Segurança

50 assinaturas saíram da carteira da Binance e a empresa diz que a chave não vazou

Um único lote de transações levou 50 autorizações assinadas por uma das carteiras quentes da Binance, às 17h20 de quinta-feira, 29 de outubro. Uma delas colocou o endereço sob o comando de um contrato escrito por quem atacou. No mesmo dia, a exchange afirmou que não achou sinal de que a chave privada de alguma carteira tivesse sido exposta. As duas informações podem estar corretas ao mesmo tempo, e explicar como elas convivem é o que falta no maior roubo já registrado no mercado de cripto.

O mecanismo entrou no Ethereum com a atualização de maio de 2025 e deixa uma carteira normal executar as regras de um contrato, atalho que as exchanges aproveitam para agrupar transferências. Para valer, a autorização precisa sair assinada pela própria carteira, com o número de sequência que muda a cada transação enviada. A Blockaid reconstruiu o lote inteiro e encontrou 50 assinaturas, cobrindo as sequências 18.914.775 a 18.914.824 da Binance 14.

Assinar 50 de uma vez resolveu um problema de tempo. Aquela carteira enviava saques a cada poucos segundos, e ninguém de fora conseguiria prever em que ponto do contador ela estaria quando a transação chegasse à rede. Das 50, uma bateu com a sequência vigente e valeu. As 49 restantes foram descartadas, e todas as 50 carregam a assinatura da Binance 14.

Ido Ben-Natan, que comanda a Blockaid, descreve um caminho em que o invasor nunca precisa ter a chave na mão. Os atacantes chegaram a uma posição de onde podiam propor transações a um assinador, o equipamento que guarda a chave e libera as operações. Na explicação dele, o assinador aprovou uma transação que não deveria. O notebook do engenheiro não abriu a porta do cofre. Abriu a porta do balcão que pede ao cofre para assinar.

Nas horas seguintes, a versão da exchange também mudou. A apuração da própria empresa encontrou outros pontos de invasão além do notebook, e o co-presidente Richard Teng afirmou que o episódio não se resumiu a um clique.

A carteira seguiu sendo esvaziada depois do aviso

Às 17h24, uma chamada só tirou 167.464 ether, 63 tipos de token e US$ 1,615 bilhão em USDT da Binance 14. A operação daquela hora está detalhada na matéria das 7h23 desta sexta, que também mostrou como os emissores de stablecoin travaram parte do dinheiro. O segundo saque veio às 18h04. Às 18h44, o terceiro levou 200,39 milhões de USDT, mais 370 ether.

Entre um e outro, a exchange publicou três versões de um mesmo aviso aos clientes. Às 18h15, Changpeng Zhao escreveu que o dinheiro dos clientes estava seguro e que aquilo parecia um roubo na Binance. A publicação oficial da empresa, às 18h16, dizia que ainda não havia impacto confirmado nos fundos de clientes. Ela foi editada às 18h24 para apagar essa frase e às 18h29 para acrescentar que os fundos estavam completamente seguros. O terceiro saque na mesma carteira aconteceu quinze minutos depois da versão final.

Os saques ficaram suspensos às 19h15, uma hora e cinquenta e um minutos depois do primeiro esvaziamento. Depois das 21h, os depósitos também ficaram bloqueados por algumas horas. Voltaram a operar normalmente e, na versão da empresa, nunca foram afetados.

Por que a mesma carteira foi esvaziada três vezes

Quem executava o código do invasor era a própria carteira, e ela continuou recebendo dinheiro. Os sistemas da Binance seguiram mandando ether e tokens novos para a Binance 14, e o contrato do invasor levou o que chegou nas passagens de 18h04 e 18h44. A própria operação da exchange abasteceu o saque por mais de uma hora.

O prejuízo passou de um endereço. A Binance 16, uma carteira vizinha que não recebeu delegação nenhuma, mandou 28.005 ether para o mesmo destino com assinatura própria, no mesmo minuto do primeiro saque. Uma terceira carteira, que guardava USDC, liberou 780 milhões às 17h41 e mais 43 milhões às 17h59, por ordem dada através da carteira delegada. Como precaução, a exchange revogou a autorização afetada.

A conta que sobra para a empresa

O impacto, na conta da própria exchange, fica em torno de US$ 6,3 bilhões, e US$ 3 bilhões já foram travados com apoio de emissores, parceiros de análise e autoridades. O buraco que sobra é de US$ 3,3 bilhões. Para cobrir parte disso, o fundo de emergência da empresa, o SAFU, tem 15 mil bitcoins. Pelo preço desta manhã, US$ 76.834 por moeda, isso dá US$ 1,15 bilhão. O resto sai do caixa da companhia.

Nesta sexta, a exchange disse ter reservado US$ 6,34 bilhões. Desse total, US$ 5 bilhões já estão nos próprios ativos que o invasor levou. O restante vem de compras no mercado e em operações fora de bolsa, o que demora mais nos ativos de pouca liquidez. A empresa não abriu quanto sai do SAFU e quanto sai do próprio bolso.

Dois documentos explicariam o caso, e nenhum dos dois tem data. O relatório técnico completo foi prometido para quando a investigação terminar. A prova de reservas que a empresa prometeu atualizar sai depois da correção, também sem prazo. Os saques seguem suspensos desde 19h15 de quinta, e a previsão da empresa é reabrir em 45 horas, o que cai na madrugada de domingo.

Três empresas de análise atribuem o roubo ao TraderTraitor, unidade norte-coreana ligada ao grupo Lazarus. A TRM diz ter alta confiança no vínculo, a Chainalysis chegou à mesma conclusão e a Elliptic apontou o elo mais direto, um endereço que recebeu também parte do dinheiro levado da Bitget em setembro. Nenhum governo confirmou a autoria até agora.

Na conta da Elliptic, US$ 2,84 bilhões estão travados e US$ 3,33 bilhões seguem em ativos que nenhum emissor consegue bloquear, repartidos em 43 endereços. São 511.861 ether, 18.270 bitcoin, 670 milhões de TRX e 233 milhões de XRP. Os bitcoin foram divididos em 19 carteiras de mil moedas cada. Quase nada disso passou por uma corretora, uma ponte ou um misturador até agora.

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