eleição de participação uma vez por dia.
O que ainda precisa acontecer
Fora dos documentos, não há data. O teste público está marcado para o fim de 2026 e a rede principal, para o começo de 2027, sem dia definido em nenhum dos dois. Até lá, a rede nova produz blocos em um ambiente que ninguém de fora acessa, e as duas peças que a ligam ao BNB, a ponte e a auditoria do pool privado, seguem pendentes.
Na conta do dia, o intervalo de 0,2 segundo renderia 432 mil blocos por dia, contra os 192 mil que a BSC fecha hoje. O número mede o que o projeto quer entregar. O que existe agora é uma rede sem nome, um identificador que a documentação ainda não fechou e um endereço público que ninguém pode acessar.
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