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O setor de cripto gastou US$ 200 milhões na eleição e concentrou a aposta onde o democrata lidera

Os Estados Unidos votam nesta terça-feira com mais de 57 milhões de cédulas já depositadas antecipadamente, e o setor de criptomoedas entra no dia como o maior bloco de gasto eleitoral de causa única já registrado no país. Organizações ligadas a ativos digitais passaram de US$ 200 milhões em doações e gastos independentes neste ciclo, no levantamento da Public Citizen, entidade de Washington que acompanha o financiamento de campanhas. A cifra supera a de apostas esportivas online e a de empresas de centros de dados, dois setores que também colocaram dinheiro em candidatos.

Estão em jogo as duas casas do Congresso. As 435 cadeiras da Câmara vão a voto, e os democratas precisam de uma virada líquida de três cadeiras para chegar a 218, o número da maioria. Hoje são 214 democratas contra 218 republicanos e um independente que vota com os republicanos, com duas cadeiras vagas. No Senado são 35 cadeiras em disputa e a conta é mais dura, porque são quatro viradas para sair de 47 e chegar a 51, e a maioria dos estados em disputa foi vencida pelo presidente em 2024.

O mercado de previsão já apontava maioria democrata nas duas casas antes de a primeira urna abrir, e a bolsa americana chega à votação sem euforia, como a sessão de segunda mostrou.

Onde os US$ 200 milhões foram parar

A Fairshake, principal comitê do setor, destinou US$ 154 milhões a candidatos que apoia e ainda mantém caixa separado para o próximo ciclo, segundo a própria organização. Foram 33 candidatos à Câmara, 19 republicanos e 14 democratas, com um piso de US$ 1 milhão para seis deputados que presidem ou integram as comissões de serviços financeiros e de ativos digitais. Do lado republicano entraram Bryan Steil, French Hill e Bill Huizenga. Na bancada democrata, os nomes são Janelle Bynum, Derek Tran e Steven Horsford.

A ponta mais pesada mira um democrata. Cerca de US$ 55 milhões foram para derrotar Sherrod Brown, ex-senador por Ohio que tenta voltar ao cargo, mais de um terço de tudo que a Fairshake gastou em dezenas de disputas.

Os comitês menores seguiram a mesma direção no mês final. O Digital Freedom Fund, bancado pelos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, comprometeu mais de US$ 8 milhões em outubro para travar desafiantes democratas em Ohio, no Texas e em Iowa, e US$ 4,2 milhões desse total foram contra Brown. Já o Fellowship Fund, ligado à Cantor Fitzgerald e à Tether, deu US$ 3,8 milhões a republicanos no começo do ano, entre eles Ken Paxton, e só na reta final acrescentou US$ 600 mil a três democratas, metade para o deputado Ritchie Torres.

Ohio, Texas e Iowa, onde o dinheiro foi contra quem lidera

Nos três estados em que o caixa do setor foi mais longe, a medição da Polymarket aponta o democrata na frente. Ohio dava 71,5% a Brown, o Texas 74,5% a James Talarico e Iowa 53,5% a Josh Turek.

No Texas, o dinheiro foi para Paxton, que venceu a primária contra o senador John Cornyn e tenta manter uma cadeira que os democratas não vencem desde 1988. O Digital Freedom Fund gastou US$ 393 mil contra Talarico e US$ 166 mil a favor do republicano. As pesquisas da última semana deram vantagem ao desafiante por margens de 1 a 9 pontos.

Em Iowa, a proporção se repete. Foram US$ 474 mil contra Turek e US$ 167 mil para a republicana Ashley Hinson.

O Kansas entrou no mapa por outro caminho. Adam Hamilton, pastor metodista, lidera o senador Roger Marshall nas pesquisas divulgadas no fim de semana, em um estado que não elege um democrata ao Senado desde os anos 1930. Nebraska, onde a Fairshake colocou quase US$ 11 milhões para reeleger Pete Ricketts, é a exceção da lista, com o republicano em 67,5% e um independente em 31,5%.

O projeto que o dinheiro queria comprar expira em 3 de janeiro

Todo esse gasto tem um alvo declarado, a lei que define como os ativos digitais são negociados no país. A Câmara aprovou o texto em julho de 2025 por 294 votos a 134. No Senado, a votação de procedimento de 15 de setembro terminou em 49 a 50, distante dos 60 necessários, com toda a bancada democrata contra e a alegação de que as salvaguardas éticas não alcançavam os negócios de cripto da família do presidente.

O calendário não se move com a apuração desta terça. Em 3 de janeiro de 2027, o 119º Congresso termina e leva junto qualquer projeto não sancionado até lá. A legislatura seguinte começa do zero, com texto novo, numeração nova, audiências novas e outra votação de comissão.

Nada disso muda a exigência de 60 votos. Mesmo com 51 cadeiras, um projeto assim continuaria dependendo de apoio republicano para passar. Uma vitória democrata nas duas casas trocaria o autor do texto. O prazo seguiria o mesmo.

O que o mercado já pagou por esta eleição

Nas primeiras horas desta terça, o índice de volatilidade VIX estava em 21,38, contra 19,42 no fechamento de sexta. No mercado de títulos, o juro do papel de dez anos terminou a segunda em 4,89%, depois de marcar 4,99% na quinta anterior. A onça do ouro era negociada a US$ 3.923, e o índice do dólar ia a 101,87.

Em doze meses, o S&P 500 subiu depois das 19 votações de meio de mandato desde 1950, com ganho médio de 15,4%. A série não mede quanto disso é prêmio da eleição. Em todas as janelas de 252 pregões desde 1950, o índice terminou em alta em 75% das vezes, com mediana de 10,9%. Desde 1990, a fatia é de 81%.

Na semana seguinte, a conta é outra. Nas 19 votações, o S&P 500 subiu no dia seguinte em 15, com mediana de 0,6%, e fechou a primeira semana no positivo em 16, com mediana de 1,6%. A pior primeira semana foi a de 2002, com queda de 3,5%.

Se a apuração confirmar as previsões, o setor terá comprado maioria nas duas casas e chegado ao mesmo calendário. O texto precisa ser reapresentado na legislatura que toma posse em 3 de janeiro, e a Fairshake guardou US$ 56 milhões para a próxima rodada.

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