O petróleo caiu 9% depois da eleição por uma paz que ainda não existe
Por volta das 14h40 desta quarta-feira, o Brent era negociado a US$ 94,14 o barril, queda de 9,1% no dia, e o WTI recuava 8,7%, a US$ 87,74. Era a terceira sessão seguida de baixa e o menor nível do petróleo desde o fim de agosto. Na semana, a queda do Brent chega a 17%, contando o contrato de janeiro, que virou a referência depois do vencimento do contrato de dezembro na sexta-feira.
O que derrubou o preço foi a eleição de terça-feira. Os democratas conquistaram a maioria na Câmara e no Senado, e o mercado passou a trabalhar com a hipótese de que o presidente Donald Trump ficará sob pressão para encerrar a guerra com o Irã, iniciada em 28 de fevereiro e que já dura oito meses.
O vice-presidente JD Vance deu o tom na manhã seguinte ao resultado. Em um texto publicado nas redes sociais, atribuiu a derrota republicana à guerra e disse que o partido precisava encarar o assunto de frente. Trump já havia dito na terça-feira que não pretendia atacar o Irã no curto prazo e, nesta quarta, admitiu que o Irã "foi parte" da derrota.
Do lado iraniano, nada acompanhou o movimento. O chefe do conselho de segurança nacional do país classificou de "não satisfatória" a resposta americana às propostas levadas por mediadores. Um alto funcionário iraniano disse na terça-feira que o Irã e os Estados Unidos ainda estão longe de um acordo. O líder supremo, Mojtaba Khamenei, escreveu que a hostilidade americana vai continuar independentemente de quem esteja no poder em Washington.
Já nesta semana o mercado tinha apostado na paz e errado o alvo. Na segunda-feira, o barril recuou 6% com a expectativa de uma trégua que o Irã ainda não havia aceitado.
O que saiu do preço foi o prêmio de guerra
Na véspera do primeiro ataque, em 27 de fevereiro, o Brent fechou a US$ 72,48. Em 31 de março, um mês depois de o Irã bloquear o Estreito de Ormuz, chegou a US$ 118,35. A distância entre os dois extremos, quase US$ 46, é o que o mercado chama de prêmio de guerra, o valor que o comprador paga para garantir que o petróleo chegue ao destino.
Nesta quarta-feira, o barril ainda carregava quase US$ 22 acima do nível de fevereiro, mesmo depois de devolver 9,1% em um só dia. O Brent continua 55% acima do fechamento do primeiro dia do ano, de US$ 60,75. A camada que a eleição tirou é a mais nova, montada ao longo de outubro, quando o preço subiu 13,6% com a aposta de que Trump ampliaria os ataques depois do voto.

Esse prêmio volta rápido. Na sexta-feira, um navio foi atingido por explosivos no Estreito de Ormuz, e o Brent subiu 2,4%, ao maior fechamento desde o fim de abril.
A oferta do Golfo voltou antes da política
Uma parte da queda não depende de eleição nem de acordo assinado. As exportações do Golfo, somando petróleo, condensado e derivados, ficaram em 17,1 milhões de barris por dia em outubro, contra 18,9 milhões em setembro, cerca de três quartos do volume de antes da guerra, pelo rastreamento de navios da Vortexa. A Saudi Aramco disse que vai produzir o máximo possível neste trimestre, e a oferta do Oriente Médio já aparece maior que a demanda no curtíssimo prazo, algo que não acontecia desde julho.
No posto, o alívio ainda não chegou. A média nacional da gasolina estava em US$ 4,12 o galão nesta quarta-feira, contra US$ 3,05 um ano antes, alta de 35%, na medição da AAA. O diesel custava US$ 6,27, perto do recorde de US$ 6,53 de 22 de setembro.
Foi esse preço que entrou na conta da eleição. Vance citou o custo de vida e a inflação entre os quatro motivos que fizeram eleitores de Trump migrar para os democratas.
Do posto para a taxa de juros
Combustível caro vira inflação, e inflação é o que mantém o juro americano no alto. Desde setembro, o juro básico americano está entre 3,75% e 4% ao ano. Em outubro, a decisão de manter o nível teve dois votos a favor de mais uma alta. A próxima reunião é em 9 de dezembro, e um petróleo 17% mais barato em uma semana entra nessa conta pelo lado que o Fed acompanha, o da inflação.
O bitcoin subiu 3,5% nesta quarta-feira, a US$ 80,3 mil, quase o dobro da alta de 1,8% do S&P 500. A moeda continua longe do recorde de outubro do ano passado, e a sessão teve outros detalhes, do fluxo dos fundos ao câmbio, todos nesta matéria.
Em Washington, a mesma eleição mexe com o calendário de quem opera cripto. O Clarity Act, projeto que define como os ativos digitais serão tratados no país, precisa ser votado pelo Congresso atual antes de 3 de janeiro de 2027. Depois dessa data, teria de voltar do zero, com democratas nas comissões do Senado que tratam de SEC e CFTC.
No relatório do banco sueco SEB, a chance de o conflito se arrastar nos próximos três meses é de 60%, e a de um acordo, de 35%. Para voltar aos US$ 72,48 de fevereiro, faltaria a assinatura de um acordo que nesta quarta-feira ainda não existia.
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