Segurança

A Binance tinha caixa para cobrir o roubo e o maior ETF de bitcoin não tem

Para a Binance, o roubo de quinta-feira já tem preço e tem caixa. Foram US$ 6,34 bilhões de recursos próprios reservados para cobrir o que saiu das carteiras quentes, US$ 5 bilhões deles na forma dos mesmos tokens que foram levados, e o restante será comprado no mercado e em operações de balcão. No maior fundo de bitcoin do mundo, a resposta à mesma pergunta sai de um contrato de custódia, de uma apólice de US$ 320 milhões dividida com outros clientes e da possibilidade de deixar o prejuízo com quem tem a cota.

O ataque começou pouco depois das 17h de quinta, no horário de Brasília, e o caminho que esvaziou as carteiras está na matéria das 7h23 de hoje.

Cada levantamento parte de um conjunto diferente de endereços e de redes, e as contas publicadas vão de US$ 2,8 bilhões a US$ 6,4 bilhões. A TRM Labs atribuiu o crime ao TraderTraitor, unidade norte-coreana que o FBI já havia responsabilizado pela invasão da Bybit em fevereiro de 2025, quando US$ 1,5 bilhão saíram de uma carteira fria. Chainalysis e Elliptic chegaram à mesma conclusão, e a Elliptic apontou fundos da Binance e do roubo da Bitget convergindo para o mesmo endereço no Ethereum. A Binance não apontou responsáveis, e nenhuma agência de governo confirmou a autoria até agora.

Onde ficam as 814 mil moedas

O iShares Bitcoin Trust, o IBIT, terminou 29 de outubro com US$ 65,78 bilhões em ativos, 1,439 bilhão de cotas e preço de US$ 45,71. São pouco mais de 814 mil bitcoins, 3,9% de todos os que vão existir, guardados por uma única empresa. A Coinbase Custody Trust Company responde por esse depósito desde o lançamento do fundo, em janeiro de 2024.

Existe um segundo custodiante no papel. Em abril de 2025 a BlackRock contratou o Anchorage Digital Bank, instituição com carta bancária nacional emitida pelo OCC, o órgão que supervisiona esse tipo de banco nos Estados Unidos, para abrir contas segregadas. Nenhum bitcoin foi para lá. Os dois relatórios trimestrais mais recentes do fundo, referentes ao primeiro e ao segundo trimestre de 2026, repetem a mesma frase sobre o patrocinador não ter planos de mover qualquer bitcoin do fundo para o custodiante adicional.

A apólice está no nome da Coinbase

O IBIT não contrata seguro para o bitcoin que guarda. Quem tem apólice é a Coinbase Global, controladora do custodiante, com cobertura de crime comercial de até US$ 320 milhões, valor rateado entre todos os clientes da corretora, sem reserva para o fundo. O prospecto avisa que a indenização pode não ser suficiente, que o fundo talvez precise dividi-la com outros clientes e que nem o fundo nem o patrocinador seguram as moedas. Os US$ 320 milhões equivalem a 0,49% do patrimônio do IBIT na quinta-feira.

O contrato de custódia impõe um segundo teto, de US$ 100 milhões por endereço de armazenamento frio. Em quantos endereços o fundo distribui as moedas não aparece nos documentos. A mesma cláusula isenta o custodiante de responder por dano causado por vírus, spyware ou cavalo de troia, a menos que ele não tivesse controles técnicos razoáveis para o setor, e afasta lucros cessantes e perdas indiretas.

Se o prejuízo repetisse o da Binance, US$ 6,36 bilhões pela conta da TRM, o fundo perderia 9,7% do patrimônio, ou US$ 4,42 por cota no fechamento de quinta. Os US$ 320 milhões cobrem 5% do prejuízo. O resto fica com o cotista, e o prospecto trata o cenário em uma seção de fatores de risco, entre as hipóteses de perda para as quais nenhuma pessoa ou empresa responde.

Bitcoin não tem emissor para apertar o botão

Nas primeiras horas do roubo, Tether, Circle, Ripple e World Liberty Financial travaram US$ 2,67 bilhões em stablecoins, dinheiro que existe como registro dentro de um contrato que a emissora controla. O Conselho de Segurança da Arbitrum congelou 8.426 ether e 74,6 milhões de tokens ARB na rede dele. A TRM calculou que cerca de US$ 2,4 bilhões seguiam em ativos que nenhum emissor pode congelar. Bitcoin é o maior deles.

Sem esse botão, a recuperação depende de investigação, de ordem judicial e da boa vontade de quem estiver com as moedas. A Bybit passou por isso em fevereiro de 2025, quando perdeu US$ 1,5 bilhão, e o dinheiro foi levado por carteiras, pontes e serviços de troca antes de qualquer tentativa de saque, na descrição da Elliptic.

A chave privada não vazou

O comunicado da Binance diz que a investigação não achou vazamento de chave privada de carteira. A entrada foi outra, um notebook de engenheiro de DevOps comprometido, que abriu caminho até um contêiner de serviço e permitiu o envio de saques não autorizados. Na descrição da TRM, o mesmo episódio tem 50 autorizações assinadas com antecedência, usadas para transformar uma carteira quente em um instrumento na mão do invasor.

Guardar chave fora da internet resolve parte do problema. A outra parte é o processo que aprova cada transação, e nele o fundo também depende de terceiros. As chaves do IBIT ficam em instalações da Coinbase nos Estados Unidos e na Europa, em armazenamento frio, com um número limitado de funcionários com acesso, segundo o prospecto. O mesmo documento lista atestados de controle e auditorias internas como garantia de que o procedimento funciona.

A Binance começou esta sexta-feira devolvendo ativos aos clientes com dinheiro do próprio caixa, e os saques devem voltar em um ou dois dias. O IBIT chegaria ao mesmo dia com US$ 320 milhões de apólice compartilhada e um teto de US$ 100 milhões por endereço. As 814 mil moedas seguem sob um custodiante, e a conta de quem paga está escrita no contrato desde 2024.

⚠️ Aviso importante

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