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O Irã avisou os governos do Golfo que aeroportos e oleodutos entram na lista de alvos

O aviso que o Irã vinha repetindo aos vizinhos ganhou alcance nesta quinta-feira. Autoridades iranianas passaram a incluir aeroportos, oleodutos e outros alvos civis de países do Golfo entre os pontos que seriam atingidos se os Estados Unidos e Israel retomarem os bombardeios. A mensagem circulou em declarações públicas e em conversas privadas com governos da região, levadas por intermediários.

Quem resume a posição é Mohsen Rezaei, que chefia o Conselho Supremo de Segurança Nacional. Ele sustenta que não pode existir um entendimento em que as linhas vitais da economia iraniana sejam atacadas e a estrutura econômica que viabiliza esses ataques permaneça intocada. A advertência foi repetida por Mehdi Mohammadi, assessor de Mohammad Ghalibaf, que conduziu as negociações com Washington. Na avaliação dele, uma terceira guerra em dois anos ameaçaria a existência do país, e por isso o Irã não trabalha com linhas vermelhas.

O recado é dirigido às capitais que hospedam as bases americanas, os terminais de petróleo e os centros de dados da região. Até sete países do Golfo aparecem na advertência, segundo autoridades americanas e regionais que acompanharam as conversas. A lista inclui bases e navios americanos, e o item novo é civil. Isso muda o cálculo de quem vive perto do Estreito de Ormuz.

O que mudou em onze dias

Há onze dias, o mesmo Rezaei falava de outro conjunto de alvos. Em entrevista à televisão iraniana, ele disse que as instalações de inteligência artificial, os centros de dados e os cabos que correm pelo fundo do mar entrariam no alcance de um novo conflito. Avaliou esse conjunto em mais de US$ 2 trilhões, sem apresentar a conta, e observou que parte dessa infraestrutura deixou os Estados Unidos e a Europa justamente pela energia disponível no Golfo.

Agora entram aeroportos e dutos, os dois pontos por onde passam a receita e o abastecimento da região. Um aeroporto parado interrompe carga e passageiro, e um oleoduto atingido trava a arrecadação do país inteiro. A lógica que o Irã apresenta é a de que a estrutura que sustenta a campanha militar faz parte dela.

A escalada se cruza com o calendário eleitoral americano. Em 8 de outubro, Donald Trump escreveu que não haveria ataque ao Irã até a votação de 3 de novembro e falou em conversas produtivas com Teerã. No Pentágono, seguem desenhados planos para uma campanha curta, de poucos dias, contra arsenais de mísseis e drones e contra a infraestrutura de energia do país, e os Estados Unidos mantêm dois grupos de ataque de porta-aviões na região, com um terceiro a caminho. Israel vota em 27 de outubro.

A lista já foi usada neste ano

Nada disso é hipótese. Desde 28 de fevereiro, quando a guerra começou, um levantamento que cruzou 36 depoimentos com imagens de satélite contabilizou ao menos 135 disparos de drones e mísseis contra 84 instalações em sete países do Golfo, do Kuwait a Omã, passando por Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Iraque e Bahrein. Terminais aéreos de quatro países entraram na lista. Também entraram na conta centros de dados da Amazon, uma siderúrgica nos Emirados e usinas de dessalinização do Kuwait.

O Kuwait mostra o que acontece quando o alvo é civil. O país tira 90% da água potável do mar, e quatro das oito usinas que fazem esse trabalho foram atacadas entre março e julho, algumas mais de uma vez. A conta do petróleo é maior. Cinco das nove maiores refinarias sauditas foram danificadas, e o país produz hoje menos de 7 milhões de barris diários, contra mais de 10 milhões antes da guerra, com perda estimada acima de US$ 50 bilhões.

No Catar, dois ataques destruíram as unidades de refrigeração que transformam o gás em líquido em Ras Laffan, ponto de embarque de quase 20% do gás liquefeito negociado no planeta. A estatal QatarEnergy calcula de três a cinco anos de obras para repor o que foi perdido.

Por que o aviso mira quem hospeda

O Golfo construiu nos últimos anos uma economia que roda sobre instalações pouco visíveis. Uma delas é o ponto de desembarque de cabos submarinos em Fujairah, nos Emirados. Doze sistemas estão em operação ali, o mais antigo desde 1992, e eles ligam o país diretamente a 36 nações. O mais longo, o AAE-1, percorre 25 mil quilômetros entre a Ásia e a Europa pelo Egito. Por esses cabos passam pagamentos internacionais, liquidação de câmbio e o tráfego de bancos, corretoras, gestoras e empresas de criptomoedas que se instalaram em Dubai e Abu Dhabi.

Os centros de dados seguiram o mesmo caminho, atrás de energia barata e espaço no deserto. Empresas americanas e europeias levaram para a região parte da capacidade que atende o Oriente Médio, e a advertência iraniana inclui esses prédios entre os alvos. Um deles já foi atingido neste ano. A lógica é a mesma dos oleodutos. O prédio fica no Golfo, e o serviço que ele presta chega a quem está fora dele.

A semana em que o aviso chegou

A ofensiva que já está em curso tem outro autor. Os houthis, aliados de Teerã, atingiram o aeroporto internacional Rei Khalid, em Riad, pela quarta vez nesta semana, segundo o porta-voz militar do grupo, Yahya Saree. Pela versão da defesa civil do país, o material de um míssil derrubado caiu sobre uma creche e um centro médico em Riad. Nos últimos dias, três pessoas morreram em ataques no país, uma delas no aeroporto Rei Fahd, em Dammam, onde oito ficaram feridas.

O Departamento de Estado americano determinou na quinta-feira que funcionários não essenciais da missão na Arábia Saudita e seus familiares deixem o país. A nota menciona ofensivas contra terminais aéreos civis e instalações vitais, e diz que o confronto pode se ampliar depressa. O departamento negou que a medida alcance outras representações no Golfo.

O petróleo fechou a sessão no maior nível desde meados de maio. O Brent para dezembro subiu 4%, a US$ 113,17 o barril, e o WTI fechou a US$ 99,47, alta de 2,4%. O bitcoin devolveu o avanço da véspera e encerrou perto de US$ 81,3 mil, queda de 3,2% em 24 horas, no mesmo movimento dos ativos de risco que marcou a sessão de quinta.

Na sexta-feira, os chanceleres de Turquia, Egito, Paquistão e Arábia Saudita se reúnem em Istambul com os de Reino Unido, França e Alemanha. É o primeiro encontro nesse formato, articulado por Ancara, e a pauta inclui a guerra no Irã, o conflito no Iêmen e a questão palestina. Até lá, o que existe de concreto é o barril no maior preço em cinco meses, os aeroportos sauditas sob ataque há uma semana e uma lista de alvos que passou, em onze dias, dos cabos e centros de dados para os aeroportos e oleodutos dos vizinhos.

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