Segurança

O Tesouro dos EUA sancionou a rede que transformava salário de programador norte-coreano em dinheiro

A carteira recebia stablecoin a cada duas semanas, entre o fim de 2022 e as primeiras semanas de 2023. Os depósitos vinham no mesmo intervalo e no mesmo valor, como um contracheque. Quem estava do outro lado, na avaliação da Chainalysis, era um programador norte-coreano. Ele trabalhava em equipes que desenvolviam protocolos de blockchain e de finanças descentralizadas.

O Tesouro dos Estados Unidos sancionou na quarta-feira dez pessoas e uma empresa por participarem desse circuito. Duas delas são russas e cuidavam de trocar a cripto por dinheiro. Outras oito são norte-coreanos, entre os que comandam as delegações e os próprios programadores.

O esquema é antigo e não se limita a empresas de cripto. O governo mantém programadores espalhados pelo exterior e os coloca em vagas remotas em companhias de verdade. Documentos roubados, currículos inventados e, nos últimos anos, fotos e vídeos gerados por inteligência artificial ajudam a passar pelo processo seletivo.

Depois de contratados, esses trabalhadores ganham acesso a repositórios de código e a sistemas internos. Na descrição do Tesouro, parte deles usou esse acesso para instalar programas maliciosos, copiar informação confidencial e chantagear empresas. O pagamento, feito em stablecoin a pedido dos próprios trabalhadores, ficava em boa parte com o regime.

O caminho que a Chainalysis refez

A investigação da Chainalysis partiu da carteira de um desses trabalhadores e refez o caminho do dinheiro. Ele convertia cada depósito em ethereum e mandava para endereços de concentração, onde o dinheiro de vários trabalhadores se junta antes de seguir adiante.

Dali, o dinheiro seguiu para Ilya Aleksandrovich Boykov. O Tesouro diz que ele movimentou o equivalente a 3,5 milhões de dólares desde 2024, quase tudo em cripto, em apoio à Alis, empresa russa que emprega parte desses trabalhadores. Boykov repassava tudo para a Garantex, corretora russa sancionada em 2022 e tirada do ar em março de 2025, onde a cripto virava dinheiro.

Vitold Viktorovich Obertas é o outro russo da lista. Desde o começo de 2025, ele fez conversões de cripto no valor de quase 2 milhões de dólares e movimentou pelo menos 1,25 milhão de dólares em outras moedas para autoridades norte-coreanas. A análise da Chainalysis mostra que a relação dele com a rede começou antes, em 2023, e que sua carteira recebeu recursos da Amnokgang, empresa de tecnologia norte-coreana sancionada em março.

Do lado norte-coreano, Kim Ki Hyok comanda a delegação ligada à Alis. Ele transferiu quase meio milhão de dólares desde 2024, tudo em cripto. Kim Hyo Dong chefia outro grupo, subordinado à Chinyong, e facilitou o envio de mais de 100 mil dólares desde dezembro de 2023.

Quanto o esquema rende

O número que dá tamanho ao problema vem de um comitê de especialistas da ONU. O trabalho de programadores enviados ao exterior pelo regime movimenta, na estimativa, algo entre 250 e 600 milhões de dólares por ano.

Outra estrutura sancionada é a FFTDC, centro de desenvolvimento técnico e financeiro que Pyongyang mantém na Rússia. Seis trabalhadores ligados a ela geraram mais de 750 mil dólares desde 2025, pelos números do Tesouro.

A sanção bloqueia bens das pessoas na lista sob jurisdição americana e impede que empresas e cidadãos dos Estados Unidos negociem com elas. O efeito mais concreto para o mercado aparece nos endereços divulgados, oito no total, em ethereum e tron. Corretoras usam esse tipo de identificador para barrar depósitos ligados à rede antes de o dinheiro entrar no sistema.

O Tesouro já havia sancionado outra rede de trabalhadores norte-coreanos em março deste ano. Neste mês, Austrália e União Europeia aplicaram designações próprias contra quem ajuda a levantar dinheiro para o país.

As relações que a Chainalysis mapeou são mais antigas do que as sanções desta semana. O caminho que ligava a carteira de um programador aos intermediários russos já existia em 2023, bem antes de o Tesouro colocar os nomes na lista.

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