Blockchain

O programa de financiamento do Zcash recebe 11 vezes o que gasta, e o cofundador quer encerrá-lo

O Zcash Community Grants recebe 8% de cada bloco novo da rede e distribui esse dinheiro em projetos aprovados por um comitê de cinco pessoas. Sean Bowe, cofundador da rede, publicou na segunda-feira um rascunho de proposta que encerra essa fatia e manda o que ela produz para um fundo que só começa a liberar recursos em 2031. O programa tem 91.452,98 ZEC e US$ 8,8 milhões em ativos em dólar, com US$ 2,4 milhões já prometidos a projetos aprovados. Com o ZEC a US$ 1.265 nesta terça-feira, o saldo líquido passa de US$ 122 milhões.

O que esse dinheiro financia é concreto. Em agosto, o programa aprovou US$ 750 mil para o primeiro ano de um escritório de representação em Washington, registrado em outubro com um único nome na ficha de lobby.

O cofre já cobre mais de uma década

O rascunho trabalha com três preços de ZEC, porque o valor do cofre muda com a cotação. A US$ 1.300 por moeda, o que o programa tem menos o que já deve vale US$ 125,3 milhões. A US$ 1.000, US$ 97,8 milhões. A US$ 500, US$ 52,1 milhões. O documento usa US$ 1.300 como referência e chega a 12,5 anos de gastos supondo US$ 10 milhões por ano. Mesmo no cenário mais baixo, a US$ 500, seriam 5,2 anos.

O gasto real é menor que a suposição do documento. A Financial Privacy Foundation, que administra o caixa do programa, reportou US$ 1.530.844 em despesas no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a US$ 6,1 milhões em um ano. Com esse ritmo, o saldo desta terça-feira pagaria mais de 12 anos de atividade sem nenhuma entrada nova.

A entrada é onze vezes o gasto

O rascunho calcula o fluxo a partir das regras atuais da rede. Com o subsídio atual de 1,5625 ZEC por bloco, os 8% rendem 144 ZEC por dia, o equivalente a 52.560 ZEC em um ano. Na cotação desta terça-feira, são US$ 182 mil por dia e US$ 66,5 milhões por ano. O gasto trimestral reportado, anualizado, fica em US$ 6,1 milhões. A proporção é de 10,9 para 1.

A atualização da rede marcada para 5 de novembro muda o relógio dos blocos e mantém a fatia diária praticamente igual, descontado o arredondamento, segundo o que já foi publicado sobre a mudança. O que a proposta de Bowe ataca é o fluxo automático, aquele que entra independentemente de o programa ter ou não o que financiar.

Os dois textos em discussão não dizem a mesma coisa

O rascunho de Bowe faz uma coisa só. Ele encerra a fatia de 8% no momento em que a rede ativar uma mudança de consenso futura e mantém intactos tanto os ativos do programa quanto as normas que definem seu uso. O programa continuaria decidindo o que fazer com o cofre.

O tópico que abriu o debate no fórum da comunidade, escrito por um usuário que assina maxdesalle, vai além. Ele propõe que o programa não aprove nenhum projeto novo depois da mudança, pague os marcos já aprovados e mande o que sobrar do cofre para o mesmo fundo que vai receber a fatia de 8%. A diferença entre os dois textos é justamente o dinheiro que já está guardado.

O argumento de quem quer mexer no modelo está nesse tópico, e é sobre quem decide. O programa é comandado por um comitê de cinco pessoas eleitas por um painel de cerca de 200 membros, o ZCAP, cuja composição é definida pela Zcash Foundation. Segundo o texto, 72 desses membros, ou 36% do painel, já receberam financiamento do próprio programa, e esse grupo responde por cerca de 75% de tudo que já foi pago. Quem paga, os detentores de ZEC diluídos a cada bloco, não vota no comitê.

O mesmo texto cita uma votação de fevereiro deste ano em que os donos de ZEC rejeitaram por 98,6% os ativos blindados, enquanto o painel aprovou a mesma pauta por 70,4%. Em junho, o programa aprovou mais US$ 455 mil para esse trabalho.

Para onde vai o dinheiro que deixa de entrar

O destino é o Network Sustainability Mechanism, um mecanismo que a rede ganha na atualização de novembro e que guarda ZEC fora de circulação para reforçar a recompensa de quem minera no futuro. O valor desviado não é emitido, não vira saldo disponível para ninguém e não amplia a oferta da moeda, que segue no teto de 21 milhões. Ele fica registrado como saldo do fundo até ser liberado em forma de subsídio.

O rascunho trata os 8% como uma fonte de recursos até o terceiro halving, o mesmo prazo da fonte atual. Os 12% que vão para o fundo controlado por detentores de ZEC não mudam. Quem minera também não perde fatia. O que muda, na prática, é que a decisão sobre o uso desse dinheiro sai das mãos de um comitê e passa a seguir as regras fixas do próprio mecanismo.

O que os desenvolvedores respondem

A crítica mais direta no fórum veio de str4d, desenvolvedor que assina parte do código do Zcash. Para ele, desviar a fatia para o mecanismo supera encerrá-la de vez, mas, como a liberação começa em 2031 e todas as fontes atuais terminam antes disso, o efeito por ora é mandar dinheiro para mineradores e tirar do desenvolvimento.

Outro participante, que assina secparam, apontou que o mecanismo cria uma segunda curva de emissão, difícil de explicar, e que a rede teria de conviver com ela. Bowe respondeu que a emissão precisa acontecer de qualquer forma e que o mecanismo já existe, o que faz dele o ponto de menor resistência para depositar o valor, sem decidir agora se os mineradores recebem mais ou menos.

O rascunho está em fase inicial, não define em que altura entra na rede principal ou na de teste e não faz parte da atualização marcada para 5 de novembro. Até uma mudança dessas valer, o programa segue recebendo 144 ZEC por dia. Com o preço desta terça-feira, são US$ 182 mil entrando diariamente em um fundo que gastou US$ 16,8 mil por dia no primeiro trimestre.

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