O whitepaper do bitcoin faz 18 anos sem citar preço uma única vez
No começo da tarde de 31 de outubro de 2008, no horário da costa leste dos Estados Unidos, Satoshi Nakamoto mandou uma mensagem para uma lista de discussão sobre criptografia. Escreveu que vinha trabalhando em uma forma de dinheiro digital que circula direto entre as pessoas, sem intermediário de confiança, e indicou o endereço de onde um PDF de nove páginas podia ser baixado.
Dezoito anos depois, a Coinbase lembrou a data em uma publicação no X neste sábado. O documento não mudou uma vírgula. Tem pouco mais de 3.500 palavras, oito referências e nenhuma ocorrência dos termos preço, mercado, investidor, carteira, custódia, dólar ou blockchain. A contagem é repetível, basta abrir o arquivo.
O vocabulário entrega a intenção de quem escreveu. A palavra nó aparece 38 vezes ao longo das páginas, e a expressão dinheiro eletrônico, duas. O foco do autor estava na rede que processa pagamentos.
O problema descrito era o custo do intermediário
Logo na abertura, o texto trata do comércio na internet, que dependia quase inteiramente de instituições financeiras para processar pagamentos. O autor argumenta que a intermediação encarece cada operação e inviabiliza as operações pequenas e ocasionais. Essa descrição de usuário aparece uma vez em todo o documento e nunca mais volta.
O bloco zero só seria criado 64 dias depois, em 3 de janeiro de 2009, com uma única transação registrada. Daquele ponto em diante o mecanismo não parou, e o bloco mais recente, o 973.990, foi fechado neste sábado com 7.201 transações.
O que o texto não antecipou foi a leitura financeira. Por volta das 12h20 deste sábado, o bitcoin valia US$ 77,3 mil, com US$ 1,55 trilhão de valor de mercado e 38% de distância do recorde de US$ 126 mil, registrado em outubro do ano passado. Em doze meses, a queda chega a 30%.
A oferta segue a regra escrita no código, com 20,1 milhões de bitcoins em circulação entre os 21 milhões que existirão, o equivalente a 95,7% do total. O corte marcado para 2028 reduz a recompensa por bloco de 3,125 para 1,5625 moeda, assunto que a casa tratou no dia 19 de outubro.
Bancos e ouro entram como comparação
Três passagens são as únicas em que o vocabulário financeiro aparece, e todas servem de contraste. A operação é descrita como algo que dispensa a intermediação típica de um banco, o sigilo se compara ao que as bolsas divulgam sobre o horário e o tamanho de cada negociação e a criação de moedas novas é equiparada ao esforço dos garimpeiros de ouro. Nenhuma delas projeta preço, retorno ou reserva de valor.
Na página 8, a conclusão afirma que a rede se sustenta justamente por ter pouca estrutura e que qualquer participante entra e sai a qualquer momento. O que veio depois foi a formação de uma indústria em cima dessa simplicidade. Nas últimas 24 horas, o maior grupo de mineradores, o Foundry USA, encontrou 42 dos 144 blocos, e esses grupos reúnem máquinas de milhares de operadores independentes.
A palavra dinheiro também virou tema de disputa. Em outubro, o Banco de Compensações Internacionais concluiu que o bitcoin não se encaixa nessa definição, ponto que a casa acompanhou naquele dia. Do lado de cá, a moeda passou a ser negociada por fundos e guardada por corretoras, arranjo que o documento não descreve.
O PDF segue no mesmo endereço, com a mesma assinatura e o mesmo e-mail na primeira página. Em 18 anos, mudaram o preço, a contagem de blocos e o tamanho da indústria em volta da rede. O texto continua com nove páginas.
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