Macro

Quem comprou bolsa brasileira na sexta perdeu 20% em dólar em um dia

Ao preço de fechamento da sexta-feira, US$ 1 mil compravam pouco menos de R$ 5 mil. Colocado no Ibovespa, esse dinheiro valia perto de US$ 800 no fim da tarde desta segunda-feira, depois de a bolsa brasileira cair cerca de 14% e o dólar terminar o dia a R$ 5,40, com alta de 8,2%. Para quem mede o resultado na moeda americana, os dois movimentos se somam, e o prejuízo de um único pregão fica em torno de 20%.

O gatilho foi o resultado da eleição de domingo, que deu a Lula o quarto mandato com 4,4 milhões de votos a mais que Flávio Bolsonaro. Depois da primeira rodada, no dia 4 de outubro, o mercado passou a operar com a troca de governo, e o índice encerrou o pregão seguinte acima dos 200 mil pontos pela primeira vez.

A B3 parou as negociações de ações por 30 minutos logo no começo do pregão, quando a queda passou de 10%. Foi a primeira interrupção desde março de 2020. Na volta, o índice recuou 17,3%, aos 169.516 pontos, e passou o resto do dia tentando recuperar parte do tombo. Terminou perto dos 177 mil pontos. O dólar tocou R$ 5,6048 na máxima da manhã. O vaivém das primeiras horas, que teve duas paradas também nos contratos futuros, está detalhado nesta matéria publicada mais cedo.

O estrago ficou nos papéis que vivem de crédito

Varejo, saúde, construção e bancos comandaram as perdas. No meio da tarde, a Magazine Luiza caía 59,5%, a Hapvida 53,7% e a C&A 48,4%. A Cosan, que carrega dívida alta, recuava 48,3%, e MRV e Cyrela, mais de 40%. Até a B3, a dona da bolsa, caía 47%.

As cinco maiores instituições financeiras do índice perderam R$ 249 bilhões de valor de mercado desde sexta-feira, e o conjunto passou a valer R$ 1,08 trilhão. No fim da tarde, o Banco do Brasil recuava 29,5%, o Bradesco, 23,9%, e o Itaú, 14,7%.

São companhias cujo lucro depende de quanto custa o dinheiro. Juro mais alto encarece a dívida, encolhe o consumo e trava o financiamento imobiliário. Os investidores passaram a trabalhar com gastos públicos altos nos próximos anos e, com eles, juros altos por mais tempo. O índice que reúne as empresas menores, mais dependentes de crédito, caiu 27,5%, quase o dobro do Ibovespa.

O outro lado tinha receita em dólar

Das ações do índice, escaparam as exportadoras. A Vale, a ação de maior peso, subia perto de 5%, e a Suzano, 12,2%. Embraer ganhava 8,8% e Gerdau, 2,7%. Essas empresas faturam em dólar e convertem a receita para real, então a moeda mais cara engorda o resultado delas justamente no dia em que o resto do mercado afunda. Sem a Vale, a queda do Ibovespa poderia ter passado de 16%.

A Petrobras ficou no meio do caminho. A ação preferencial recuou 8%, enquanto o recibo da companhia na bolsa de Nova York, que junta a perda do papel à do câmbio, chegou a cair 25% pela manhã, como mostrou esta reportagem.

A aposta em corte de juros virou aposta em alta

Antes da votação, o mercado futuro tratava como quase certa uma redução de 0,25 ponto na Selic. Nesta segunda, passou a apostar em alta de 0,25 ponto na reunião do Copom da próxima semana, e em mais 0,5 ponto em dezembro. A taxa do Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2031 saltou 289 pontos-base, a 15,53%. A Selic está em 13,75%.

O Tesouro Nacional desmarcou as vendas de títulos públicos que faria nesta semana, entre prefixados e papéis atrelados à inflação, e recomprou R$ 7,1 bilhões em títulos de juros fixos no meio da tarde, em uma tentativa de segurar a disparada. O risco-Brasil subia 17,5% no mesmo horário.

Esse custo chega ao bolso com atraso, na parcela do financiamento e no preço da mercadoria que o lojista repõe.

Flávio Bolsonaro contestou a derrota e afirmou que recorreria à Justiça Eleitoral. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, disse ter segurança sobre o processo. Para prosperar, o pedido teria de mostrar que os votos das seções que ficaram abertas duas horas além do previsto mudariam o resultado. O levantamento do professor do Insper Pedro Burgos mostra que, nessas seções, a soma ficou abaixo dos 35 mil votos, 0,03% do total.

Mesmo com o tombo desta segunda, o Ibovespa ainda acumula alta de 9,4% em 2026, depois de chegar a 27,3% na sexta-feira. No ano, o dólar ainda está 1,6% abaixo do valor de 31 de dezembro.

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