Bitcoin

O USDT volta ao bitcoin em novembro por uma rota que esconde os dados da transferência

Em 28 de novembro, a Utexo pretende colocar o dólar digital da Tether de volta no bitcoin. A empresa, sediada em Dubai e com a Tether entre os principais investidores, usa um protocolo chamado RGB para emitir USDT que circula com os detalhes da transferência fora do alcance de quem observa a blockchain. Que a maior stablecoin do mundo voltasse à rede que a viu nascer já foi tentado antes, e o resultado daquela vez é a melhor medida do tamanho do desafio.

O USDT começou no bitcoin, em 2014, pelo protocolo Omni. Durante anos foi a única versão da stablecoin, até que a rede ficou cara e lenta, e o mercado migrou para Tron e Ethereum. Em agosto de 2023, a Tether encerrou a emissão no Omni citando falta de uso. Os resgates ficaram abertos por um ano.

A volta, porém, já começou sem a Utexo. Desde março, o USDT também circula na Lightning Network, a camada de pagamentos instantâneos do bitcoin, pela via do Taproot Assets, protocolo desenvolvido pela Lightning Labs. A Lightning Labs vinha preparando outra frente parecida, uma API para integrar pagamentos sem operar nó próprio, que anunciou em julho e que deve receber stablecoins depois.

A pergunta que importa não é mais se o dólar digital pode viver no bitcoin. É qual das rotas vai convencer alguém a usá-la.

O que a rota nova faz diferente

O RGB nasceu em 2016, passou anos sem sair do papel e só agora estreia na rede principal do bitcoin. A proposta é permitir a emissão e a transferência de ativos com contratos amarrados ao bitcoin sem gravar cada detalhe na blockchain pública. Cada parte valida o próprio recibo, e o bitcoin guarda apenas uma impressão digital que serve de âncora. Não é uma sidechain nem um rollup, o que na prática significa que não existe uma rede paralela cuidando das transações.

O resultado prático é privacidade. Em uma transferência de USDT em Tron ou Ethereum, qualquer pessoa consegue ver o valor, o horário e os endereços de origem e destino. No RGB, esses dados ficam com os envolvidos, e a Utexo diz que consegue mostrar a informação a quem tem competência legal para pedir, como um regulador ou uma autoridade policial.

A segunda diferença é o tempo. O lançamento público de novembro sai apenas na rede principal do bitcoin, por carteiras e corretoras parceiras. O suporte à Lightning, onde a promessa de pagamento instantâneo de fato se realiza, só deve chegar no começo de 2027.

O lastro fica em outra rede

Para transformar USDT comum em USDT no bitcoin, a Utexo usa o mecanismo de travar e emitir. O cliente deposita dólares digitais em uma rede compatível, o valor fica travado e uma quantidade equivalente é criada em bitcoin. No resgate, o token no bitcoin é queimado e o dinheiro travado é liberado.

O lastro fica travado na rede de onde o dólar saiu, e o exemplo que a empresa usa é Arbitrum. É uma escolha que reduz custo e simplifica a operação. Também cria uma dependência. A segurança do USDT no bitcoin passa a depender também da ponte que liga as duas redes, um tipo de estrutura que já foi alvo preferido de hackers. A Utexo afirma que o sistema foi auditado pela Oxorio, mas o relatório completo não está público.

Outro ponto é quem consegue entrar. O Mint, como o produto é chamado, é descrito como uma plataforma para parceiros verificados, como corretoras, carteiras e formadores de mercado. O varejo entra pelas carteiras e corretoras que integram o serviço.

O adversário ocupa metade do mercado

Hoje existem 180,8 bilhões de dólares em USDT espalhados por 104 redes, segundo a contagem da DeFiLlama. Tron concentra 92,2 bilhões, ou 51% do total. Ethereum fica com 71,6 bilhões, BSC com 9,2 bilhões e Solana com 2,6 bilhões. Arbitrum, a rede que a empresa cita como origem do lastro, responde por 0,8 bilhão. O conjunto das stablecoins passa de 302 bilhões de dólares.

Tron venceu por um motivo pouco glamouroso. Transferir dólar digital ali custa centavos e funciona em qualquer horário, e foi nessa rede que nasceram os hábitos de quem manda dinheiro entre países, paga fornecedor no exterior ou guarda reserva em dólar fora do banco. A rede tem contratos inteligentes, o que também permitiu que o USDT virasse peça de aplicações financeiras.

A Utexo não tenta disputar esse terreno. O discurso da empresa é que o bitcoin serve para pagamento e para acordos simples, como compra e venda com garantia. Reconstruir as finanças descentralizadas do Ethereum não está nos planos. Quem a Utexo quer atender são companhias que precisam mover dólar sem que concorrentes vejam o quanto pagam e para quem, além de mineradores que hoje mandam bitcoin para uma corretora sempre que querem trocar por dólar.

Por que isso interessa ao Brasil

O Brasil é um dos mercados em que a resposta a essa disputa tem consequência direta. Nos dados que chegam à Receita Federal, as stablecoins saíram de 3,5% do total movimentado em 2019 para mais de 80% do volume mensal nos últimos anos.

De agosto de 2019 ao fim de 2025, o Fisco registrou R$ 1,58 trilhão em compras e vendas de criptoativos, dos quais R$ 1,13 trilhão em stablecoins. É com dólar digital que o pagamento internacional das empresas brasileiras acontece hoje, e é essa fatia de mercado que uma rota no bitcoin tentaria disputar.

Se uma rota no bitcoin reduzir o custo de mover esse dinheiro, o ganho aparece primeiro justamente aí. Se ela aumentar a privacidade, aparece também o problema, porque operações que cruzam a fronteira com cripto já entraram no arcabouço de câmbio brasileiro e passam a ser reportadas ao Banco Central a partir de 3 de novembro. Uma transferência que não deixa rastro público é exatamente o tipo de operação que a regra nova tenta enxergar.

A Tether sustenta que a integração fortalece o bitcoin como trilho de liquidação para transações comerciais em dólar. Paolo Ardoino, presidente da empresa, descreveu a Utexo como a camada que faltava para tornar a liquidação de stablecoin no bitcoin viável em escala, porque esconde a complexidade de operar Lightning e RGB.

O que precisa dar certo

Viktor Ihnatiuk, cofundador e presidente da Utexo, não esconde a ambição. O piso que ele admite é 1 bilhão de dólares em USDT no bitcoin em doze meses. A meta mediana é 5 bilhões, e o objetivo que ele chama de inicial é 10 bilhões.

O piso, sozinho, equivale a 0,55% do USDT que existe hoje. Para chegar lá, a Utexo aposta na UniSat como primeira carteira a oferecer o serviço, na adesão de outras carteiras e corretoras pela API, em 12 parceiros de balcão já fechados e em outros 40 no radar.

Há ainda um limite físico no caminho. A capacidade pública da Lightning, soma de tudo o que está travado nos canais de pagamento da rede, fica entre 3,4 mil e 3,7 mil bitcoins. Para mover volumes de stablecoin na casa dos bilhões por ali, essa estrutura precisa crescer muito, e crescer depende de alguém pagar por isso.

A primeira versão do USDT no bitcoin morreu por falta de gente usando. O problema nunca foi técnico. A diferença desta vez é que existe uma empresa vendendo a integração pronta para parceiros, com API e suporte. Se a meta mínima se cumprir, o bitcoin termina 2027 com pouco mais de meio por cento do USDT em circulação e o mercado de Tron segue praticamente intacto.

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