Metade do ouro que os bancos centrais compraram em agosto não entra na conta oficial
Em agosto, os bancos centrais levaram 79 toneladas de ouro para as reservas, mais de quatro vezes a média mensal de 17 toneladas registrada antes de 2022. A conta vem de uma nota do Goldman Sachs enviada a clientes esta semana e mede um volume que os relatórios oficiais não captam. No mesmo mês, o World Gold Council contabilizou 39 toneladas de compras líquidas declaradas pelos próprios bancos centrais. A diferença, de 40 toneladas, é o tamanho do que se compra sem anunciar.
O movimento acontece com o metal em queda. No fim da manhã desta quinta-feira, o ouro valia US$ 4.055 a onça, 1,6% abaixo do fechamento anterior e cerca de 23% abaixo do recorde de janeiro, quando a onça passou de US$ 5.300 pela primeira vez. O petróleo em alta e a aposta em juro maior nos Estados Unidos tiraram o fôlego do metal nas últimas sessões, na mesma direção do que o mercado vinha lendo no começo do mês, quando o ouro subiu com a trégua que Moscou não confirmou.
Quem compra e quanto declara
Agosto foi o quinto mês seguido de compra líquida. As 39 toneladas declaradas levam a 170 o total informado no ano até agosto, e o ritmo do trimestre encerrado em agosto, ajustado a variações sazonais, chega a 85 toneladas por mês na estimativa do Goldman, cinco vezes a média anterior a 2022.
A Polônia comprou 8 toneladas no mês e chegou a 648, com meta declarada de 700. É o maior comprador do ano, com 98 toneladas. A China somou 20 toneladas em agosto, o 22º mês consecutivo, e tem 2.387 toneladas, o equivalente a 9% das reservas totais. O Uzbequistão comprou 8 e o Cazaquistão, 7, o que deixou o metal em 90% e 79% das reservas dos dois países. Nesse patamar, sobra pouco espaço para repetir a dose.
Rússia e Turquia vendem no mesmo mês
Nem todo banco central está comprando. A Rússia vendeu 6 toneladas em agosto e acumula 56 no ano, com o estoque em 2.271 toneladas. A Turquia comprou 3 toneladas no mês, depois de três meses seguidos de venda, mas o saldo de 2026 segue negativo em 82 toneladas, quase todas no primeiro trimestre.
A assimetria entre os dois lados explica por que a compra de agosto não deve ser lida como pânico. O grupo que compra é pequeno, repete a dose há anos e tem objetivo de longo prazo declarado, como a meta polonesa de 700 toneladas. A pesquisa do World Gold Council com 76 bancos centrais, feita entre fevereiro e maio, mostrou que 45% esperavam aumentar as próprias reservas em ouro nos 12 meses seguintes, o maior patamar da série, e apenas 1% previa redução. Na mesma pesquisa, 74% veem uma fatia menor do dólar nas reservas globais em cinco anos.
Saiu de Nova York, mas o destino foi Londres
O exemplo mais claro do ano está no banco central holandês. Entre março e agosto, o De Nederlandsche Bank transferiu 86 toneladas que estavam em Nova York e em Ottawa para Londres. Repatriação não é o termo. A fatia guardada na capital britânica subiu de 18,1% para 32,1% e virou a maior do estoque holandês, acima dos 30,8% mantidos dentro do próprio país. As parcelas em Nova York e em Ottawa caíram para 18,5% cada uma, de 31,3% e 19,7%.
Foram dois passos. Cerca de 59 toneladas foram vendidas no cofre americano e trocadas por ouro de liquidez internacional em Londres. Outras 27 toneladas fizeram o trajeto físico, da América do Norte até a unidade do banco em Zeist, e um volume semelhante seguiu de lá para a capital britânica. O banco justificou a mudança pela facilidade de negociar o metal durante uma crise, sem mencionar desconfiança do dólar.
A França fez algo semelhante ao longo do ano passado, ao vender 129 toneladas em Nova York, o equivalente a 5% do estoque, e comprar o mesmo volume na Europa. A motivação lá foi outra, a pureza do metal, que no cofre americano ficava abaixo de 99,99%.
O efeito agregado aparece na conta do Goldman. As reservas estrangeiras guardadas no Fed de Nova York caíram 40 toneladas em agosto, e as do Banco da Inglaterra subiram 46. Mudança de custódia não prova embarque físico, porque o ouro pode trocar de dono sem sair do cofre. O banco holandês foi explícito ao dizer que não pretende usar o metal e só quer tê-lo disponível se precisar.
O Goldman projeta US$ 4.900 a onça para o fim do ano, previsão feita em agosto, quando o metal valia US$ 4.600. Chegar lá a partir dos US$ 4.055 desta quinta exigiria alta de 21% em pouco mais de dois meses. O grupo que compra atravessou o pico de janeiro e a queda que veio depois sem mudar de ritmo.
⚠️ Aviso importante
As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.