A conta de US$ 6,3 bilhões fica com a Binance e a prova sai no próximo relatório de reservas
A Binance parou de pagar saques às 19h15 de quinta-feira, no horário de Brasília. Na manhã seguinte, a maior corretora de moeda digital do mundo confirmou o que a rede já mostrava desde a véspera. Cerca de US$ 6,3 bilhões saíram das carteiras da empresa, a maior parte em pouco mais de 20 minutos, o maior roubo já registrado no setor. A conta ficou com a própria Binance.
Nenhum cliente deve perder saldo. A cobertura vem de dois bolsos, o fundo de emergência que a corretora mantém para ataques e o caixa da companhia. Ela afirma que a reposição sai do caixa e do fundo, sem desconto para o cliente, e que não achou sinais de vazamento da chave privada de nenhuma carteira.
Depósitos voltaram a funcionar na madrugada desta sexta. Saques seguem bloqueados, e a corretora deu 48 horas, a partir de 1h17 da manhã, para reabrir o serviço. Quem tem saldo na plataforma vê o valor na tela e ainda não consegue tirá-lo de lá.
O que a empresa separou e o que já foi travado
A Binance disse ter reservado US$ 6,34 bilhões em recursos próprios para o caso. Cerca de US$ 5 bilhões já estão nas mesmas moedas que foram levadas, e o restante está sendo comprado no mercado e em negociações diretas para que a reposição seja idêntica ao que sumiu. O dinheiro dos clientes não entra nessa conta.
Do outro lado, US$ 3 bilhões do que saiu já estão travados por terceiros. A maior parte veio de quem emite USDT e USDC, as duas moedas atreladas ao dólar mais usadas do mercado, com poder de bloquear saldo em qualquer endereço. Ripple e World Liberty Financial também informaram bloqueios. Bitcoin e ether não têm esse botão.
A assinatura que entregou o controle de uma das carteiras a um contrato, três minutos antes do primeiro saque, segue sem explicação. O que saiu, a rede registra. Foram 167.464 ether de uma carteira da Binance e mais 28.005 ether de uma segunda, pouco depois das 17h de quinta.
O buraco que o relatório de outubro mostra
Todo mês a Binance publica a lista de carteiras que controla, o que há em cada uma e quanto disso cobre o que os clientes têm depositado. O relatório de 1º de outubro traz as duas carteiras esvaziadas na quinta, uma delas com 89.475 ether e US$ 1,26 bilhão em USDT, entre 37 ativos.
Naquele dia, a corretora tinha exatamente o ether que devia aos clientes, ou 100% de cobertura. O que saiu das duas carteiras equivale a pouco mais de 5% de todo o ether que ela dizia guardar. Nenhum saldo some por causa disso, e o número mostra por que a Binance está comprando ether no mercado para repor.
Só o próximo documento mostra a correção. A empresa disse que publica uma versão atualizada das reservas quando concluir a revisão de segurança, e a próxima leitura mensal está prevista para 1º de novembro.
Quem os investigadores apontam
A TRM Labs e a Chainalysis, duas empresas que rastreiam transações em rede, nomeiam o TraderTraitor como autor. O grupo trabalha para o governo da Coreia do Norte. Pelo levantamento da TRM Labs, a preparação durou ao menos 36 horas antes do primeiro saque, com carteiras abastecidas por meio do Tornado Cash, serviço que mistura fundos de vários usuários para dificultar o rastro. Na Chainalysis, a leitura foi de um padrão de lavagem que a empresa ainda não tinha visto, com milhares de transações automatizadas em pouco tempo.
O grupo é o mesmo que o FBI responsabilizou pelo roubo de US$ 1,5 bilhão na Bybit em fevereiro do ano passado, até quinta o maior da história. Agências de segurança do Ocidente já disseram que o dinheiro retirado de empresas de moeda digital ajuda a financiar o programa nuclear e de mísseis norte-coreano. O governo do país nega participação em ataques.
A Binance não confirmou a ligação com a Coreia do Norte. Disse que trabalha com autoridades para identificar os responsáveis. Richard Teng, que divide o comando da empresa, afirmou que o ataque não foi um clique único e que a investigação achou outros pontos de entrada além do computador de um engenheiro.
Travar resolve a primeira parte
A devolução do que está congelado depende de ordem judicial e da emissora da moeda, que queima o saldo travado e emite de novo para o dono. Ari Redbord, que chefia a área de política da TRM Labs e foi procurador federal nos Estados Unidos, diz que USDT e USDC seguem esse caminho, com prazo definido pela Justiça.
Para bitcoin e ether, o trabalho é outro. Como não há emissor, os investigadores seguem o rastro até uma corretora ou plataforma que colabore com a operação. Eric Jardine, que responde pela área de pesquisa da Chainalysis, explica que não existe prazo padrão, porque o congelamento técnico é rápido e a devolução pode levar meses ou anos.
O mercado
O bitcoin caía para US$ 76,7 mil no fim da manhã desta sexta, queda de 4,6% em 24 horas, e o BNB, moeda da própria Binance, recuava 6,8%, para US$ 693. No mesmo horário, o ether estava em US$ 2.214, com baixa de 4,9%. A queda começou na quinta, quando os saques pararam, e continuou mesmo depois da promessa de ressarcir todo mundo.
Binance.US e Coinbase disseram que não foram afetadas. A corretora diz ter mais de 300 milhões de contas abertas e, em 2024, informou guardar mais de US$ 160 bilhões em ativos de clientes.
O prazo de 48 horas para os saques termina por volta de 1h de domingo, 1º de novembro, o mesmo dia da próxima leitura mensal das reservas.
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