Macro

A ICE quer o varejo dos perpétuos, mas em uma estrutura separada do negócio institucional

A dona da bolsa de Nova York quer operar contratos perpétuos para o investidor comum no mercado americano. O acordo anunciado nesta quinta-feira pela Intercontinental Exchange com a Trade[XYZ] prevê uma corretora e uma câmara de compensação novas, dedicadas só ao varejo, e mantém o negócio institucional da companhia em outro balcão, com outra estrutura de risco.

A separação é o ponto central do desenho. Hoje, mais de 99% do que a ICE negocia vem de instituições. Os clientes que protegem preço de commodities continuariam nos contratos futuros tradicionais e na compensação central, sem exposição ao risco de crédito dos traders de varejo que passariam a operar na estrutura nova. A própria ICE escreve no comunicado que esses clientes não carregam o risco de negociação nem o risco de contraparte do varejo.

O contrato perpétuo não tem data de vencimento. Ele serve para posições curtas, abertas por horas ou dias, enquanto o futuro tradicional organiza preço para meses à frente. O formato que a ICE pretende levar ao mercado americano cobre cripto, ações, índices, divisas e commodities.

Onde os contratos vão rodar

A Trade[XYZ] já vende perpétuos sem interrupção a usuários de fora do país, com contratos que acompanham ações, índices, moedas e commodities. Por baixo, a infraestrutura é a Hyperliquid, plataforma descentralizada de derivativos, e a Trade[XYZ] cuida do desenho dos produtos. Com a tecnologia HIP-3, terceiros criam mercados próprios dentro do protocolo, sem depender do time central para listar cada contrato.

Na operação, a ICE entra como operadora exclusiva dos mercados regulados da Trade[XYZ] e fez um investimento minoritário na empresa, sem valor divulgado. O comunicado diz que a posição não deve ter impacto material no resultado ajustado de 2026, na distribuição de capital nem no plano de desalavancagem da companhia.

Quem responde pelo cliente

O acesso do trader comum passaria por corretoras de futuros registradas, as FCMs, que checam a identidade do cliente e o risco de lavagem de dinheiro. A distribuição também pode usar a parceria entre a ICE e a OKX, anunciada no começo do ano e que ainda depende das próprias aprovações como corretora de valores e FCM.

Quem comanda a ICE, Jeffrey Sprecher, disse que os mercados de perpétuos entram como acréscimo aos futuros da empresa, sem substituí-los. Para a companhia, o varejo é um público que ela não atende hoje e que já opera perpétuos em plataformas no exterior, fora do perímetro americano.

O caminho da Kraken já estava aberto

Três dias antes, a Payward, dona da Kraken, anunciou a intenção de ser a primeira a operar um mercado HIP-3 sob regulação da CFTC. No desenho dela, a Bitnomial, sua bolsa e câmara de compensação registradas, cria, administra e liquida os contratos, enquanto a NinjaTrader Clearing, corretora de futuros do grupo, abre e mantém a conta de cada cliente. Só carteiras aprovadas nas duas listas podem operar.

Arjun Sethi, co-diretor-executivo da Payward, afirmou que vários participantes operam perpétuos criados por terceiros na Hyperliquid e que um deles concentra 98% das posições em aberto, sem nenhuma bolsa ou câmara registrada nos Estados Unidos ter lançado um mercado ali. A Payward quer ser a primeira, segundo ele, assumindo a custódia dos ativos e a responsabilidade legal que vem com ela.

As duas propostas colocam o mesmo tipo de intermediário entre o trader e o protocolo. No caso da ICE, a corretora e a compensação são novas e separadas do resto da casa. No caso da Payward, são entidades que já operam contratos de cripto para clientes americanos.

O que ainda falta

Nenhuma das duas tem data de estreia. A ICE diz que vai buscar as aprovações regulatórias necessárias, incluindo as que permitem negociação alavancada, e a parceria com a OKX também espera aval próprio. A Payward depende do mesmo tipo de liberação da CFTC.

Antes de qualquer aprovação, o mercado já reagiu. O HYPE, token da Hyperliquid, avançou 15% nesta quinta-feira e era negociado perto de US$ 94, com valor de mercado em torno de US$ 22,4 bilhões. O preço fica abaixo do recorde de setembro, de US$ 97,96.

Desde 2016, os perpétuos são negociados fora do país e movimentaram US$ 85 trilhões ou mais em 2025, segundo o relatório da CoinGecko sobre o mercado de perpétuos. A Hyperliquid movimentou US$ 200 bilhões ou mais nos 30 dias até o anúncio, pelos números da DefiLlama. Trazer esse volume para dentro do perímetro americano é o que a ICE está comprando. Quem paga a conta quando uma posição alavancada quebra continua sendo o intermediário registrado, e é por isso que a estrutura nova nasce separada.

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