Mercado Crypto

A Tether conta 100 mil bitcoins no relatório e 150 mil no palco, uma diferença de US$ 4,2 bilhões

No sábado, 24 de outubro, no palco do Plan ₿ Forum, em Lugano, Paolo Ardoino falou em cerca de 150 mil bitcoins na conta da Tether e tratou o volume como modesto para o tamanho da empresa. Seis dias depois, a Tether publicou o relatório trimestral assinado pela BDO, e a conta do documento para bem antes disso.

O relatório fecha em 30 de setembro com US$ 8.367.170.264 em bitcoin, avaliados a US$ 83.621,23 por moeda. Dividir um número pelo outro dá 100.060 bitcoins. Faltam 49.940 para o que o CEO disse na Suíça, e a diferença, na cotação que a própria Tether usou no documento, vale US$ 4,18 bilhões.

Esse valor equivale a mais da metade dos US$ 7,95 bilhões que a empresa mantém de reservas acima dos tokens em circulação, e a 93% do lucro operacional de US$ 4,5 bilhões acumulado nos nove primeiros meses do ano.

O que o relatório conta, moeda por moeda

O relatório diz que os bitcoins estão em carteiras controladas pela própria empresa e os avalia pela cotação de fechamento daquele 30 de setembro. É a única linha do relatório que mede bitcoin de forma direta.

No trimestre, essa pilha cresceu 1.127 moedas, de 98.933 para 100.060. O valor em dólar subiu US$ 2,57 bilhões no mesmo período, e quase tudo veio do preço. A cotação de referência saltou 42,6%, de US$ 58.642,15 no fim de junho para US$ 83.621,23 no fim de setembro, o que sozinho responde por US$ 2,47 bilhões da alta.

No conjunto dos US$ 191,45 bilhões em ativos, o bitcoin ocupa 4,4%. O ouro soma US$ 19,08 bilhões, mais que o dobro da linha de bitcoin, e os títulos do Tesouro americano, diretos e por operações compromissadas, chegam a US$ 132,4 bilhões.

Quanto custaria fechar a conta

As 49.940 moedas de diferença custariam US$ 4,18 bilhões pela cotação do relatório. Nesta terça-feira, por volta das 10h, o bitcoin era negociado a US$ 77,3 mil, e a mesma quantidade sairia por US$ 3,86 bilhões. O documento registra apenas o saldo daquela data, sem histórico de compras.

A política que a Tether adotou em maio de 2023 manda aplicar até 15% do lucro operacional realizado a cada trimestre na compra de bitcoin. Com os US$ 1,5 bilhão de lucro do terceiro trimestre, os 15% dariam US$ 225 milhões, o equivalente a 2.691 moedas pela cotação do próprio relatório. A pilha em reserva subiu 1.127.

O ritmo do ano mede melhor a distância. Em 31 de dezembro de 2025, o relatório da empresa trazia 96.185 bitcoins. No fim de setembro, 100.060. São 3.875 moedas em nove meses, ou 431 por mês. Nesse passo, somar as 49.940 que faltam levaria 116 meses, quase dez anos.

Os 150 mil correspondem a 0,75% dos 20,1 milhões de bitcoins que existem hoje.

A promessa de 2023 e o colchão

No anúncio da política de compras, a Tether escreveu que esperava manter as posições em bitcoin das reservas abaixo do colchão de capital dos acionistas. O mesmo texto diz que a empresa guarda as chaves privadas de todas as moedas que compra.

Esse colchão fechou setembro em US$ 7,95 bilhões. A linha de bitcoin do relatório está em US$ 8,37 bilhões, 105% dele. Na cotação de 30 de setembro, as 150 mil moedas que o CEO citou valeriam US$ 12,54 bilhões, ou 1,6 vez o excedente de reservas.

Onde as outras 50 mil estão, e quando foram compradas, o CEO não disse. A Tether tem uma estrutura fora das reservas, a Tether Investments, que aplica capital próprio e lucros acumulados em participações e é mantida separada dos ativos que lastreiam o USDT. Se as moedas estão ali, o relatório das reservas não tem como mostrá-las. Noutro lugar, também não.

O número do palco envelheceu

As 150 mil moedas valiam US$ 12,54 bilhões em 30 de setembro. No dia da palestra, com o bitcoin fechando aquele sábado a US$ 80.888, valiam US$ 12,13 bilhões. Nesta terça-feira, com a moeda perto de US$ 77,3 mil, valem US$ 11,59 bilhões. São US$ 949 milhões a menos que a marca do relatório e US$ 539 milhões a menos que no dia da palestra, sem uma única moeda ter se movido.

A aproximação da fala mede a distância entre um número de palco e um número que passou por conferência contábil. Dos dois, só o relatório leva assinatura.

O que fecha essa conta já tem data. A empresa publica o relatório do quarto trimestre no fim de janeiro, como fez em julho e em outubro, e ele vai trazer a linha de bitcoin em 31 de dezembro. Se as 50 mil moedas estiverem nas reservas, a posição salta de 100 mil para perto de 150 mil de um documento para o outro. Continuando fora, a distância entre o palco e a contabilidade terá atravessado um trimestre inteiro.

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