Stablecoin cresce 77,5% nos pagamentos entre países e bancos mudam de papel
Em dois dias de painéis no Palácio de Cibeles, em Madri, executivos de Santander, BBVA, Visa, Western Union e Deutsche Börse falaram pouco de preço de bitcoin. O assunto foi liquidação, conta de agente, sistema de pagamento. O MERGE Madrid 2026, que termina nesta quinta-feira, virou uma prestação de contas sobre o que os bancos já conseguem fazer com stablecoin.
Os números que circularam no encontro explicam a troca de assunto. No levantamento anual da Chainalysis, a atividade econômica em cripto somou US$ 9,4 trilhões nos doze meses até 30 de junho, 1,6% abaixo do período anterior. O valor de mercado do setor caiu pela metade no mesmo intervalo, perda de US$ 2,1 trilhões.
A stablecoin seguiu por outro caminho. O volume enviado de um país para outro chegou a US$ 220,3 bilhões, alta de 77,5% sobre os US$ 124,2 bilhões do período anterior, como apresentou no palco Jordan Wain, responsável global de políticas da Chainalysis.
A média de US$ 3 mil por transferência diz mais que o total. Esse tamanho não paga uma operação de tesouraria. É o valor de quem acerta com um fornecedor no exterior ou manda dinheiro para casa no fim do mês.
Onde a receita continua
Stijn Vander Straeten, que comanda o braço de ativos digitais da Deutsche Börse, respondeu sem rodeio à pergunta sobre de onde vem o dinheiro. O faturamento dos bancos com ativos digitais segue na oferta de cripto que eles levam ao cliente, disse.
Já o investimento mudou de endereço. Passou a incluir staking, depósitos tokenizados e sistemas de liquidação entre instituições, justamente os produtos que não aparecem na tela do aplicativo do correntista.
Quem emite e quem liquida
Na Visa, Alexandra Soroko mostrou o uso que já funciona, a liquidação de cartão em stablecoin, com obrigações quitadas sete dias por semana. Ela apontou pagamentos comerciais entre empresas e tesouraria corporativa como as próximas frentes. A empresa colocou o USDC no financiamento de pagamentos internacionais neste mês, com cobertura de mais de 180 países.
O mesmo arranjo surgiu na fala dos executivos de Applied Blockchain, N26 e Commerzbank. O banco é descrito ali como a estrutura que deixa o cliente usar stablecoin, papel diferente de guardar uma reserva grande do token no próprio balanço.
A Western Union chegou a Madri com o produto na mão. O USDPT, stablecoin em dólar emitida pelo Anchorage Digital Bank e lançada em maio na Solana, começou a operar na Bolívia e também nas Filipinas. Nos dois países, o dinheiro que entra de fora pesa no orçamento das famílias. A companhia não o apresenta como produto de varejo. O token substitui as contas pré-financiadas que ela mantém para acertar com os agentes, e o prazo de liquidação cai de dias para minutos. A empresa movimenta entre US$ 103 bilhões e US$ 150 bilhões por ano em remessas, em 360 mil pontos de atendimento.
Do lado europeu, o consórcio Qivalis, mencionado pelo site em outra aliança bancária, chegou a 37 bancos de 15 países e recebeu em 14 de outubro licença do banco central holandês para operar como instituição de moeda eletrônica. O token em euro sai sob a MiCA, com lançamento previsto para os próximos meses. A distância a cobrir é grande. As stablecoins em euro somam perto de US$ 823 milhões, contra US$ 302 bilhões das atreladas ao dólar.
O entrave está dentro do banco
Shrutisagar Chandrasekaran, da Fireblocks, apontou o gargalo onde poucos procuram. O problema é de modelo operacional, com pessoas, processos e governança, mais do que de software. Alberto Carlos Alonso Temprado, da Iberpay, defendeu que a blockchain se apoie na estrutura de pagamentos que a Europa já tem. Luis Nacarino, do Santander CIB, cobrou interoperabilidade entre os sistemas de dinheiro digital, para que eles conversem entre si.
A divergência sobre a velocidade ficou explícita no primeiro dia, na Bolsa de Madrid. Coty de Monteverde, do Santander, calcula que a blockchain canalize perto de 2% dos pagamentos internacionais em três anos. Luis Ayala, da BitGo, trabalha com 20% a 30% no mesmo prazo.
A bolsa de valores em blockchain
O anúncio mais concreto do dia veio da Bit2Me. A Comissão Nacional do Mercado de Valores da Espanha autorizou a STX, empresa do grupo, a operar um sistema de negociação e liquidação em registro distribuído, que na prática é uma bolsa para ações e títulos emitidos em blockchain. A plataforma abriu ao público na quarta-feira, com foco inicial em companhias de porte médio. Abel Peña, diretor de vendas da Bit2Me, levou o projeto ao palco.
BBVA e Bullish, na mesma mesa, levantaram a ressalva que acompanha qualquer mercado novo, a liquidez. Sem investidores dispostos a comprar e vender, inclusive nas semanas de queda, o papel tokenizado fica sem preço de referência.
A inteligência artificial também entrou na pauta, com Mastercard, Tether e Cardano Foundation discutindo agentes que pagam por consumidores e empresas. A condição que os três repetiram foi permissão e identidade digital. Sem elas, nenhum agente pode ser autorizado a gastar o dinheiro de outra pessoa.
O MERGE Madrid 2026 termina nesta quinta-feira com painéis dedicados a regulação e a investimento. Estão escalados supervisores da Espanha, de Portugal, da Itália, da Grécia, da Croácia, de Chipre e de Luxemburgo.
⚠️ Aviso importante
As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.