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Os 13% do USDT no Paraguai vinham de um anúncio de US$ 145

O dólar chegou a G. 6.500 nas casas de câmbio de Assunção nesta quinta-feira, e o número que correu pelas redes foi outro. O USDT, o dólar digital da Tether, estaria sendo negociado com ágio de 13% no Paraguai, sinal de que o país inteiro tentava trocar guaranis por dólares depois do fechamento do ueno bank. Os anúncios que sustentam a conta existem. O livro de ofertas mostra um mercado bem mais barato do que isso.

A renúncia veio antes do voto

Santiago Peña renunciou nesta quinta, em um vídeo publicado nas redes sociais, no qual disse que saía para preservar a ordem institucional do país e pediu desculpas aos paraguaios por eventuais falhas. A saída aconteceu depois de o ex-presidente Horacio Cartes anunciar que o Partido Colorado, do próprio Peña, apoiaria o processo contra ele.

Uma hora depois da mensagem, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do juízo político por unanimidade. Pedro Alliana, o vice, assume a presidência até agosto de 2028.

A oposição acusa Peña de conflito de interesse, de uso indevido de fundos de pensão e de omissão diante dos avisos do Banco Central sobre os empréstimos do banco a empresas do próprio grupo. Peña foi acionista do grupo que controla o ueno até março do ano passado e nega qualquer vínculo com a instituição. O senador Rafael Filizzola definiu o episódio como a maior fraude cometida de dentro do poder na era democrática paraguaia e estimou as perdas em algo como US$ 3 bilhões.

O dólar saiu de 5.900 para 6.500

Boa parte da confusão com o USDT vem do câmbio. O dólar fechou a sexta anterior em G. 5.900, subiu para G. 5.950 na segunda, saltou para G. 6.170 na terça, quando o Banco Central anunciou a resolução do ueno, passou por G. 6.250 na quarta e tocou G. 6.500 nesta quinta no câmbio à vista. São 10% em quatro dias.

No interbancário, a cotação registrada pelo Banco Central do Paraguai bateu G. 6.418,91 às 11h e recuou para G. 6.332 até o meio-dia. O risco país medido pelo J.P. Morgan subiu de 119 para 138 pontos-base no mesmo intervalo, alta de 16%.

O USDT acompanha o dólar por definição, então o salto do guarani contra a moeda americana aparece inteiro na cotação do USDT em guaranis. Quem olha só para o preço do USDT vê uma disparada. Já a diferença entre o preço do USDT e o preço do dólar conta outra história.

De onde saiu o 13%

O número tem endereço. Ele aparece em um anúncio de venda de USDT a G. 6.942 no painel de negociação entre pessoas da Bybit, comparado com a cotação de referência do Banco Central do dia anterior, G. 6.144,02. A conta fecha em 13%. O mesmo anúncio aceitava ordens de no máximo G. 1,01 milhão, cerca de US$ 145 pelo câmbio daquele momento. No mesmo painel havia ofertas a G. 4.992 e um comprador pagando G. 6.020 por USDT, abaixo da referência oficial.

A razão da diferença é simples. No mercado entre pessoas, quem vende define o preço que pede, e quem compra escolhe entre dezenas de anúncios. Um pedido de G. 6.942 fica parado quando a mesma tela oferece USDT a G. 6.400.

Em uma consulta aos 40 anúncios de venda mais baratos em guaranis na Binance, por volta das 16h desta quinta, os dez primeiros iam de G. 6.374 a G. 6.392, com mediana de G. 6.382. O mais caro da lista pedia G. 7.700, 21% acima do mais barato.

Os G. 6.382 de mediana ficam 3,9% acima da referência do Banco Central de quarta-feira e 1,8% abaixo do dólar em espécie vendido a G. 6.500 nesta quinta. Contra o interbancário do dia, a distância era de menos de 1%. O ágio existia em algum grau. Os 13% não estavam no preço que a maioria pagava.

Havia também um limite prático. Para comprar USDT é preciso transferir guaranis de uma conta que funcione, e a plataforma só libera os tokens depois de receber o pagamento. Quem tinha dinheiro preso no ueno não conseguia usar o saldo bloqueado para comprar dólar digital. A corrida aos anúncios foi feita por gente que ainda tinha guaranis disponíveis.

O fechamento do banco e a corrida do Congresso para devolver o dinheiro aos poupadores estão nesta reportagem.

A distância entre o balcão e o interbancário mostrava onde estava a pressão. O dólar em espécie saía a G. 6.500, 2,7% acima dos G. 6.332 que o Banco Central registrava no começo da tarde.

O processo contra Peña segue agora para o Senado. Uma condenação custaria a ele a cadeira na casa e a imunidade parlamentar, mesmo depois da renúncia.

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