Macro

A compra de Brasil recomendada pelo BCA durou 20 dias

Em 6 de outubro, dois dias depois de Flávio Bolsonaro vencer o primeiro turno, a BCA Research elevou os títulos brasileiros a sobreponderar e as ações a neutro nas carteiras de mercados emergentes. A aposta era que o Congresso mais conservador saído das urnas daria ao candidato do PL espaço para reformas. Nesta segunda-feira, com Lula reeleito, a consultoria devolveu ações, papéis locais e risco soberano ao peso abaixo do mercado. Foram 20 dias entre uma decisão e a outra.

O Citi fez o movimento no mesmo dia. O banco retirou a recomendação de peso acima dos pares em ações brasileiras e zerou a aposta na valorização do real. A explicação foi curta. O banco reconheceu que os preços podem cair abaixo do que considera justo, porque o mercado estava comprado antes da eleição, e disse que encerrou a exposição ao risco Brasil.

A decisão saiu no dia em que o Ibovespa caiu 13,9%, o circuit breaker parou o pregão e o dólar subiu 8,2%, com o Banco Central leiloando swaps equivalentes a US$ 3,75 bilhões para segurar a moeda. O Tesouro recomprou títulos ao longo do dia, em duas operações que somaram R$ 14,8 bilhões, e o juro de dez anos fechou a 15,59%, no maior nível desde 2016. Esta matéria detalhou o dia no mercado de dívida.

O que a BCA via em 6 de outubro

A tese da consultoria canadense estava apoiada na composição do Congresso, não no candidato. Com o PL chegando a 121 deputados e a 36% do Senado, Flávio teria, na leitura da BCA, a posição mais forte de qualquer presidente desde 1988, o que encurtaria o caminho de reformas no começo do mandato. Os analistas Max Malakhveitchouk, Arthur Budaghyan e Matt Gertken escreveram que privatizações, desregulamentação e incentivos ao investimento privado teriam prioridade sobre corte de gasto, e passaram a recomendar peso maior que o dos pares em papéis locais e em risco soberano.

O próprio relatório trazia a conta que o governo teria de resolver. Com crescimento real médio de 2% e juro real de 5% nos títulos, o Brasil precisaria de um superávit primário recorrente de 2,5% do PIB só para estabilizar a dívida. O resultado primário está em déficit perto de 0,6% do PIB, o que pede um ajuste de aproximadamente três pontos do PIB, magnitude que a consultoria já classificava como politicamente inviável.

O que mudou em 26 de outubro

Com a vitória de Lula, a BCA escreveu que o resultado encerra a chance de um governo ortodoxo, do tipo que mexeria na estrutura das contas públicas e no crescimento do país. O corte veio acompanhado dos motivos práticos. A consultoria citou risco crescente de inadimplência, perspectiva de crescimento mais fraca e pressão de inflação vinda do câmbio, além do avanço da dívida sobre o PIB.

Nos relatórios das casas estrangeiras, o risco fiscal aparece como o ponto de convergência. O que o mercado quer ver agora é quem comandará a economia, o projeto de Orçamento do ano que vem e os primeiros acenos do governo na direção do ajuste. O BTG Pactual calcula que o juro real longo pode ficar acima de 8% enquanto não houver definição sobre as contas públicas.

Nem todo mundo saiu

Nem o Citi saiu inteiro. A equipe de ações do banco manteve a visão construtiva para o médio prazo e listou papéis que devem se comportar melhor no cenário de um governo Lula, entre eles Embraer, WEG, Gerdau, Ultrapar e Copel. A leitura é que a queda levou preços para um ponto em que o risco já está pago, mesmo com a recomendação tática encerrada.

Do lado dos fundos, Rob Citrone, que comanda a Discovery Capital, disse ter aproveitado a desvalorização para comprar mais ações brasileiras. Ele vê a reação como exagerada e trabalha com R$ 5,25 para o dólar e 185 mil pontos para o Ibovespa, patamares que considera justos depois do resultado da eleição.

O mercado desta terça começou a devolver parte do movimento. O dólar recuava cerca de 1% na primeira hora de negociação, depois de tocar R$ 5,336, e o Ibovespa abriu em leve alta. O Tesouro cancelou o leilão de LFT marcado para hoje e anunciou recompra de títulos corrigidos pela inflação com vencimentos entre 2030 e 2045, mais uma rodada de intervenção no mercado de dívida depois das duas recompras de segunda-feira.

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